Guerra Rússia-Ucrânia

E se Putin carregar no "botão" nuclear?

Vladimir Putin, Presidente da Rússia
Vladimir Putin, Presidente da Rússia
Konstantin Zavrazhin
Vários cenários avançados por especialistas em guerra, depois da ameaça feita pelo Presidente russo.

O discurso de Vladimir Putin à nação russa, transmitido na manhã desta quarta-feira, deixou uma ameaça clara aos países do ocidente: “Se a integridade territorial do nosso país for ameaçada, iremos certamente usar todos os meios à nossa disposição para proteger a Rússia e o nosso povo.” O recurso a armas nucleares é um cenário que Putin tem vindo a referir desde o início da guerra na Ucrânia.

A decisão de Moscovo avançar com um ataque nuclear seria uma situação sem precedentes. Por essa razão, a forma como o ataque seria realizado ou quais os alvos principais são difíceis de prever. Mesmo perante toda a imprevisibilidade, como explica o The Telegraph, analistas que acompanham a retórica nuclear russa traçaram vários cenários possíveis.

Uma das possibilidades é que Putin decida avançar com ataques nucleares a alvos limitados, localizados na Ucrânia. As infraestruturas críticas das cidades seriam os alvos potenciais, segundo Lawrence Freedman, especialista em estudos de guerra na King’s College de Londres.

Se Putin quisesse provocar medo à Ucrânia e ao Ocidente, poderia também apontar para ilha da Serpente – a mítica ilha onde um pequeno grupo de ucranianos enfrentou uma frota de russos – um ataque nuclear, mostrando o poder da Rússia. Esta opção, avança o especialista, poderia resultar numa situação humilhante caso a bomba, por alguma razão, não detonasse.

Para Andrey Baklitskiy, especialista do instituto de investigação para o desarmamento da ONU, há um detalhe no discurso de Putin que faz antever um cenário diferente: o Presidente russo disse que só iria avançar armas nucleares “se a integridade territorial” da Rússia fosse “comprometida”. Esta afirmação surge numa altura em que a Rússia está a preparar a realização de referendos de anexação em Kherson, Zaporíjia, Donetsk e Lugansk,

“Essas declarações vão além da doutrina nuclear russa, que apenas sugere que a Rússia use primeiro numa guerra convencional quando a própria existência do Estado é ameaçada”, explica o especialistas.

Depois da realização dos referendos às regiões ucranianas, Moscovo pode entender as ofensivas das forças de Kiev para recuperar o território como um pretexto para iniciar a ofensiva nuclear.

Poderá a ameaça ser “bluff”?

Putin fez questão de dizer que a utilização das armas nucleares “não é um bluff”, mas a maior parte os líderes ocidentais não parece estar realmente preocupado com esta possibilidade. Até porque não é a primeira vez que o Presidente russo usou o arsenal nuclear como ameaça contra a Europa e os Estados Unidos.

Poucos dias depois de iniciar a invasão na Ucrânia, Putin disse aos países ocidentais de que se interferissem nos objetivos russos “iriam sofrer consequências que nunca imaginaram na sua história”.

Também as próprias redes de propaganda russa têm vindo a partilhar ameaças de aniquilação nuclear contra os países ocidentais. Ainda esta semana, a apresentadora de televisão Olga Skabeeva afirmou que Moscovo deveria ter lançado o ataque durante o funeral da Rainha Isabel II, em Londres, para criar o maior caos possível.

Alguns líderes já garantiram estar disponíveis para “carregar no botão” nuclear caso a ameaça russa se cumpra. Liz Truss, primeira-ministra britânica, admitiu que poderia tomar essa decisão durante a sua governação. Também Joe Biden considera que o uso de armas nucleares por Putin irá “mudar completamente a guerra para algo não visto desde a II Guerra Mundial”.

No tratado de criação da NATO existe um artigo que afirma que um ataque a um país é um ataque a todos – o famoso Artigo 5.º. Mesmo que a Rússia opte por apontar o armamento nuclear para o território da Ucrânia, a radiação pode chegar à Polónia – um país que integra a NATO – e desencadear o processo para ativar este artigo. No entanto, essa decisão tem de ser unânime. Em toda a história da NATO, só foi ativado uma vez: na sequência do atentado terrorista do 11 de Setembro de 2001.

A concretização de um ataque nuclear poderia também colocar a Rússia numa posição ainda mais solitária do que está atualmente. Se os países do ocidente têm vindo a aplicar sanções a Moscovo e repudiado publicamente a invasão, a China e a Índia mantêm-se neutros desde o início da invasão. No entanto, os dois países começam a procurar afastar-se do conflito.

Esta quarta-feira, depois do discurso de Putin, o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros apelou a um cessar fogo através do diálogo para acabar com o conflito. As declarações mostram alguma descontentamento da China perante a possibilidade da Rússia optar por seguir pela via nuclear.

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