A ferrovia chegou tarde a Portugal, na década de 1860, cerca de 50 anos depois de outros países europeus e 40 anos após Espanha. “Desde o início que estamos atrás e nunca recuperámos esse atraso. E não só não o recuperámos, como o acentuámos”, afirma Frederico Francisco.
O especialista sublinha que, ao contrário do que se pensa, o desinvestimento não se resume às últimas décadas: “A última linha nova significativa abriu em 1998, com a travessia ferroviária do Tejo. Antes disso, só em 1940, com a ligação ao Porto de Sines. Falar em 80 anos sem investimento sério na ferrovia não é exagero.”
O encerramento de quase mil quilómetros de linhas entre o final dos anos 80 e início dos anos 90 não foi compensado por novas infraestruturas, ao contrário do que aconteceu noutros países europeus. “O erro não foi encerrar linhas locais de baixa velocidade, mas antes não as substituir por alternativas modernas”, defende.
O desvio do investimento para a rodovia, iniciado nos anos 40 com o primeiro Plano Rodoviário Nacional, marcou o início de uma aposta clara no automóvel. “Assim que o país começou a investir a sério em estradas, deixou de investir em ferrovia”, resume Frederico Francisco. O automóvel, símbolo de estatuto e aspiração social, só se massificou em Portugal nos anos 90, muito depois de outros países europeus, o que contribuiu para o deslumbramento com a rodovia.
Hoje, Portugal tem uma das redes de autoestradas mais densas da Europa, mas continua nos últimos lugares no que toca à ferrovia. Há uma parte de preconceito e outra de interesses económicos. Mas também uma questão cultural: nas cidades europeias, os carros estão a desaparecer do centro. “Em Portugal, essa visão ainda está longe”, observa.
Apesar de um consenso crescente sobre a necessidade de investir na ferrovia, os obstáculos persistem. “O bloqueio político e social está a ser ultrapassado, mas falta o essencial: muitos milhões de euros”, reconhece o antigo governante.
A qualidade do serviço, a pontualidade e o conforto continuam a ser pontos fracos. “Portugal não compra comboios novos há quase 25 anos. O processo de renovação está finalmente desbloqueado, mas a CP terá de substituir toda a sua frota nos próximos 15 anos”, alerta.
Sobre o recém anunciado contrato da CP de 746 milhões para compra de 117 comboios após a resolução de impugnações judiciais, Frederico Francisco esclarece: “Estamos a falar da maior aquisição de comboios de sempre da história da CP e vai permitir substituir o material circulante em algumas linhas fundamentais. Desde logo a linha de Cascais, que tem os comboios mais envelhecidos do país, há comboios a circular que têm 70 anos, já com sucessivas renovações. E ainda vai permitir reforçar a linha de Sintra, os suburbanos do Porto e mudar os regionais da CP”.
A linha de alta velocidade Porto-Lisboa é, para Frederico Francisco, “o projeto de infraestruturas mais importante do país, mais do que o aeroporto ou qualquer outra linha”. O processo está em curso, com concursos lançados e contratos em execução, mas é fundamental que não pare.
No final, fica o apelo ao investimento: “O transporte público deve ser suficientemente bom para que as pessoas o escolham, não por ativismo, mas porque é a melhor opção”.
Mobi boom é o novo podcast do Expresso dedicado à mobilidade, inovação e qualidade de vida nas cidades. O jornalista Luís Costa Branco, pai de dois filhos e ciclista urbano há vários anos, partilha nesta série de entrevistas curtas a sua paixão por formas de deslocação mais sustentáveis e práticas.
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Mobi Boom é um podcast Expresso, com produção Tale House, e a primeira temporada tem o apoio da Kinto.
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