Coronavírus

De quarentena ou isolamento: e agora?

Tira-dúvidas

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfico e Multimédia

O que podemos ou não fazer depois do novo coronavírus ter passado a pandemia? O que deve mudar no nosso dia-a-dia? Há recomendações para todos: doentes, casos suspeitos e população em geral, de quarentena ou isolamento social.

Especial Coronavírus

A 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a Covid-19 como pandemia, alegando "níveis alarmantes de propagação e inação".

Numa declaração para o Mundo, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que "os países podem ainda mudar o curso desta pandemia se detetarem, testarem, tratarem, isolarem, rastrearem e mobilizarem as pessoas".

“Estar em isolamento não é estar de férias”

Em Portugal, no mesmo dia, a diretora-geral da Saúde Graça Freitas e a ministra da Saúde Marta Temido deixaram um recado aos muitos portugueses que aproveitaram a tarde para ir à praia ou aos centros comerciais.

Graça Freitas deu o exemplo das escolas que tomaram a iniciativa de mandar os alunos para casa para referir que os deviam ter informado que se trata de uma medida para isolamento.

"Não é fechar a escola e os alunos atravessarem a rua e irem para o centro comercial confraternizar ", avisou a diretora-geral da Saúde.

Na zona norte do País, várias autarquias tiveram que avançar logo no início da semana com planos de prevenção. O maior foco de infeção estava localizado em Lousada e Felgueiras, onde nem todos respeitaram a quarentena.

Importa, por isso, perceber o que está em causa quando se fala de isolamento e de quarentena.

O que é o isolamento de doentes?

De acordo com a Direção-Geral de Saúde, considera-se isolamento dos doentes a separação ou confinamento de pessoas com suspeita ou com infeção.

O objetivo desta medida é impedir o estabelecimento de cadeias de transmissão e atrasar e reduzir a transmissão comunitária disseminada, pela redução de contacto entre indivíduos doentes e suscetíveis.

Dado que se desconhece o período de contagiosidade, assume-se para a implementação desta medida que o mesmo durará até ao final do período sintomático. Este isolamento pode ocorrer em unidade hospitalar, domicílio ou outro, dependendo da fase da epidemia e da gravidade do quadro clínico.

Habitualmente, o isolamento é voluntário e aceite mediante indicação médica. Em situações extremas, de recusa do doente, pode ser necessário determinar o seu isolamento coercivo, sendo para tal mandatório recorrer ao exercício do poder da Autoridade de Saúde.

Durante a mitigação, com disseminação comunitária generalizada do vírus, o isolamento dos doentes (independente da confirmação laboratorial) deverá ser feito no domicílio ou instituição hospitalar, de acordo com a gravidade da doença e o nível de cuidados necessário.

Os aspetos relativos à gestão de caso e controlo de infeção (em especial daqueles em isolamento domiciliário) são tratados em orientações técnica específica.

Anton Vaganov

O que é a quarentena?

A quarentena terá maior impacto na redução da transmissão quando ainda não há circulação generalizada do vírus na comunidade.

A quarentena ou isolamento de contactos refere-se à separação ou restrição de movimentos e de interação social de pessoas que possam estar infetadas com SARSCoV-2, porque estiveram em contacto próximo com caso confirmado de COVID-19, mas que se mantêm assintomáticas.

O objetivo desta medida é impedir o estabelecimento de cadeias de transmissão e atrasar o início da transmissão comunitária disseminada, podendo justificar-se a sua implementação, de acordo com o nível de exposição do contacto, durante a contenção.

A duração deve ser, de acordo com o conhecimento atual, de 14 dias desde o último contacto com o caso confirmado de COVID-19, podendo variar à medida que se for tendo mais conhecimento sobre o período de incubação e período de contagiosidade do vírus.

O isolamento pode ser levado a cabo no domicílio ou em local designado para o efeito. No caso de isolamento dos elementos do agregado familiar, a sua duração pode ser alargada por mais um período de incubação se outro membro do agregado familiar vier a ser um caso confirmado de COVID-19.

O isolamento, quando tecnicamente justificado, pode ser aceite voluntariamente ou, em situações de recusa, ser determinado pela Autoridade de Saúde.

