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Estudar e ensinar em casa. O que mudou na vida de alunos, professores e pais

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Dez meses depois, os alunos de todo o país regressam ao ensino à distância. Com as entregas dos computadores em atraso, as aulas retomam dentro de dias e poucos encarregados de educação sabem como irão decorrer as próximas semanas. As diretrizes só chegaram esta semana às escolas, obrigando os professores a trabalhar - novamente - em contra-relógio.

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A mochila não precisa de estar preparada para que as aulas comecem. Segunda-feira, as crianças e jovens regressam ao ensino à distância, voltando à escola através do computador. Desta vez, não é uma novidade e houve mais preparação por parte dos alunos, professores e também dos pais. Com as vivências de abril muito presentes na memória de todos, a opinião é unânime: o ensino à distância não é a mesma coisa.

Francisco Mingatos, de 11 anos, começou por limpar o espaço onde tem o computador. Está a frequentar o quinto ano na escola EB 2/3 Lima-de-Faria, em Febres, e já tem tudo pronto para voltar a aprender. Marta Dias, de 14 anos, também já tem os livros em casa e vai encontrar-se via online com os professores dos Salesianos do Estoril, onde frequenta o nono ano. Enquanto as aulas não começam, vai adiantando “os resumos das várias matérias dadas”.

A preparação dos alunos não implica grandes mudanças e ainda pouco se sabe sobre como irá acontecer o regresso ao ensino à distância. Durante as últimas duas semanas, alunos e professores estiveram em interrupção letiva, mas as diretrizes do Ministério da Educação só chegaram às escolas esta terça-feira.

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A organização e o método utilizado no ensino à distância será determinada por cada agrupamento de escolas, tendo por base os pontos definidos pela Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE). Numa nota enviada às escolas, a DGEstE alerta para a preocupação de encontrar "um equilíbrio entre atividades síncronas e assíncronas que proporcione tempo de atenção dispensada em ecrã e tempos de trabalho assíncrono, em função dos diferentes níveis de ensino e das condições específicas da cada turma”.

O calendário escolar foi também alterado devido à pausa implementada de urgência a 21 de janeiro. Para compensar, foi suspensa a pausa letiva de Carnaval, prevista de 15 a 17 de fevereiro, e foram alteradas as férias da Páscoa – que passam a decorrer entre 29 de março e 1 de abril. As datas de término do ano letivo e o calendário de provas e exames será conhecido a 12 de fevereiro.

Esta última semana ficou marcada por reuniões de professores. Os docentes estão novamente a preparar um ensino exclusivamente à distância, à semelhança do que aconteceu no terceiro período do ano letivo passado. “A preparação está a ser feita agora nestes últimos dias. Esta quinta-feira houve uma enxurrada de informação e de decisões do Conselho Pedagógico”, explica Fernanda Faria, de 57 anos e professora de inglês do 2.º ciclo no Agrupamento de Escolas da Zona Urbana da Figueira da Foz. A professora faz ainda referência ao atraso na entrega do material necessário para os alunos acompanharem as aulas.

Os pais e encarregados de educação aguardam pelas informações vindas dos diretores de turma. Há quem tenha já reuniões marcadas para saber em que moldes irá decorrer este novo ensino à distância e quem aguarde por informações que teimam em não chegar. Enquanto isso, o Francisco vai decorando a principal regra para os próximos tempos: “Quando a professora está a apresentar uma coisa, temos de estar calados e depois, no final, se tivermos alguma dúvida, levantamos a mão. Eles veem e dizem para ligarmos o microfone, fazer a pergunta e depois colocar em 'mute' outra vez”, explica.

MANUEL DE ALMEIDA

Apoios tardam e pais obrigados a investir em tecnologias

À semelhança do que aconteceu no ano passado, as escolas enviaram para os pais e encarregados de educação um questionário sobre a existência de material informático em casa para que fosse possível acompanhar o ensino à distância. No caso dos estudantes mais velhos, este levantamento foi feito diretamente com o aluno.

“As perguntas que foram feitas inicialmente foram exatamente as mesmas: tem sistema informático? Tem condições em casa para poder ter aulas online? Caso não tenha preencha o formulário X, Y, Z dirigido à escola ou à entidade camarária para poder facultar o equipamento”, conta Teresa Marreiros, desempregada de 52 anos e mãe de Artur Azevedo, de 15 anos, que está a frequentar o 10.º ano na Escola Secundária Padre António Martins de Oliveira, em Lagoa.

