Coronavírus

Amor e família em tempos de Covid-19 e isolamento

Handout .

Medo, isolamento e muitas dúvidas são três ingredientes que, juntos, se podem transformar numa mistura explosiva. Importa, por isso, dar voz à psicóloga e terapeuta de casal Virgínia Rodrigues. Uma entrevista que ajuda a lidar com as consequências do isolamento social, numa altura em que o País está a viver em estado de emergência devido à pandemia de Covid-19.

Especial Coronavírus

Portugal está em Estado de Emergência. Apesar de, nas últimas semanas, muitas famílias terem já optado pelo isolamento social, a maioria, se não mesmo todos os portugueses, desconhece a realidade do confinamento obrigatório.

E, à medida que o tempo passa, os primeiros dias de quarentena vão já ficando marcados por algumas dúvidas, publicadas amíude nas redes sociais, num registo humorístico: Vai aumentar a taxa de divórcios? Afinal a minha mulher parece ser uma pessoa simpática. Os papéis estão invertidos. Como é que explico ao meu pai que não pode sair de casa?

Piadas aparte, Virgínia Rodrigues, psicóloga e terapeuta de casal, acredita que a reestruturação familiar, que resulta destas novas circunstâncias, pode ser um fator de desgaste para as famílias.

Em entrevista à SIC Notícias, a que também respondeu a partir de casa, em regime de teletrabalho, a psicóloga falou do medo, e de como lidar com as consequências do isolamento social.

Porque é que o isolamento social é tão difícil de gerir e desencadeia tanta ansiedade?

O isolamento social é uma situação desconhecida para a maioria de nós, até aqui. Podemos ter uma ideia, imaginar, mas apenas isso, uma vez que nunca vivemos uma situação idêntica. Tal como uma criança tem medo do escuro porque imagina o ‘bicho papão’, todos nós temos medo do desconhecido, porque é algo novo em que nos sentimos fora de controlo.

Na verdade, o medo que todos sentimos é uma função protetora do nosso organismo, que lança uma sensação de estado de alerta. É um movimento natural e inato, o que não significa que nos deixemos dominar por ele.

Como é que devemos lidar com esse stress? Que pequenos gestos do dia-a-dia podem ajudar?

A primeira coisa a fazer é aceitar o que estamos a sentir (medo, confusão, frustração) e compreendermos que é natural. Depois, é essencial conhecermos e acreditarmos nas nossas ferramentas para lidar com esta nova situação.

O ser humano tem uma excelente capacidade de adaptação e, no entanto, tem uma tendência a resistir à mudança. No caso de uma pandemia, não há como fugir, ignorar ou contrariar o que está a acontecer.

Temos uma estrutura psicológica que nos permite observar o que se passa à nossa volta e distinguir o que não controlamos daquilo que está ao nosso alcance fazer. Isto significa, agirmos em consciência, em prol do bem estar individual, familiar e da sociedade em que estamos inseridos.

Irmos a correr ao supermercado e trazermos mercearia em massa é um exemplo de uma reação que surge de um instinto protetor mas que é irrefletido e traz-nos uma sensação de falsa segurança. Ou seja, uma segurança instantânea e de curta duração. O que nos dá verdadeiramente uma sensação de segurança efetiva, mas sólida e prolongada no tempo, são os pequenos movimentos do dia a dia que cada um decide fazer.

Aly Song

Pequenos gestos do dia a dia: Manter uma rotina é essencial, ainda que adaptada à nova forma de estar: manter a higiene, fazer uma alimentação saudável, praticar exercício físico, contactar amigos e família via telefone, são medidas que ajudam à sensação de bem estar psicológico e segurança.

Há já bastantes documentos sobre isto, dos quais destaco os vídeos e documentos de apoio da Ordem dos Psicólogos. Estas são medidas individuais essenciais. Contudo, o que mais me preocupa, como psicóloga e terapeuta de casal, é a reestruturação familiar.

Neste momento já se percebe que não há falta do que fazer em casa. Há antes uma sobreposição de funções que pode levar a um grande desgaste das famílias: os pais estão em teletrabalho, as crianças têm aulas virtuais com trabalhos e exercícios para apresentar e mantém-se as tarefas domésticas, tudo no mesmo espaço e num tempo útil insuficiente para tudo. Rapidamente, esta sobrecarga pode aumentar o stresse, a frustração, a sensação de incapacidade. Se nas famílias monoparentais pode aumentar o cansaço físico e psicológico, nas famílias biparentais pode promover o conflito entre o casal.

