Extremos

Um nacionalista na terra dos bascos

Susana Vera

Diogo Barradas

Diogo Barradas

ALUNO DA NOVA FCSH

De uma aldeia perdida no País basco para o palco da política espanhola, em Madrid. Santiago Abascal mobilizou milhares sob os estandartes de uma Espanha grande, profundamente conservadora e livre de imigrantes. Quem é afinal o príncipe da extrema direita espanhola?

A 19 de Junho de 1937, as Forças de Franco tomaram Bilbau. Como Guernica, o espírito independentista basco foi aniquilado. A província de Álava, encabeçada pela cidade de Vitória, foi um dos primeiros laboratórios políticos de Franco.

Oitenta e três anos depois, o Vox lança-se ao assalto às instituições bascas, em nome de uma Espanha unida. O terceiro maior partido de Espanha, com 52 deputados no congresso, virava-se agora para a comunidade mais nacionalista do país – e, pela primeira vez na democracia, a extrema direita elegeu uma representante no território, Amaia Martinez. À frente do partido, está Santiago Abascal, que cresceu na mesma Álava que serviu de sede local a Francisco Franco.

Na campanha para as eleições, o filho voltou a casa.

No norte basco

Santiago Abascal nasceu em Bilbau a 14 de abril de 1976. A sua mãe, María Isabel Conde Álvarez, natural de La Coruña, mudou-se para o País Basco aos dois anos de idade. O pai, Santiago Abascal Escuza, tem raízes em Amurrio, uma pacata vila industrial, a meio caminho entre Vitória e Bilbau.

Sergio Perez

Como numa dinastia, a política corre-lhes sangue. O seu pai foi dirigente do Partido Popular em Álava durante 35 anos. Já o avô paterno, Manuel Abascal Pardo, foi deputado provincial durante o Franquismo. O seu posicionamento político conservador colocou-os em linha de choque com a Euskadi Ta Askatasuna (ETA). Entre as bandeiras bascas, que reclamavam autonomia, a família de Abascal agitava a bandeira da Espanha Unida.

Cedo, o peso desta herança familiar introduziu-o no mundo da política. Em 1994, com apenas 18 anos, filiou-se no Partido Popular (PP). Dois anos depois, em 1996, já integrava o Comité Provincial do PP em Álava. Em 1999, alcançou o seu primeiro cargo público como representante do PP no município de Llodio (Álava). A sua rápida escalada dentro do PP no País Basco conduziu-o à presidência das Nuevas Generaciones do Partido Popular do País Basco. Em 2005 tornou-se secretário da educação pelo PP na região. No ano seguinte, criou a Fundação para a Defesa da Nação Espanhola (DENAES).

O caminho para Madrid

Aos 33 anos, Santiago Abascal sofreu um entrave no percurso político. Depois de representar o PP Basco no parlamento da comunidade autónoma, entre 2005 e 2009, viu-se obrigado a abrir mão do cargo por disputas internas. O seu percurso poderia ter sido interrompido, não fosse a atenção do centro do poder nacional. Assim, em 2010, foi convidado por Esperanza Aguirre, naquela altura Presidente da Comunidade autónoma de Madrid pelo PP, para dirigir a Agência de proteção de dados.

Depois de sair desta agência governamental, em 2012, tornou-se gerente da Fundação para o Mecenato e Patrocínio Pessoal. A fundação, financiada por subvenções públicas, tinha apenas mais uma funcionária declarada, e rendia a Abascal mais de 82 mil euros anuais, um salário superior ao do então presidente do governo, Mariano Rajoy.

Emilio Morenatti

A fundação foi extinta precisamente no dia da fundação do Vox e, atualmente, Abascal e o seu partido são assumidamente contra instituições sociais que beneficiem de apoios do Estado.

Em novembro de 2013, saiu do Partido Popular, invocando divergências políticas com a relação do PP com os movimentos nacionalistas. Juntamente com o pai e com outras figuras conservadoras, muitas delas dissidentes do PP, formou o Vox.

A face da extrema direita em Espanha

O Vox nasceu em 2013. Foi apresentado publicamente em 2014, antes das eleições europeias. Pôs termo à quase total ausência de soluções políticas de extrema direita populista na península depois da queda das ditaduras. Em setembro desse mesmo ano, Santiago Abascal foi eleito presidente por 91% dos militantes do Vox. Ao ser eleito, deixou a presidência da Fundação para a Defesa da Nação Espanhola (DENAES), onde já então promovia um discurso conservador, assente no patriotismo e na valorização identidade espanhola. Enquanto figura cimeira do Vox, foi candidato à presidência do governo em 2015 e 2016 e também cabeça de lista às eleições da comunidade autonómica de Madrid em 2015.

O crescimento do eleitoral do partido teria de esperar até 2018, com a eleição inédita de 12 representantes para as cortes andaluzes. Em grande parte, o partido aproveitou o descontentamento face à questão Catalã e fortaleceu o discurso da Espanha Unida. A voz de Abascal nas redes sociais, frequentemente incendiária, cultivou uma certa aura de líder para a Espanha nacionalista e profundamente conservadora. Nas eleições Andaluzes de 2018, Abascal aparece, num vídeo promocional, montado a cavalo: promete reconquistar Espanha. A imagem do líder surge recorrentemente associada a símbolos militares, apesar de ter recusado cumprir o serviço militar obrigatório, a pretexto da conclusão dos seus estudos em Sociologia, na Universidade de Deusto.

Pablo Blazquez Dominguez

Em abril de 2019, Abascal ganhou entrada no congresso dos deputados. O Vox alcançou 10,26 % dos votos e 24 representantes. Nas eleições de novembro, que ocorreram por não ter sido possível formar governo, o partido atingiu os 52 representantes (com cerca de 15% dos votos) e tornou-se a terceira força política espanhola. Neste mesmo ano chegou à Europa, com 3 representantes eleitos. Por diversas vezes, Abascal reuniu ou comunicou com líderes da extrema direita de outras geografias, como Le Pen, em França, ou Giorgia Meloni, em Itália.

Depois de uma iniciativa política desproporcionada, no início da crise pandémica, em que proclamou só temer o vírus da extrema esquerda, Abascal foi infetado com coronavírus. Apesar disso, a sua recuperação fez-se sem problemas. Em junho voltou-se para o norte basco, uma terra natal que lhe tem pouco amor. Foi a principal face da campanha na província onde o Vox menos podia antecipar eleger. Na sua pose de Caballero, fumou charutos numa atitude interpretada como desafio às multidões em protesto. Evocou o passado. Atacou a língua e a identidade basca. Mas, quando se contaram os votos, elegeu uma deputada. Meses depois, em outubro, preparou um assalto ao poder central: foi o candidato na moção de censura proposta pelo Vox. No momento de levantar os braços, o PP, onde começara, não lhe deu a mão. No final, a moção de censura foi chumbada: 298 deputados contra 52, do Vox.

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É um projeto patrocinado pela Fundação Calouste Gulbenkian que terá uma expressão multimédia e que incluirá um conjunto de grandes reportagens que a SIC emitirá em fevereiro de 2021. O projeto resulta de uma parceria estabelecida entre a SIC e a NOVA FCSH e pretende mergulhar no difícil tópico do “populismo radical que alimenta a direita nacionalista e antissistema europeia” - título que esconderá derivas em direção aos extremos; em direção ao quadro que molda a extrema direita.