No caso do Artur, não foi necessário solicitar material. O mesmo não aconteceu com Tânia Carvalho, de 16 anos, a quem o Agrupamento de Escolas Figueira Mar, que frequenta juntamente com os dois irmãos mais novos – Alexandre e Gabriel –, emprestou um computador para que pudesse acompanhar as aulas.

“A escola dos meus três filhos tentou perceber se tinham PC, se tinham tablet, se tínhamos internet e que tipo de internet tínhamos. A escola emprestou um computador à mais velha porque são três. Foi um empréstimo de dois anos, porque ela está no 11.º, e o computador mantém-se com ela até ao 12.º e depois é devolvido”, conta Elisabete Gomes, de 49 anos e enfermeira no Hospital Distrital da Figueira da Foz.

Para os alunos que não tinham equipamento, as escolas e as autarquias juntaram-se e disponibilizaram computadores e hotspots de acesso à internet. Raquel Antunes, de 40 anos e professora de 1.º ciclo na EB n.º2 de Rinchoa, em Sintra, conta que, na região onde leciona, “já foram distribuídos computadores, dando primazia aos alunos que têm escalão A – que são aqueles que, em princípio, têm mais carência económica”, sublinha referindo que o material entregue inclui um computador, um hotspot para ligação à internet e fones.

Em Mação, onde Lucília Nogueira, de 50 anos, é professora de português do 3.º ciclo e secundário, houve também um apoio da autarquia para disponibilizar o material necessário aos alunos.

Apesar do esforço para que todos possam ter acesso às aulas, há ainda atrasos na distribuição de computadores pelos alunos, o que irá fazer com que alguns estudantes percam o retomar da atividade letiva esta segunda-feira. O Governo aprovou esta quinta-feira, em Conselho de Ministros, a “aquisição de computadores e conectividade para o acesso e utilização de recursos didáticos” para utilizar durante o período de ensino à distância. Com esta aprovação irão ser comprados mais 15 mil computadores, num total de 4,5 milhões de euros investidos.

Lindsey Wasson

Os preparativos dos pais para o regresso à escola online

O apoio material não chega a todos e alguns pais tiveram de investir em material. Sílvia Mingatos, mãe do Francisco, e Helena Pereira, mãe da Marta, estão entre o grupo de encarregados de educação que teve de fazer esse investimento para que os filhos pudessem acompanhar as aulas e realizar os trabalhos pedidos pelos professores.

“A primeira coisa que tive de adquirir foi um computador porque anteriormente ele via [as aulas] através do telemóvel. Para fazer os trabalhos era complicado”, explica Sílvia Mingatos, com 47 anos e funcionária nos CTT. No caso da Marta, Helena Pereira, bancária de 51 anos, teve de comprar “algumas ferramentas como impressora para possibilitar o trabalho”.

Para além do investimento tecnológico, muitos pais estão agora a organizar os seus horários para poderem acompanhar ao máximo os filhos no ensino em casa, principalmente os mais novos. Elisabete Gomes já está a organizar os turnos para poder estar mais tempo em casa durante a semana, uma vez que o marido também trabalha fora. “Já estou a organizar o meu horário para estar mais sobrecarregada ao fim de semana. Ainda por cima, estando a trabalhar na área dedicada à covid-19, tenho de fazer turnos de 12 horas”, explica.

Em casa de Sílvia Mingatos, quem irá acompanhar o filho é a irmã mais velha que está a estudar na universidade e também tem aulas à distância. Para Maria Celina Vicente, de 47 anos e professora num centro de reabilitação e integração infantil, são os avós que tomam conta do Manuel, de 10 anos e aluno do quarto ano no agrupamento de escolas Santa Iria, em Tomar, e do Afonso, de 17 anos que anda no 11.º ano no agrupamento de escolas Nuno de Santa Maria.

Há ainda situações em que a adaptação ao ensino à distância é dupla: se por um lado Fernanda Faria teve de se acostumar a dar aulas através das plataformas disponíveis para comunicar com os alunos, por outro foi também forçada a organizar-se de modo a conciliar o seu horário com o da filha de 16 anos que estuda no 11.º ano da Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho, na Figueira da Foz.

