Esquecidos

Ao abandono nas fronteiras

Vincenzo Livieri

Histórias de pessoas em trânsito no inverno do Norte de Itália. Nos meses mais recentes, houve um aumento acentuado no número de migrantes e refugiados nas fronteiras do Norte de Itália. Mesmo no inverno, muitas pessoas rumam para Oeste através das montanhas cobertas de neve em direção a França, e são frequentes os relatos de serem repetidamente forçadas a voltar para trás pela polícia francesa.

Vincenzo Livieri

E na fronteira italiana a Oriente, pessoas que chegam da viagem feita a pé pela “rota dos Balcãs”, atravessando florestas e seguindo trilhos, indicam também com frequência terem sido espancadas pela polícia da Bósnia-Herzegovina ou da Croácia.

Apesar de serem menos as pessoas em movimento nestas regiões do que há alguns anos, a violência, a humilhação, intimidação e as dificuldades que homens, mulheres e crianças enfrentam nestas viagens não mudaram nada.

A única coisa que as faz continuar, mesmo com tudo o que sofreram, é a oportunidade de conseguirem chegar ao seu destino.

A assistência por parte das autoridades é totalmente inexistente nas cidades italianas de fronteira. Consequentemente, fica entregue a ativistas e voluntários a tarefa de receber as pessoas em trânsito e providenciar-lhes alguma assistência humanitária e cuidados médicos, com o apoio da Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Em meados de dezembro passado, duas equipas MSF deslocaram-se até aos principais pontos de trânsito em Ventimiglia, Oulx, Bolzano e Trieste e conversaram com migrantes e refugiados no curso das suas viagens, assim como com pessoas que os tentam ajudar no percurso. Estas são algumas das suas histórias.

Ventimiglia: "as pessoas que aqui chegam vêm cansadas, a perder a esperança"

Nas ruas, junto às linhas dos comboios, em edifícios abandonados ou na praia: é aqui que migrantes e refugiados vivem em Ventimiglia depois de as autoridades terem fechado o campo de trânsito perto do rio Roia em julho passado. Mesmo com muitas deficiências, aquele campo era um local onde as pessoas podiam parar no curso das suas viagens.

Agora não existe nenhum lugar oficial para as receber. Grupos de voluntários e redes informais de ativistas providenciam refeições quentes, 12 horas por dia e sete dias por semana, nas zonas junto à fronteira com França, e é graças ao seu empenho que famílias com crianças conseguem ter onde ficar na cidade.

Francesca Volpi

Francesca Volpi

Delia tem um café-restaurante perto da estação de comboios de Ventimiglia. Ela tem as portas do estabelecimento abertas a migrantes e refugiados. Filippo, na casa dos sessenta anos e a aproximar-se da reforma, vai ali tomar café todos os dias e ver se há alguma nova família para acolher. “Ao longo do último ano, eu e a minha mulher temos mantido as portas da nossa casa abertas. Já recebemos mais de 30 famílias. Fazemo-lo com sentido de dever. Acolhemos famílias com crianças e mulheres solteiras, pessoas que não têm nenhuma forma de proteção e que nunca deveriam ter de dormir nas ruas.”

O ramo local da Cáritas, que fica a uns cinco minutos a pé da estação, presta serviços como aconselhamento legal, refeições, roupas e acomodação às famílias. A pandemia da COVID-19 teve um impacto tremendo nestas atividades.

“Tivemos de suspender o serviço de duches e as refeições têm de ser distribuídas no exterior. Após o fecho do campo de trânsito, a situação deteriorou-se e atualmente as instituições públicas estão completamente ausentes. As pessoas que aqui chegam vêm cansadas, a perder a esperança. Preocupa-nos o que vai acontecer, se os números aumentarem, a situação pode tornar-se crítica”, explica o diretor da Cáritas em Ventimiglia, Christian Papini.

"É uma viagem mesmo muito dura e dolorosa. Tenho de fazer isto por causa da minha família"

Um casal jovem com uma filha de sete anos recebeu um lugar onde ficar num dos apartamentos da Cáritas. Oriunda da Etiópia, esta família chegou à Líbia em 2018, onde foi presa num centro de detenção em Cufra durante oito meses.

No centro de detenção, o pai e a mãe foram espancados e torturados à frente da filha até que a igreja da sua terra natal lhes pagou o resgate. Seguiu-se a primeira tentativa para alcançarem a Europa: ao fim de dois dias no mar foram intercetados pela guarda-costeira líbia e forçados a regressar ao país. Mais quatro meses passados num centro de detenção. Conseguiram eventualmente fugir e arranjaram trabalho em tarefas servis, antes de voltarem a tentar fazer a travessia marítima.