A meu ver, todas as relações conjugais, quer as mais estáveis, quer as que já estavam fragilizadas, vão ser postas à prova. Seja qual for a estrutura familiar, é fulcral estabelecer prioridades, fazer uma boa gestão de tempo, relativizar o que ficar para trás e avaliar o dia para melhorar o que correu pior e reforçar o que correu bem.

Em casal, é desejável falar-se sobre o que se sente de uma forma construtiva. Se o casal funcionar como uma boa equipa, não só alivia a tensão, como promove a estabilidade. Pode ser uma oportunidade para desenvolver a cumplicidade.

As redes sociais facilitam ou adensam o problema?

Podem facilitar ou adensar, dependendo da forma como se utilizam as redes sociais. Se lermos tudo o que está a circular sobre COVID-19, ainda mais sem verificarmos as fontes, claramente a tensão aumenta, a confusão fica instalada e o stresse dispara, já que a sensação de descontrolo é ampliada. É como se estivéssemos a alimentar o ‘bicho papão’.

Andreas Gebert

De uma forma positiva, as redes sociais podem ser utilizadas: como uma fonte de informação, desde que se escolham poucas fontes e apenas as que são oficiais e fidedignas; como um meio de manter as relações que façam falta no dia a dia; como uma via para usar o humor de uma forma saudável e consciente, claro.

Considerar esta pandemia com a seriedade que ela merece, não invalida que não nos possamos rir. Aliás, rir é essencial para o bem estar psicológico.

Qual a importância de movimentos da sociedade como as que temos assistido, de solidariedade para com os profissionais do SNS, as músicas cantadas às janelas ou os concertos online?

A meu ver, a maioria destes movimentos são muito positivos, desde que as pessoas se sintam na liberdade de escolher participar ou não e, para essa liberdade, não pode ser um movimento invasivo.

Para quem escolhe participar, pode nutrir um sentimento de pertença e de que a vida pode continuar; nem tudo tem que parar, ser cancelado. Poder-se assistir a concertos online, ver exposições virtuais ou participar num movimento coletivo de gratidão, mantém uma sensação de “normalidade”, de continuidade e diminui o sentimento de isolamento.

Os chamados grupos de risco tendem a sentir mais o medo e a ansiedade?

Sinceramente, não me parece que seja uma regra. Há pessoas que não estão num grupo de risco e que se sentem mais vulneráveis do que algumas pertencentes aos grupos de risco.

Falando em grupos de risco, preocupam-me os mais velhos, sobretudo por sofrerem mais com o isolamento social: não utilizam as redes socias, o que diminui a tensão da desinformação, mas pode ampliar o isolamento; perdem o propósito de vida, sem o seu papel de pais ou de avós ativo ou mesmo sem o convívio comunitário.

A população mais velha é um grupo de risco no combate a este vírus, mas também um grupo de risco no que é viver, verdadeiramente o isolamento.

Neste caso, as estratégias propostas pela Ordem dos Psicólogos podem ser muito eficazes: saber que esta medida de isolamento não é permanente e vai terminar; manter-se informado apenas por fontes oficiais como a DGS ou a OMS; pedir ajuda sempre que precisar e estar atento aos sintomas, valorizando-os e ligar para o SNS24; promover o contacto telefónico com a família e amigos; fazer em casa atividades que dão prazer; manter a rotina habitual o mais possível.

E as crianças? De que forma podem os pais detectar sinais de que os filhos podem estar sob stress? E o que podem/devem fazer para contornar o problema?

Não há propriamente comportamentos específicos. A forma mais fácil de ler as manifestações de stresse é estar atento a comportamentos fora do habitual: se pedem mais ajuda para tarefas que já faziam autonomamente, se pedem mais colo que o habitual, se manifestam mais irritabilidade e agitação, se dormem mais que o habitual. Tudo o que for a mais ou a menos que o habitual e não há ninguém que conheça melhor as crianças que os seus pais.

Pavel Mikheyev

O que fazer? É muito importante compreender estes comportamentos, muitas vezes mais infantis, como sinais de que a criança está em dor. Não é um capricho ou uma manipulação perversa. É um mecanismo para a criança receber mais atenção, para ser mais contida, de forma a sentir-se mais segura e apaziguar o medo.

É importante os pais serem compassivos, estarem disponíveis, o que não é fácil nesta altura, mas tão fundamental; manter as rotinas o mais possível, apesar das crianças se adaptarem com facilidade ao novo; explicar, de forma simples, sucinta e adequada a cada idade o motivo das diferenças no dia a dia; deixar espaço para as questões que possam surgir; se os pais estiverem mais unidos e seguros, os filhos sentirão essa segurança.

Documentos de apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses:

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    SIC Notícias