“Nós temos dois computadores, mas só um é que tem câmara. Como tal só esse é que podia ser utilizado para as aulas síncronas. Tentámos ajustar o nosso horário”, explica sublinhando que o sistema funcionou no ano passado, mas que este ano já foi necessário investir num novo computador.

Professores investiram em formações

Se a 13 de abril de 2020 o ensino à distância chegou quase de surpresa, desta vez a possibilidade de regressar a casa já está em preparação há quatro meses. Mesmo assim, permanecem as falhas nas promessas que o Governo fez, de que iria entregar computadores a todos os alunos carenciados e dar acesso à tarifa social para a Internet.

Nas escolas, os professores foram tendo formação para aprenderem a trabalhar melhor com as diferentes plataformas - seja a Google Classroom, a Microsoft Teams, a Milage Learn+ ou de qualquer outra ferramenta de ensino à distância. Para os alunos, as mesmas plataformas passaram a ser incluídas no programa letivo de disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), de forma a preparar as crianças para a eventualidade de voltar ao ensino à distância.

“Não fomos apanhados de surpresa. Já houve formação de alguns professores e vai haver mais”, avança Lucília Nogueira, professora do 3.º ciclo e secundário no Agrupamento de Escolas Verde Horizonte, em Mação. “Desta vez já estávamos preparados para a possibilidade do ensino à distância. Nós já estávamos a trabalhar desde o ano passado com os alunos através das plataformas digitais de comunicação”, acrescenta.

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Estas novas ferramentas que foram introduzidas de surpresa no contexto escolar durante o primeiro confinamento, acabaram por se manter este ano letivo e auxiliar os professores nas tarefas do dia-a-dia. Ajudaram também a colmatar a distância no caso dos alunos que estiveram em isolamento quer por suspeitas de covid-19 quer por fazerem parte dos grupos de risco. Submeter trabalhos online passou a ser normal, assim como colocar dúvidas aos professores ou aceder a materiais escolares disponibilizados para cada turma.

Edi Carreira, de 26 anos e professor de história do 3.º ciclo e secundário na Escola Secundária Dr. Ginestal Machado, em Santarém, lembra que o ensino à distância não está “a começar do zero”. “Já todos nós temos experiência nesse campo e, portanto, acho que há um menor nervosismo e um maior à-vontade com as plataformas e com o ensino digital”, sublinha.

Muitas vezes por iniciativa própria, os professores tiveram de encontrar uma forma de aprender a utilizar estas tecnologias de forma a manter as aulas através de plataformas que muitos não conheciam nem sabiam usar. Quase um ano depois, a situação de ensino à distância continua a ter fragilidades, mas há uma maior segurança por parte dos docentes e também dos pais.

“No ano passado, o próprio Ministério [da Educação] foi apanhado desprevenido”, recorda Raquel Antunes. “Apesar de haver muita comunicação com a escola, com os professores, com os pais, as pessoas sentiam-se um bocado inseguras para estar com os alunos e para estar online, até por causa da proteção de dados. Houve aqui fatores que este ano já não se põem porque, felizmente, isso já foi sendo ultrapassado e as pessoas também já estão habituadas”, prossegue.

Também Lurdes Castanheiro, professora de português numa escola do Alto Alentejo, considera que a experiência adquirida no ano anterior vai ajudar “a tomar decisões mais ponderadas, sempre com o objetivo de tornar o ensino à distância mais enriquecedor para os alunos e que o conhecimento adquirido pelos alunos seja mais consistente”. No entanto, não ignora os constrangimentos que obstaculizam o ensino à distância – seja as condições dos alunos para se manter atentos ou a dificuldade de os pais acompanharem os filhos.

Todos os professores contactados pela SIC Notícias reconhecem que o ensino à distância tem limitações quando comparado com o ensino presencial. Não só para alunos previamente identificados com dificuldades de aprendizagem ou em situações de ensino especial, mas também os outros estudantes. Distrações, desleixo e até desmotivação são algumas das questões identificadas pelos professores durante a primeira experiência das aulas em casa.