Habitualmente, o que é recomendado aos contactos de casos prováveis ou confirmados de COVID-19 é o confinamento na habitação e a restrição de contactos sociais durante o período de 14 dias após a ocorrência da exposição.

A vigilância ativa ou passiva dos contactos de casos confirmados deve ser efetuada de acordo com orientações específicas.

A Covid-19 nos grupos de risco, nas grávidas e nas crianças

Uma arma contra o vírus

A quarentena tem sido apontada pelos especialistas como a mais eficaz arma contra a Covid-19.

Ricardo Mexia, médico de Saúde Pública do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANMSP), refere que há diferenças entre quarentena de doentes e de contactos indiretos ou suspeitos com pessoas infetadas.

"A quarentena é um isolamento em que nós colocamos os doentes ou os contactos por forma a evitar que transmitam a doença a terceiros. Portanto, neste momento, estamos a isolar os casos na sua maioria em contexto hospitalar, em alguns hospitais de referência e alguns já estão a ficar em isolamento também em casa. No que toca aos contactos, eles estão a ficar nos seus domicílios e, portanto, também cumprem o tempo de incubação, os tais 14 dias.”

A questão ganha ainda mais importância quando o país transita da fase de contenção para a de mitigação, a mais grave de todas, quando o novo coronavírus deixa de estar circunscrito às seis cadeias de transmissão identificadas em Portugal e passa a estar disseminado na comunidade. E, aqui, os comportamentos fazem ainda mais a diferença, a chamada contenção social, porque este vírus transmite-se pelo contacto pessoal. O mais importante para Ricardo Mexia é perceber a realidade agora que os rastreios foram alargados:

Sou obrigado a ficar de quarentena? É possível o isolamento obrigatório?

Este asunto tem levantado dúvidas. Se a infeção for confirmada, a questão torna-se mais simples, mas se for uma medida de prevenção ganha contornos legais, de liberdade e garantias dos cidadãos.

"Nós temos um enquadramento que é objetivo para os doentes, mas no que toca aos contactos o nosso enquadramento não é tão claro assim. Há quem defenda que temos mecanismos legais para impor uma quarentena ou isolamento a contactos e há quem tenha um entendimento contrário", explica Ricardo Mexia.

Segundo um artigo da revista científica da Acta Médica Portuguesa, o artigo 283.º do Código Penal já prevê o crime de propagação de doença contagiosa, punido pena de um a oito anos de prisão para quem propagar doença contagiosa e criar, deste modo, perigo para a vida, ou perigo grave para a integridade física de outrem.

Entrando na fase de mitigação, quando o vírus começa a circular e já não se consegue seguir o rasto às as cadeias de transmissão, a forma como nos relacionamos e deslocamos deve ser repensada e o isolamento social instituído.

Se a doença já tiver sido sinalizada, com contacto direto ou infeção, a quarentena e o isolamento são mandatórios, e os grupos de risco devem ter cuidados adicionais:

  • Limitar o contacto próximo com outras pessoas;
  • Evitar multidões.

Assim que existir um caso confirmado na comunidade:

  • Evite o contacto próximo com pessoas;
  • Sempre que possível, mantenha-se em casa;
  • Preste atenção aos sinais e sintomas;
  • Se ficar doente, permaneça em casa e ligue para o SNS24.

Medidas (para todos) que estão na primeira linha de proteção

Nas áreas afetadas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda medidas de higiene e etiqueta respiratória para reduzir a exposição e transmissão da doença:

  • Tapar o nariz e a boca quando espirrar ou tossir, com um lenço de papel ou com o antebraço, nunca com as mãos, e deitar sempre o lenço de papel no lixo;
  • Lavar as mãos sempre que se assoar, espirrar, tossir ou após contacto direto com pessoas doentes. Deve lavá-las durante 20 segundos com água e sabão ou com solução à base de álcool a 70%;
  • Evitar contacto próximo com pessoas com infeção respiratória;
  • Evitar tocar na cara com as mãos;
  • Evitar partilhar objetos pessoais ou comida.

Ficar em casa é essencial, lembra o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia: "Devem ficar em isolamento, ou seja, devem ficar nos seus domicílios ou num espaço específico para esse efeito e devem evitar contacto com outras pessoas, incluindo as do seu agregado familiar. Ou seja, não é por estarem em casa que depois acabam por poder conviver com os seus familiares."

