Cancro, covid-19 e doenças cardiovasculares. Estas são as três grandes preocupações dos portugueses relativamente à saúde. Apesar dos números crescentes da pandemia, que desde março do ano passado até agora registou mais de oito mil mortes num total de mais de meio milhão de casos de infeção, as doenças oncológicas continuam a ocupar o primeiro lugar da lista das maiores preocupações dos portugueses relativamente à saúde.
Estes são alguns dos resultados da sondagem GFK Metris para o Expresso, que procura apurar as perceções da população portuguesa no que respeita à saúde (na próxima edição do Expresso apresentamos a segunda parte da sondagem). Com uma amostra constituída por 1018 entrevistas [46% a mulheres e 54% a homens] realizadas em todo o território nacional, junto de vários escalões sociais, o inquérito deixa patente que a população considera as doenças oncológicos como as mais preocupantes, enquanto “as doenças do coração são aquelas que apresentam maior número de doentes em Portugal”.
Respondendo à pergunta “até que ponto cada uma destas doenças o preocupa?”, os inquiridos enunciaram em primeiro lugar o cancro, seguido da covi-19, doenças do coração, Alzheimer e esclerose múltipla. Num inquérito que resultou num total de 12 doenças, a segunda metade da tabela ficou ocupada pela diabetes, pelas doenças reumáticas, pelas hepatites, pela sida, pela asma e pela gripe.
Covid-19 também no pódio
“Atualmente, devido à pandemia que vivemos, será a covid-19 que mais preocupa a população em geral”, começa por explicar ao Expresso Rui Macedo, presidente do Conselho Clínico e de Saúde do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Braga. No entanto, para este médico de saúde familiar as restantes patologias nunca deixaram de estar na lista de preocupações dos utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS). “Refiro-me àquelas doenças que obrigam a ir ao médico, como a diabetes, as doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, e a esclerose múltipla.”
Segundo refere o inquérito — que estabelece uma escala de 0 a 10 quanto ao nível de preocupação —, “em virtude do tempo em que vivemos, a covid-19 é a segunda doença a preocupar mais os portugueses” [ver gráfico], apresentando 44% de respostas correspondentes ao nível máximo, “preocupa-me muito”. Quanto aos níveis mais baixos de preocupação, o inquérito mostra que a covid-19 recolhe percentagens mais reduzidas e pouco significativas em consonância com a evolução da pandemia, o número de infetados e mortos e o espaço mediático que o vírus tem ocupado ao longo do último ano.
As doenças cardiovasculares, responsáveis, em média, por 20 milhões de mortos todos os anos no mundo inteiro, surgem logo a seguir à covid-19, com 35% dos inquiridos a apresentarem níveis de preocupação muito elevados. Questionados sobre quais as doenças com maior número de doentes em Portugal, a maioria respondeu serem as patologias associadas ao coração.
Gripe em último
No mesmo patamar, e com resultados muito semelhantes, as doenças neurodegenerativas surgem imediatamente a seguir às cardiovasculares. Patologias como Alzheimer e esclerose múltipla são das que mais preocupam os portugueses, mas, curiosamente, são também aquelas cuja perceção do número de doentes é mais reduzida: na resposta ao inquérito, apenas 1% acreditam que o Alzheimer é das doenças com mais doentes em Portugal.
Num ano que mudou radicalmente o acesso aos cuidados de saúde e à própria estrutura de atendimento assistencial, a gripe foi a doença que apresentou níveis de preocupação mais baixos, ocupando, sobretudo, os graus mais moderados na escala de gravidade estabelecida na sondagem realizada para o Expresso. Aliás, de acordo com dados do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, nove semanas após o início da época gripal, a gripe apresentava uma taxa de incidência próxima da “zona basal”, ou seja, com níveis equivalentes à ausência da doença.