Cada aluno e cada contexto familiar é uma situação particular e, para colmatar essas questões, os professores têm primado por estarem mais presentes e apoiarem os seus alunos. Edi Carreira considera que houve até uma “banalização” – “no bom sentido da palavra” – da relação entre aluno-professor tornando a interação através das novas tecnologias mais simples. “Isso facilita aqueles alunos mais tímidos a esclarecerem as suas dúvidas porque não têm de ver o professor e podem contactar com ele pela plataforma”, remata.

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Jogos, distrações e aldrabices no ensino à distância

Pensar numa sala de aula traz à memória as carteiras em fila e as cadeiras viradas para o quadro. No ensino à distância nem sempre é possível ter um espaço dedicado à aprendizagem em casa. Há quem estude no quarto, quem opte por estudar na sala e quem tenha de partilhar o espaço com os irmãos ou os pais que estão em teletrabalho.

Com os dois irmãos também a estudar, Alexandre Carvalho, de 13 anos, vai voltar a ouvir as aulas do oitavo ano ao mesmo tempo que o irmão acompanha as do quinto. Enquanto a irmã mais velha segue as aulas no quarto, as duas crianças estudam na sala para conseguirem ter um melhor acesso à internet e, por vezes, atropelam-se na altura de responder ao professor. “No microfone ouvia-se o meu irmão às vezes a falar”, conta Alexandre.

Nenhum dos estudantes contactados pela SIC Notícias recebeu qualquer indicação por parte da escola sobre como criar um espaço em casa que fosse propício à aprendizagem. O tempo de atenção dos alunos e a fadiga causada por estarem muito tempo à frente do ecrã são preocupações do Ministério da Educação, que aconselha a escolas a promover uma “diversificação de metodologias ao longo de cada aula, estimulando-se a atenção, o trabalho individual e em pares e acautelando-se o excessivo recurso a métodos unidirecionais”.

O ensino à distância levanta questões sobre a motivação e atenção dos alunos durante as aulas síncronas. O computador onde assistem às aulas é o mesmo onde exploram os videojogos e onde frequentam as redes sociais para falar com os amigos. Alexandre Carvalho reconhece que os jogos são uma distração.

“Por um lado, o ensino em casa foi bom, por outro foi mau porque no computador há mais distrações. Eu gostei porque não há confusão quando o professor faz uma pergunta, não há muita gente a falar, mas o que eu não gostei foram as distrações que tenho no computador, como os jogos”, conta.

Também Teresa Marreiros admite que este fator é um motivo de alienação frequente para o filho. Helena Pereira, que ao estar em teletrabalho partilha o espaço com as aulas da Marta, afirma que também já se apercebeu de diversas situações onde os professores chamaram a atenção dos alunos que estão a jogar ou a mexer no telemóvel. Sílvia Mingatos foi mesmo obrigada a colocar restrições no computador do Francisco para o impedir de utilizar a plataforma de vídeos Youtube durante as aulas.

“Muitas vezes ele esquecia-se e distraía-se com outras situações. Porque as novas tecnologias permitem que eles tenham acesso também ao Youtube e distraía-se com muita facilidade. Tivemos de arranjar algumas estratégias, nomeadamente bloquear a plataforma”, esclarece.

Para Ana Clara Mendes, é o próprio espaço que está na origem das distrações: “Acho que só o facto de não estarmos num ambiente realmente relacionado com a aprendizagem, causa automaticamente alguma desconcentração”, afirma a jovem de 15 anos que frequenta o 10.º ano na Escola Secundária Poeta António Aleixo, em Portimão. “Afinal, o meu quarto é o mesmo sítio onde durmo e o meu espaço de lazer”, acrescenta.

Mais que as distrações, o ensino à distância incute nos alunos o trabalho educativo autónomo, o que pode levar à prática de atos fraudulentos. “Por ser em casa há mais a questão da aldrabice: nós podemos estar com os manuais à frente [durante os testes]. Não é uma boa ideia, não é esse o objetivo. Mas sim, algumas vezes fiz isso, em algumas matérias que não percebi bem”, confessa Marta Dias.

