Desafios da Mente

Os psicopatas não são só os assassinos dos filmes

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Certamente já ouviu falar em psicopatia e em psicopatas, nem que seja através da sétima arte. Daí tem resultado, muitas vezes, a noção errada de que são todos assassinos e ostentam uma faca que escorre sangue, mas os psicopatas não são só os assassinos dos filmes.

São homens e mulheres de qualquer etnia, religião, cultura ou nível social. Trabalham, estudam, constroem carreiras, casam, têm filhos e podem viver junto de qualquer um de nós e com formas muito mais subtis de fazer mal do que apenas as agressões físicas.

A maioria não chegará a matar, mas destruirá a vítima a todos os níveis, através da sedução, da manipulação ou da humilhação. Tudo com zero remorsos, zero culpabilidade.

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O que é a psicopatia?

Tem sido intenso o debate sobre o termo psicopatia, surgindo abordagens e denominações diversas, tais como personalidade antissocial ou sociopatia.

Embora o objetivo não seja iniciar uma discussão teórica, nem uma revisão exaustiva da literatura, serve o momento para referir que ainda que a perturbação antissocial de personalidade e a psicopatia estejam relacionadas entre si, não são sinónimas.

A maioria dos criminosos não é psicopata, assim como muitos dos indivíduos que conseguiram agir no lado encoberto da lei e permanecem fora das prisões são psicopatas.

Existem mais psicopatas que não matam do que aqueles que chegam a cometer homicídio. Isso não quer dizer que os psicopatas que não matam sejam inofensivos.

A psicopatia resulta de determinantes psicológicas, neurobiológicas e sociais que conduzem a uma determinada maneira de ser e estar, onde se destaca a desinibição comportamental, o arrojo e a malvadez.

O psicopata pode causar dano social sem infringir a lei, por exemplo, com recurso à mentira ou manipulação.

A sua capacidade de não sentir culpa é um traço distintivo e tem pouca aptidão para experienciar respostas emocionais. Nos psicopatas, a possibilidade de punição não é o suficiente para afastá-los do ato proibido. Disponibilizam muita atenção na obtenção de recompensas e na apreciação de si próprios, ignorando os sinais que os poderiam alertar para o perigo.

Em geral, são pessoas frias, calculistas, inescrupulosas, dissimuladas, mentirosas, sedutoras.

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Têm total noção dos seus atos, visto que a parte cognitiva ou racional não se encontra afetada. Por outras palavras, sabem perfeitamente que estão a infringir as regras sociais e quais os motivos para estarem a agir dessa forma.

A investigação aponta para uma prevalência de 1% na população em geral. Parece pouco?

Então, pense no Estádio Nacional com a capacidade de 37 500 espectadores. Aí podem estar concentrados cerca de 375 psicopatas. Se tiver 1000 amigos no Facebook, pelo menos 10 podem ser psicopatas. Quando assumimos esta ótica, parece-nos um tema mais próximo.

Já na população reclusa e forense, estatísticas internacionais apontam 50% a 80% dos reclusos e pacientes forenses diagnosticados com perturbação de personalidade antissocial, enquanto 15% a 30% desses mesmos indivíduos estão diagnosticados com psicopatia.

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Porque é que alguns são claramente criminosos e outros não?

O destino de um psicopata depende de toda uma gama de fatores, incluindo genes, contexto familiar, educação, inteligência e oportunidades, assim como a interação entre estes diversos aspetos.

A investigação revelou que um certo número de atributos psicopáticos era mais comum em gestores do que em alguns criminosos, tais como encanto superficial, egocentrismo, poder de persuasão, ausência de empatia e capacidade de concentração.

A principal diferença reside nos aspetos mais antissociais do conceito, nomeadamente a agressão física, a impulsividade.

No universo da psicopatia, tanto é possível a existência de um sujeito sem capacidade de comunicação que recorre à ameaça, à coerção e à violência física para alcançar os seus intentos, ou, pelo contrário, um indivíduo inteligente, manipulador, com competências de comunicação para persuadir e subjugar, conseguindo neste registo de pseudocarisma aceder às empresas e ao mundo dos negócios com a mesma facilidade com que consegue aceder a posições de liderança política ou religiosa.

Kevin Dutton, investigador da Universidade de Oxford, recorreu à comparação com uma mesa de mistura de um estúdio de som para se perceber os diferentes desfechos dos atributos psicopáticos.