“Uma das razões para isso será exatamente o uso de medidas de proteção contra o SARS-CoV-2”, explicou Rui Macedo, fazendo a analogia entre as duas doenças e as formas de prevenção. “As pessoas têm a noção de que a máscara e o distanciamento social as protege também da gripe”, disse o médico, acrescentando que na sua zona de atividade “os médicos não deixaram de ver os seus doentes”. “Houve outros locais que fecharam e que foram afetados na vigilância de doentes não-covid. Deixaram de se fazer rastreios, que entretanto já retomaram, mas ainda não conseguimos medir esse impacto. Existem alguns hospitais que continuam sem conseguir dar resposta aos pedidos de consulta.”
O reflexo mais imediato da pandemia foram os rastreios de cancro, que deixaram de ser feitos durante vários meses, sobretudo aqueles que se seguiram ao confinamento e a períodos mais difíceis, com números mais elevados da pandemia. Em outubro de 2020, o presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro, Vítor Rodrigues, alertou para a redução substancial dos rastreios dos cancros da mama e do colo do útero e colorretal. Estima-se que perto de mil cancros tenham ficado por diagnosticar.
Impacto da pandemia: cancelamentos
O tema foi também abordado na sondagem do Expresso, sendo as respostas bem reveladoras do atual estado do tratamento do cancro: 92% dos inquiridos consideraram que a pandemia teve impacto no acompanhamento de doentes oncológicos e 57% afirmaram ter tido atos médicos cancelados devido à covid-19. De acordo com a sondagem, o impacto da pandemia fez-se sentir sobretudo ao nível do diagnóstico precoce, nas consultas e exames de vigilância e pós-tratamento entre aqueles que sofreram ou sofrem de cancro, no acesso aos tratamentos e no acesso aos cuidados paliativos.
Se os hospitais e unidades de saúde tiveram de se reorganizar para dar resposta aos doentes com covid-19, a pandemia teve também outro efeito, que se repercutiu no acesso aos cuidados de saúde: o medo de ser infetado. E entre os doentes oncológicos em tratamento este foi dos principais fatores para evitarem deslocações ao hospital. De acordo com o inquérito, 57% declararam que já tiveram atos médicos cancelados devido à covid-19, um valor que ascende aos 87% para os que sofreram ou sofrem de cancro. “O medo de comparecer a atos médicos que decorrem em hospitais que tratam doentes com covid-19 é maior entre os doentes oncológicos”, refere a sondagem, que apresenta também o impacto do vírus na mortalidade em Portugal.
“Os portugueses tendem a concordar que o aumento da mortalidade em Portugal, quando comparamos março-outubro de 2020 com o período homólogo, se deve, em primeiro lugar, à falta de acesso a cuidados de saúde dos doentes crónicos e, em segundo lugar, ao facto de os próprios doentes faltarem aos tratamentos com receio da pandemia”, conclui o estudo, que deixa para o fim a pergunta mais simples, mas também mais dura de encarar: se a sobrevivência dos doentes oncológicos vai aumentar ou diminuir após o início da pandemia. Apenas 9% consideraram não ter havido influência do vírus. A maioria, perto de 47%, não mostrou dúvidas: a pandemia diminuiu a sobrevivência dos doentes oncológicos.
64
é a percentagem de quem já conviveu com o cancro na sua família, enquanto 39% já tiveram contacto com alguém próximo com cancro. Apenas 18% dos inquiridos desconhecem casos oncológicos
2%
dos inquiridos revelaram que tiveram ou têm cancro, tendo também convivido com a doença através de familiares e pessoas próximas
52%
dos portugueses já pesquisaram sobre o cancro e 88% consideram necessário existir mais informação acerca da doença
10
é a percentagem de portugueses que já sofreu efetivamente desta doença. Com a evolução dos tratamentos e da ciência, 75% dos inquiridos acreditam que o diagnóstico não é uma sentença de morte
Ficha tecnica: Esta sondagem foi realizada pela GFK Metris entre 24 e 29 de novembro de 2020, tendo por base uma amostra de 1018 entrevistas a partir de um universo constituído por indivíduos de ambos os sexos e idade igual ou superior a 18 anos. A informação foi recolhida através de entrevista online
Textos originalmente publicados no Expresso de 15 de janeiro de 2021