A situação já foi identificada por vários professores – desde plágio a respostas dadas que vão além dos conhecimentos que a criança supostamente teria. “Eu notei que a participação de muitos alunos durante as aulas síncronas não correspondia aos conhecimentos que eles efetivamente têm, parece que sabiam mais”, lembra Fernanda Faria, referindo que alguns alunos “tinham o pai, a mãe ou o irmão mais velho ao lado que fazia os trabalhos por eles”.

Também Edi Carreira identificou a submissão de trabalhos plagiados através das plataformas online, tendo optado por uma “intervenção direta individual com cada um dos alunos” para dar a entender que a situação foi identificada “e deixar claro a gravidade do ato”.

ANDRÉ KOSTERS / LUSA

Quando é a televisão que ensina

Se, para muitos alunos, o ecrã do computador que se torna a principal ligação com a escola, para outros é a televisão que ganha essa função. Manuel Riberio Fonseca foi um dos alunos que no ano passado seguia o projeto Estudo em Casa, emitido na RTP Memória. Este ano vai ter pela primeira vez ensino à distância.

“O Manuel nunca teve aulas online, a professora nunca fez”, diz Maria Celina Ribeiro. “A professora mandava fichas que tirava da telescola [Projeto Estudo em Casa], que eles disponibilizavam, mandava páginas dos manuais. Havia pais que tiravam fotografias ou faziam scanner e enviavam para a professora corrigir”, recorda.

Tendo dificuldades de aprendizagem, Maria Celina chegou à conclusão de que este sistema não estava a ser suficiente para o Manuel. “Para um menino que tem dificuldades de aprendizagem como ele tem, ao fim de dez minutos já não está atento ao que está a ouvir, é impossível”, desabafa a mãe.

O trabalho por turnos numa instituição de apoio a crianças com deficiência não permite a esta mãe acompanhar os filhos durante o período das aulas e são os avós que ficam com eles. No caso de Manuel, Maria Celina aproveita as horas livres para substituir a escola, uma vez que tem formação em ensino de primeiro ciclo. Afonso Ribeiro, o filho do meio que também está a estudar, já é mais independente e consegue seguir as aulas à distância sem problemas.

Para quem continua a trabalhar fora de casa, muitas vezes são os irmãos mais velhos que entram em ação para ajudar os mais novos. Nem todos os pais têm formação para prestar apoio aos filhos no que à matéria escolar diz respeito. Teresa Marreiros lembra que as sucessivas alterações aos programas escolares criam uma barreira entre pais e filhos, mesmo quando os pais têm formação académica.

“Eu ainda consigo assimilar, não ajudo porque eles não aceitam. Porque têm formas de aprender diferentes daquelas que eu lhes estou a transmitir. Imaginem o que é outros pais que não têm a capacidade de assimilar isso ou que não conhecem sequer a matéria e tentam estudar com os filhos. Acho que deve ser uma tensão terrível”, comenta Teresa.

Muhammad Hamed

Memória de um abril que se repete

A opinião é unânime: “não há nada que substitua o ensino presencial”. O terceiro período do ano letivo de 2019/20 trouxe uma nova realidade sem que houvesse um período de adaptação. Enquanto os pais e professores notaram alterações face ao comportamento em ambiente de aula, também os próprios alunos reconhecem que nesta modalidade é mais difícil aprender.

Afonso Ribeiro sabe que este ano vai ter de estudar mais porque o ensino é diferente. “O professor a explicar é diferente de estar a ler. Acho que dependia das disciplinas: há algumas que eu acho que era igual e há outras que talvez tenha sido um bocadinho mais difícil”. Considera que as aulas à distância na sua turma correram bem, mas Afonso lembra que amigos queixavam-se de que “as aulas deles eram horríveis porque os alunos estavam sempre a fazer coisas más”.

A experiência repete-se um pouco por todos os estudantes entrevistados, mesmo os que dizem gostar mais do ensino em casa. Marta Dias, por exemplo, afirma que não conseguiu aprender a matéria na passagem do oitavo para o nono ano, enquanto Ana Clara Mendes considera que teve mais dificuldade nas “disciplinas mais ‘pesadas’”.

Mas não é só a aprendizagem da matéria que foi afetada pelo confinamento. No caso do Luís Mendes, que está a frequentar um curso profissional de Turismo, o 11.º e 12.º anos seriam os anos em que iria realizar um estágio, mas tal acabou por não acontecer. “Não houve aulas práticas. O ano passado fizemos simulações possíveis de atividades ligadas a animação turística. O estágio foi feito em casa”, explica, acrescentando que este ano “tudo indica que vai ser igual”.