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Se deslocarmos todos os controlos para a posição máxima, obteremos uma banda sonora sem interesse. Comparativamente, se os botões da impulsividade, irresponsabilidade, frieza emocional estiverem elevados na dita mesa de mistura o resultado estará mais direcionado para a disfunção, o crime.

Ou seja, mais do que indivíduos psicopatas versus não psicopatas, podemos encontrar na população pessoas com elevada psicopatia, outras com baixa psicopatia e ainda outras em que os traços psicopáticos estão moderadamente presentes ou em que apenas um número reduzido deles está presente, mas se manifesta intensamente.

Existem, assim, determinadas características comportamentais que podem estar presentes em diferente grau em qualquer pessoa, que quando surgem de forma isolada podem ser bastante adaptativas, mas se tornam problemáticas, quando em combinação com outras.

Que profissões podem ser mais convidativas para os psicopatas?

Por poderem ser charmosos, eloquentes, inteligentes, envolventes e sedutores não costumam levantar suspeitas. Por isso, podemos encontrá-los disfarçados de religiosos, de executivos bem-sucedidos, bons políticos, bons amigos, pais e mães “de família”, mesmo quando só pretendem atingir o poder e agir em benefício próprio.

A investigação científica tem demonstrado que existem evidências comportamentais mais frequentemente associadas a determinados contextos, razão pela qual surgiu a noção de “psicopata bem-sucedido”. Diz respeito a certos indivíduos psicopatas que conseguiram obter graus académicos diferenciados e alcançar níveis profissionais distintos no mundo dos negócios, na medicina, na área jurídica, entre outras, almejando poder e estatuto social.

Existem estruturas organizacionais ou outras posições na sociedade que proporcionam o estímulo necessário à ânsia psicopática por emoções fortes ou que devido à sua natureza competitiva, agressiva ou friamente coerciva exigem características psicopáticas.

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Robert Hare, nome incontornável no tema da psicopatia, considera que encontramos psicopatas em qualquer organização em que a posição ocupada e o estatuto proporcionem poder e controlo sobre os outros, bem como a possibilidade de benefícios materiais.

A maioria dos psicopatas utiliza as suas atividades profissionais para conquistar poder e controlo sobre as pessoas. Neste contexto, podemos encontrar polícias envolvidos em esquemas; juízes que cometem os mesmos delitos que os arguidos; economistas que disseminam falsos boatos económicos; ou líderes religiosos que abusam sexualmente de vítimas vulneráveis.

Em contexto organizacional, um psicopata pode facilmente tentar transmitir características diferenciadoras, alegando uma carreira longa e de sucesso. É nesta linha que se apresenta fundamental a consultoria especializada com psicólogos nas empresas para se separar o joio do trigo. As pessoas que devem decidir sobre a contratação de funcionários nem sempre estão habilitadas para enfrentar o estilo manipulatório e de convencimento dos psicopatas.

Poucos cargos permitem um exercício tão propício para a atuação dos psicopatas como a política, na medida em que o mundo político permite, indiscutivelmente, desenvolver uma ampla gama de recursos de manipulação, sedução e mentira. Da pequena política local até aos altos comissariados internacionais, passando pelo associativismo regional ou profissional, as atividades sindicais, as organizações não governamentais, são campos propícios à atuação dos psicopatas.

O já referido investigador Kevin Dutton realizou, em 2011, um inquérito online com a finalidade de estudar qual a profissão mais psicopática.

Algum palpite? No topo da lista surge a profissão de CEO (Diretor-geral). Surgem nas 10 primeiras a profissão de advogado, profissional de televisão e rádio, vendedor, cirurgião, polícia, sacerdote e funcionário público.

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Isso significa que os psicopatas podem estar mais perto do que imaginamos?

Se existe uma coisa que todos os psicopatas têm em comum é a capacidade de se fazerem passar por pessoas normais, enquanto, por detrás de uma fachada, existe um predador.

Os psicopatas podem arruinar famílias e empresas, causar enredos, destruir sonhos, não tendo necessariamente que matar. Por isso, permanecem por muito tempo, ou até uma vida inteira, sem ser descobertos ou diagnosticados.

Estima-se que cada psicopata vitimizará, ao longo da sua vida, pelo menos 60 pessoas, conseguindo provocar diferentes graus de destruição emocional e/ou física.

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