Finalmente, em outubro de 2020, e após três dias no mar, chegaram a Lampedusa e daí prosseguiram a viagem, deslocando-se de autocarro e comboio, até Ventimiglia.

As cheias de outubro e os mortos sem nome

Pelo início de outubro passado, intensas cheias assolaram Ventimiglia e, nos dias que se seguiram, foram encontrados os corpos de dez pessoas, oito das quais nunca foram identificadas. “Eram muito provavelmente pessoas em trânsito que dormiam nas margens do rio e foram arrastadas pelas águas”, avança Luca Daminelli, um ativista que trabalha com a organização Progetto 20K.

Todas as noites, voluntários desta rede estão num parque de estacionamento em frente ao cemitério, a distribuir refeições quentes e roupas às pessoas em movimento em Ventimiglia.

“Conseguimos ajudar estas pessoas e famílias em trânsito graças a uma extensa rede de solidariedade que foi criada nesta área”, conta Luca Daminelli, especificando que “toda a assistência é prestada por voluntários.” “A MSF doou sacos-cama, cobertores, sapatos e roupas que distribuímos às pessoas em trânsito – tudo bens essenciais para que possam continuar a viagem nos meses de inverno”, descreve.

Francesca Volpi

Oulx: “Quando se caminha sob temperaturas de -15º arrisca-se a vida”

Nos últimos três anos, mais de dez mil pessoas atravessaram os Alpes em Oulx, na região alta do Vale de Susa, para chegarem a França. A pandemia da COVID-19 e as restrições de confinamento conduziram a uma diminuição no número de pessoas em movimento, mas sem as ter parado por completo.

Durante o verão passado, pelo menos 500 pessoas passaram por Oulx, a maioria tendo feito o percurso pela “rota dos Balcãs”. Eram oriundas do Irão e do Afeganistão e também de países do Norte de África, tendo escolhido esta rota para evitar os centros de detenção na Líbia e os riscos de naufrágio no mar Mediterrâneo.

O abrigo “Talità Kum” fica em frente à estação de comboios de Oulx. Aberto das 18h até às 10h, é gerido por uma rede de voluntários das organizações Rainbow for Africa e Diaconia Valdese.

Francesca Volpi

Vincenzo Livieri

Alguns quilómetros adiante na estrada que leva à fronteira, uma antiga casa de um trabalhador de construção de estradas está há vários anos ocupada por um grupo de ativistas que providenciam abrigo, 24 horas por dia, às pessoas em trânsito.

“No inverno, a montanha transforma-se numa armadilha de gelo e neve para quem a tenta atravessar”, explica o antropólogo Piero Gorza, que é representante da organização Medici per i Diritti Umani na região italiana de Piedmont.

A viagem começa na praça em frente à estação, de onde os autocarros partem rumo a Claviere, a última povoação italiana antes da fronteira, a partir da qual migrantes e refugiados têm a esperança de conseguir chegar a Briançon, em França. “Quando se caminha sob temperaturas de -15º, se os pés ficam molhados, arrisca-se a vida”, avança Piero Gorza.

Vincenzo Livieri

“O inverno é um período crítico e dramático em que todas as pessoas envolvidas têm de trabalhar juntas para salvar vidas. Felizmente, neste vale temos fortes tradições de solidariedade, de luta e de resistência, enraízadas na memória desde os anos que se seguiram à guerra.

Em todos estes anos, houve só cinco mortes, graças aos voluntários e ativistas que prestam assistência nas montanhas. É como dar um colete salva-vidas a alguém que se está a afogar no mar. É algo que evita mortes”, prossegue.

Bolzano: viver rodeado de lixo e ratos

Cerca de 120 migrantes estavam a viver nas ruas de Bolzano em meados de dezembro passado. Continuam a chegar pessoas à cidade, na esperança de passarem a fronteira, mas o passo do Brennero está fechado e há agora muito poucas tentativas para atravessar. Pelo menos 50 pessoas vivem em condições terríveis debaixo de uma ponte da autoestrada, rodeadas de montes de lixo, com ratos a correrem entre as tendas gastas e sem acesso a água potável nem a casas de banho.

Antes da pandemia da COVID-19 ter eclodido, as pessoas que ali viviam conseguiam obter tratamento médico numa clínica móvel e numa cantina geridas pela associação Volontarius. As pessoas recebiam cuidados médicos essenciais e podiam sentar-se para uma refeição quente num espaço interior e aquecido.