Também os pais perceberam que algo de diferente se passava na educação dos filhos. Silvia Mingatos sentiu uma “grande desmotivação” no Francisco. “Embora a professora fosse uma excelente profissional – não ponho isso em questão – ele era muito imaturo para uma situação dessas, para estar no ensino à distância”, afirma lembrando que na hora de fazer os trabalhos, a criança sentia a falta do professor a acompanhar e ajudar.

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Para Elisabete Gomes, a experiência foi diferente para os três filhos: “O mais novo tem mais dificuldade em aprender neste sistema. Distrai-se com mais facilidade, não aprende com tão bem e eu tenho que estar a acompanhá-lo mais. O do meio já é independente. Vejo que ele se empenha em cumprir as tarefas. E a mais velha… não consigo dar a mão a todos...”

A questão emocional é também uma preocupação de Teresa Marreiros que vê no filho Artur falta de alguns ensinamentos que são adquiridos pela convivência em sociedade. “A não convivência com a sociedade faz com que crianças como o meu filho não tenham a mínima noção do que é o convívio social. Ele deu um salto precisamente quando precisava de estar em sociedade, ou seja, para assimilar os comportamentos sociais”, afirma.

No caso do Artur, o confinamento pode ter estado na origem de alguns problemas de saúde, uma vez que o crescimento aconteceu "sentado numa cadeira ao computador". "Ele era atleta de competição na altura e tudo parou. Deixou de ser, não regressou. Todas essas situações têm impacto a nível muscular, a nível de desenvolvimento ósseo”, explica a mãe.

Da parte dos professores foi também possível identificar o impacto que a alteração do sistema de ensino teve nos alunos. Principalmente quando regressaram à sala de aula em setembro.

“Em relação à retenção de conhecimentos houve falhas. Notou-se perfeitamente. Basicamente o primeiro mês de aulas, até final de outubro, o que fizemos nas aulas presenciais foi recordar, rever conteúdos que foram dados durante aqueles meses de ensino à distância”, explica Fernanda Faria.

A professora de inglês identificou ainda que o ensino à distância não foi levado a sério pelos alunos e que muitos agiram “como se tivessem ido de férias”. Faltas às aulas síncronas e falhas a entregar os trabalhos foram alguns sinais identificados no ano passado e que a professora espera que não se repitam este ano.

Entre os alunos mais pequenos – os do 1.º ciclo – houve talvez uma maior adaptação, apesar de manifestarem alguns dos sinais identificados também nos mais velhos. “Eles adaptam-se e até acham graça. Eles preferem estar na escola, mas depois acabam por se adaptar, até trabalham e conseguem fazer alguma coisa. Claro que nada substitui o ensino presencial aí não há dúvida, mas eles vão-se adaptando, tal como nós”, defende Raquel Antunes destacando o apoio dos pais nesta tarefa.

“A própria criança já percebeu que isto não é algo assim tão provisório como pensámos no ano passado e eu acredito que os próprios pais vão perceber que é preciso criar responsabilidade nos filhos. Nós precisamos do apoio do encarregado de educação nos mais novos”, sublinha Lucília Nogueira

O ensino à distância não afetou só os alunos, os próprios professores viram-se sobrecarregados com trabalho durante o terceiro período do ano passado. Tentaram estar o mais disponível possível para ajudar e encaminhar os alunos seja nas aulas síncronas seja fora dos horários. Desta vez, acreditam que o mecanismo está mais afinado e que haverá maior consideração quer nos trabalhos enviados aos alunos quer no período laboral de cada professor.

“No geral, acho que o mais negativo que há neste tipo de ensino é o aumento das desigualdades entre os jovens”, conclui Helena Pereira. “Quem está numa situação precária vai ficar numa situação mais precária, quem não tinha apoio vai ficar ainda com menos apoio. Quem só tinha o ATL para ir, já não tem. Quem só tinha aquela refeição para fazer, já não vai ter. Para os miúdos, em termos sociais, é péssimo. Em termos de aprendizagem é pior ainda porque muitos não têm condições praticamente nenhumas, nem conforto."