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Detido líder de milícias sudanesas acusado de crimes de guerra no Darfur

Foi detido na República Centro-Africana e está à guarda do TPI.

O líder das milícias sudanesas Janjaweed, Ali Kushayb, acusado de crimes de guerra e contra a humanidade no Darfur, foi detido na República Centro-Africana, encontrando-se à guarda do Tribunal Penal Internacional, foi hoje anunciado.

De acordo com o porta-voz do Tribunal Penal Internacional (TPI), Fadi El Abdallah, Kushayb, que há mais de 13 anos era visado por um mandado de detenção internacional, entregou-se às autoridades numa zona remota do norte da República Centro-Africana, perto da fronteira com o Sudão.

De acordo com a mesma fonte, Kushayb encontra-se à guarda do TPI, não tendo sido especificado onde.

O procurador-geral da República Centro-Africana, Eric Didier Tambo, confirmou à agência Associated Press que Kushayb foi extraditado hoje para Haia, na Holanda, após ter sido levado para Bangui na segunda-feira.

Confrontos desde 2003

Os rebeldes do Darfur lançaram, em 2003, um movimento de insurreição contra o governo de Cartum, que respondeu com uma política de terra queimada com recurso a bombardeamentos aéreos e a milícias conhecidas como Janjaweed, acusadas de assassínios e violações em massa.

Estima-se que 300 mil pessoas foram mortas e 2,7 milhões foram expulsas das suas casas.

Kushayb é acusado de comandar milhares de elementos das milícias Janjaweed em 2003-2004 e o TPI diz que participou "pessoalmente em alguns dos ataques contra civis".

Em 2007, foi emitido um mandado de captura do Tribunal Penal Internacional para Kushayb, desconhecendo-se há quanto tempo se encontrava na República Centro-Africana.

Kushayb e o antigo Presidente sudanês Omar al-Bashir escaparam à detenção por crimes de guerra durante mais de uma década, em parte por causa da relutância de outros países africanos em executarem mandados do Tribunal.

Al-Bashir viajou livremente para o estrangeiro e só depois de ter sido deposto, no ano passado, é que as autoridades sudanesas concordaram em extraditá-lo para a Haia.

No entanto, o ex-presidente ainda não foi entregue ao TPI.

"Um dia histórico" para as organizações de direitos humanos

A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW) congratulou-se com a detenção de Kushayb.

"Hoje é um dia histórico para a justiça às vítimas das atrocidades cometidas no Darfur e às suas famílias", afirmou Elise Keppler, diretora do Programa de Justiça Internacional da HRW.

"O mundo assistiu, horrorizado, aos brutais ataques do governo do Sudão contra civis no Darfur, matando, violando, incendiando e pilhando aldeias, a partir de 2003. Mas após 13 anos, a justiça finalmente apanhou um grande fugitivo desses crimes", acrescentou.

A detenção de Kushayb sublinhou a importância do Tribunal Penal Internacional, que tem sido alvo de duras críticas por parte dos Estados Unidos.

"A justiça nem sempre é imediatamente possível, o que torna tão crítico o papel do TPI enquanto tribunal permanente", defendeu Elise Keppler, apontando que "os mandados de detenção do TPI não têm prazo de validade, mas dependem da cooperação dos Estados para serem executados".