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"Os robôs vão estar ao nível dos humanos daqui a poucos anos"

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"Os robôs vão estar ao nível dos humanos daqui a poucos anos"
Ana Isabel Pinto

A inclusão de robôs no mercado é cada vez mais uma realidade. Kacper Nowicki acredita que as próximas gerações não vão querer fazer os trabalhos repetitivos e, por isso, é preciso apostar na automação das empresas de e-commerce. A Nomagic oferece uma solução à base de inteligência artificial.

Cai o pedido de um cliente no sistema. Em vez de ser um trabalhador a ir ao armazém buscar os objetos é um robô que os junta numa caixa para serem enviados. Esta realidade está cada vez mais próxima: a Nomagic oferece uma solução de robótica para acabar com as tarefas “repetitivas, tediosas e físicas”, explica Kacper Nowicki. Quando questionado se os robôs vão substituir os trabalhadores, o fundador da Nomagic diz que os dados não provam este receio.

Desde a revolução industrial, a tecnologia e a robótica sempre foram vistas como uma ameaça aos empregos. Esta ideia mantém-se: irá a tecnologia substituir os trabalhadores?

Acho que continuamos a ter medo que as máquinas nos roubem os empregos, medo de ficar desempregados, nas ruas sem ter comida. Penso que, nas nações desenvolvidas, a realidade é diferente. Estamos a atingir o pico do emprego, um pico do número de pessoas em atividade e este número irá descer: os baby boomers estão a reformar-se, a nova geração será mais pequena. Eu acho que existe um risco real de não haver pessoas na força laboral para fazer as coisas que queremos que sejam feitas, às quais nos habituámos. Acredito que devemos automatizar e a tecnologia tem esta possibilidade. Andamos a fazer isso desde o início da revolução industrial, no século XVIII. Mas existem problemas à volta disto, claro.

Os nossos robôs automatizam as tarefas mais repetitivas, manuais e físicas na logística dos armazéns. Para quem faz estes trabalhos, acredito que seja muito, muito difícil. E penso que será difícil encontrar pessoas para fazer estes trabalhos no futuro. O medo está lá, mas os dados não o apoiam.

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A Nomagic oferece robótica autónoma para o e-commerce e retalho. Como funcionam os vossos robôs?

Imagine um armazém com centenas de milhares - até alguns milhões - de produtos diferentes, com uma enorme diversidade... Os robôs ajudam a processar pedidos ou compras de clientes. Normalmente, há um compartimento cheio de objetos de um tipo e nós precisamos de agarrar um e colocá-lo num lugar - por exemplo, numa caixa de cartão que vai para o cliente.

É uma tarefa simples: agarrar o objeto, digitalizar o código de barras e colocá-lo num sítio. Mas não é assim tão simples para o robô porque, no mundo da física nem tudo é perfeito. Podemos perder um item, podemos agarrar dois em vez de um... Nós esforçamo-nos para fazer os robôs autónomos, ou seja, para que identifiquem estas questões e as resolvam automaticamente. Mas também temos humanos na linha. Se o robô estiver indeciso sobre o que fazer, existe um operador remoto que pode responder à questão do robô ou ajudar - apontar para escolher este objeto e pôr neste exato local - e ele irá ser bem sucedido. As pessoas continuam a ajudar os robôs, mas os robôs fazem a maior parte do trabalho.

A perceção à sua volta, o que deve fazer, nós resolvemos estes problema com base em Inteligência Artificial (IA) e deep learning. Toda estas as tentativas que fazemos, todos as coisas agarradas vão para o conjunto de dados de treino, o que nos permite melhorar os sistemas ao longo do tempo.

Para uma empresa, quais sãos as vantagens - e desvantagens - de ter robôs a fazer este trabalho?

Os nossos clientes já têm armazéns altamente automatizados, têm um sistemas de armazenamento, têm um grande classificador ou têm máquinas de embalamento. Este é o próximo passo natural: já têm algum trabalho manual que foi automatizado e agora vão automatizar ainda mais.

As vantagens: uma vez que têm o robô no armazém, ele pode trabalhar o tempo todo, pode fazer um turno ou pode trabalhar 24 horas, se for preciso. O e-commerce é muito desigual, a Black Friday e o Natal estão a chegar e vai haver muitas vendas. Nestas situações precisam de trabalhar mais horas e [o robô] é muito benéfico.

As desvantagens: há algum esforço para implementar estes robôs, tem de se fazer algumas alterações nas infraestruturas e há um pequeno investimento inicial, mas depois disso fica tudo melhor.

Ana Isabel Pinto

Acredita que as novas gerações estão prontas para competir e, ao mesmo tempo, interagir com os robôs?

Eu espero que as novas gerações nos ajudem a construir mais robôs. Acredito que são precisos para a nossa sociedade. Temos muitos jovens na nossa empresa, com várias funções, como os operadores que ajudam os robôs remotamente. Penso que estão prontos para isso. Por outro lado, acho que as novas gerações não estão tão inclinadas a aceitar estes trabalhos repetitivos nos armazéns, por isso penso que estamos a ir na direção certa.

Quanto tempo demora um robô a ultrapassar a capacidade produtiva de um ser humano?

Os nossos robôs são muito úteis, mas são ainda mais lentos e ligeiramente piores do que um operador humano. Mas, mesmo assim, fazem a maior parte dos trabalhos repetivos, o que é benéfico. Eu acho que, no âmbito dos trabalhos de armazéns, os robôs vão estar ao nível dos humanos daqui a poucos anos. Não digo [que haja] um robô que vem limpar a nossa casa. É um robô que agarra um objeto e o coloca dentro de uma caixa, é uma tarefa constrita. Acredito que é preciso mais tempo até haver um robô geral para nos ajudar. Há pessoas a trabalhar nisso, mas ainda não está pronto.

Eu espero ver mais e mais robôs autónomos, a tomar decisões sozinhos. Nós já temos muitas máquinas nas nossas casa - máquina de lavar loiça, de lavar roupa - que nos ajudam, mas penso que iremos ter mais. Eu espero que a condução autónoma e a monitorização autónoma aconteçam nos próximos anos.