Em Bolzano, a MSF presta apoio à Bozen Solidale, providenciando sacos-cama, cobertores, sapatos e roupas que são distribuídos diretamente às pessoas fora do sistema de receção.

Vincenzo Livieri

Vincenzo Livieri

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Oriundo do Níger, Issifi, passou algum tempo na Alemanha e na Suíça, mas decidiu regressar à Itália. Viveu nas ruas de Bolzano durante quase um ano até conhecer Reiner, um agricultor que faz cultivo orgânico de maçãs. Reiner convidou-o a ficar na quinta e Issifi acabou por ali continuar após ter terminado a época da apanha da maçã.

“Foi importante conhecer a história dele”, frisa Reiner. “Enriqueceu-me, e fiquei impressionado com as experiências pelas quais ele passou durante a sua jornada. Ninguém consegue verdadeiramente imaginar o sofrimento e as coisas terríveis que acontecem durante as viagens que estas pessoas fazem. E mesmo tendo vivido vidas tão duras, têm sempre um sorriso na cara”, conta o agricultor.

Trieste. Mulheres e crianças são forçados a voltar para trás, por vezes de forma violenta

Migrantes e refugiados vindos da Turquia passam pela Grécia, Sérvia, Croácia e Eslovénia ao longo da rota dos Balcãs. Deslocam-se de todas as formas que lhes é possível, mas na maioria fazem o caminho a pé, e entram em Itália pela passagem fronteiriça de Trieste. Homens, mulheres e crianças que são intercetados nestas fronteiras são frequentemente forçados a voltar para trás, por vezes de forma violenta. O tratamento a que são sujeitos, especialmente na Croácia e na Bósnia-Herzegovina, é bem conhecido.

Em Trieste, a maior parte dos migrantes e refugiados fica na cidade temendo os retornos forçados, que podem ocorrer até uma distância de dez quilómetros da fronteira.

Vincenzo Livieri

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Há quem decida permanecer e é acolhido pelo Italian Consortium of Solidarity. Mochilas e roupas desgastadas e sujas estão por todo o lado nos caminhos da floresta ao longo da fronteira, abandonados por já não terem uso.

Muitos migrantes e refugiados em trânsito nesta zona juntam-se à noite no jardim em frente à estação de comboio, tendo passado de boca em boca aquela localização de uma forma que vai além das fronteiras e das línguas faladas.

É ali que voluntários da Linea d'ombra e da Strada SiCura oferecem bebidas quentes, alimentos, roupas e, quando necessário, tratam ferimentos físicos resultantes das jornadas que estas pessoas fazem. Geralmente, são ferimentos nos pés devido às longas caminhadas feitas com calçado desadequado ou até mesmo descalços. Muitas pessoas são assaltadas e despojadas de tudo o que possuem no curso da jornada.

Francesca Volpi

Uma responsabilidade do Governo

Num contexto de quase total ausência das instituições do Estado, a MSF reconhece o empenho insubstituível de ativistas, grupos de voluntários e das comunidades locais, frequentemente a trabalharem sozinhas, que tentam garantir condições de vida dignas e acesso a aconselhamento e a apoio a migrantes e refugiados em trânsito.

Mas frisa que é principalmente responsabilidade do Governo adotar políticas de migração que salvaguardem a assistência e proteção, em vez de exclusão e sofrimento. Condições de receção desumanas, violência e abusos às mãos da polícia e repetidos retornos forçados nas passagens de fronteira não detêm as pessoas de tentarem alcançar uma vida com dignidade. Antes, causam sofrimento e têm enormes consequências humanitárias. E frequentemente criam as condições para que haja rotas ainda mais perigosas.

A MSF insta as autoridades italianas a porem fim aos repetidos retornos de pessoas intercetadas na fronteira da Itália com a Eslovénia. Migrantes e refugiados são empurrados de volta para a Croácia e daí para a Bósnia-Herzegovina, onde são deixados a viver em condições desesperantes e expostos a abusos sistemáticos.

Francesca Volpi

A organização médica-humanitária urge também a que as autoridades italianas garantam que as atividades da polícia na fronteira com a França, desenvolvidas em conjunto com as autoridades francesas, respeitam a dignidade e a segurança das pessoas e protegem quem é mais vulnerável, incluindo famílias, mulheres com crianças e menores não acompanhados.

A MSF reitera ainda que as autoridades italianas têm de assegurar condições de receção adequadas, assistência e acesso a cuidados médicos em todas as zonas de fronteira, com medidas que tenham em conta as vulnerabilidades específicas deste grupo de pessoas e o tempo limitado que passam em território italiano.

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.

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