Dentro de casa: que cuidados devo ter?

Não podemos esquecer que as famílias são constituídas por vários elementos dispersos por vários contextos e realidades. E quando a escola e o trabalho acabam, essas diferentes realidades juntam-se, por exemplo, à mesma mesa. Pelo caminho, fizeram compras e cruzaram-se com ainda mais realidades. Daí a importância do isolamento social, para evitar que o surto alastre enquanto ainda não está disseminado.

Ricardo Mexia alerta também para a importância da separação e da limpeza: das mãos e de todas as superfícies, onde possa existir a infeção.

Têm que estar idealmente separados dos coabitantes, e se for possível usarem uma casa de banho própria. Atenção muito clara ao desenvolvimento de sintomas. Uma vez desenvolvendo-se, devem sinalizar-se desde logo às equipas que estão responsáveis pela vigilância ativa ou diretamente à linha SNS 24. (...) É preciso um cuidado adicional na limpeza das superfícies que possam, eventualmente, ter sido contaminadas pela presença de uma pessoa que está em isolamento. Ser mais proactivo na limpeza da casa, principalmente nas superfícies em que haja manipulação, explica.

Separação e limpeza: tão importante como lavar as mãos

O novo coronavírus sobrevive em superfícies metálicas até 9 dias e nos tecidos entre 6 a 8 horas. Nas mãos o Covid-19 só consegue sobreviver entre 5 a 10 minutos, mas muito pode acontecer nesse tempo e basta levar as mãos à cara (olhos, nariz boca).

Lavar as mãos frequentemente e limpar todas as superfícies suscetíveis de estarem infetadas é por isso vital, em especial se já existir um caso confirmado em casa.

Quando se convive com alguém infetado pelo Covid-2019

É imprescindível fazer uma limpeza diária completa para evitar novas infeções. Atenção especial deve ser dada às superfícies em que a pessoa infetada possa ter tocado.

  • A pessoa responsável pela limpeza deve usar máscara e luvas.
  • Para a limpeza, deve ser usada uma solução de água sanitária
  • Limpar diariamente todas as superfícies de contacto frequente: maçanetas, mesas, interruptores, torneiras, vasos sanitários, telefones e teclados.
  • A louça e os utensílios devem ser lavados com água quente e sabão, de preferência em uma máquina de lavar louça para alcançar os 60ºC.
  • A roupa do paciente pode ser lavada separadamente com o detergente habitual a uma temperatura entre 60º e 90ºC. Deixar secar totalmente.

Handout .

Outros conselhos importantes para quem está em isolamento

  • Mantenha-se informado: consulte diariamente as informações oficiais sobre a evolução da Covid-19 e as recomendações às populações
  • Peça ajuda a familiares e amigos para evitar sair de casa. As entregas ao domicílio de refeições e medicamentos pode resolver as faltas essenciais
  • Continue em contacto com os familiares, para mitigar o isolamento. A internet coloca à disposição inúmeras ferramentas de comunicação
  • Relaxe: já está de quarentena, já está a proteger-se e aos mais próximos
  • Tente fazer exercício físico: aproveite para experimentar exercícios simples em casa (há vídeos online que ajudam à prática de exercícios físicos em casa, yoga, meditação ou até dança, com vídeos online que ajudam a inspirar-se.
  • Mantenha a rotina: atenção à alimentação saudável, ingestão de muita água e manter a rotina do dia, para preservar a atitude positiva

A DGS preparou um dossier sobre o COVID-19, que responde a várias perguntas:

Veja também:

  • Governo admite aumento de pressão sobre os hospitais

    Coronavírus

    No dia em que o balanço da Direção Geral de Saúde dá conta de 311 mortes e 11.730 casos de Covid-19 em Portugal, o Governo admite que aumentou a pressão sobre os hospitais. Esta segunda-feira, ficou ainda a saber-se que o País já tem um mapa de risco de infeção por coronavírus. Em Londres, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson está internado nos cuidados intensivos. Em Espanha, o número de óbitos desceu pelo quarto dia consecutivo. Já os Estados Unidos ultrapassaram as 10 mil mortes. A pandemia do novo coronavírus já matou, desde dezembro, 73.139 pessoas e infetou mais de 1,3 milhões em todo o mundo.

    Direto

    SIC Notícias