Coronavírus

OMS preocupada com o aumento de falsos medicamentos para a Covid-19

Eric Gaillard

O alerta vem da Organização Mundial de Saúde.

Especial Coronavírus

Há uma corrida à medicação nos países africanos, e está associada à pandemia de coronavírus. Na origem do problema esteve o enorme aumento da procura de medicamentos básicos.

Um pouco por todo o mundo, as pessoas fizeram reservas de medicação em casa, o que fez com que tenha havido um défice na resposta, abrindo espaço no mercado aos falsificadores.

Em causa poderão estar medicamentos contaminados, que contenham a substância activa errada, que não contenham nenhuma, ou que possam estar fora de prazo.

A OMS está agora preocupada com a gravidade dos efeitos colaterais que a toma destes medicamentos possa causar.

"Na melhor das hipóteses, estes medicamentos provavelmente não tratarão a doença para a qual foram concebidos. Mas, na pior, eles causam danos, porque podem estar contaminados com algo tóxico", disse à BBC Pernette Bourdillion Esteve, da OMS.

Em apenas 7 dias, a Unidade Global de Combate à Criminalidade Farmacêutica, da Interpol, efectuou 121 prisões, em 90 países.

Da Malásia a Moçambique, além dos medicamentos - muitos dos quais prometiam a cura para o vírus, foram confiscadas também dezenas de milhares de máscaras falsificadas.

O comércio ilícito de produtos médicos falsificados durante uma crise de saúde pública mostra uma total desconsideração pela vida das pessoas", afirmou o secretário geral da Interpol, Jurgen Stock.

À BBC, várias empresas farmacêuticas da Índia - país que fornece 20% de todos os medicamentos básicos consumidos em África, admitiram que estão agora a operar com 50 a 60% de sua capacidade normal. Isto faz com que os países africanos estejam sendo desproporcionalmente afetados por este problema.

Ephraim Phiri, farmacêutico na capital da Zâmbia, Lusaka, explica que a tensão no mercado já está a produzir efeitos."Os medicamentos já estão a acabar e não estão a ser repostos. Não há nada que possamos fazer. Foi realmente difícil conseguir suprimentos, especialmente medicamentos essenciais, como antibióticos e antimaláricos".

Produtores e fornecedores atravessam as mesmas dificuldades, dado que o preço da matéria-prima para o fabrico dos comprimidos disparou, e algumas empresas não estão a conseguir fazer face à subida.

O caso da cloroquina é particularmente problemático para o sector.

Farmacêuticos e empresas de todo o mundo temem que o fornecimento global de antimaláricos esteja agora ameaçado.

Desde que o presidente dos Estados Uunidos da América, Donald Trump, começou a defender o potencial da cloroquina, e de um derivado relacionado, a hidroxicloroquina, nos briefings da Casa Branca, houve um aumento global da procura por medicamentos que, normalmente, são usados para combater a malária.

A OMS tem insistido na ideia de que não há qualquer evidência de que estas substâncias obtenham resultados positivos na cura da Covid-19.

Um alerta que, aparentemente, não está a resolver o problema.

A BBC afirma ter descoberto grandes quantidades de cloroquina falsa em circulação na República Democrática do Congo e nos Camarões. A OMS também encontrou medicamentos falsificados à venda no Níger.

Os medicamentos encontrados, teriam sido, alegadamente, fabricados na Bélgica, pela "Brown and Burk Pharmaceutical Limited". Mas, a empresa garante que nada tem a ver com o produto transaccionado: "Nós não fabricamos este medicamento, é falso".

Para o professor Paul Newton, especialista em medicamentos falsos da Universidade de Oxford, a única solução para fazer face a este fenómeno, é que os governos de todo o mundo apresentem uma frente unida.

"Arriscamos uma pandemia paralela, de produtos abaixo do padrão e falsificados, a menos que todos garantamos que exista um plano global, coordenado, para produção coordenada, distribuição equitativa e vigilância da qualidade dos testes, medicamentos e vacinas. Caso contrário, os benefícios da medicina moderna serão perdidos ".