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Sr. Primeiro-Ministro, demito-me

Sr. Primeiro-Ministro, demito-me
RODRIGO ANTUNES/ LUSA
Opinião de Tiago Correia, comentador SIC e professor de Saúde Internacional.

A frase foi proferida pela agora ministra da Saúde demissionária, durante a madrugada. Os sinais deste desfecho acumularam-se nos últimos meses. Falei no verão quente da saúde, nos médicos contra a ministra e o que estava em jogo com a falta de médicos e com o novo estatuto do Serviço Nacional de Saúde (SNS). Sinalizo agora alguns pontos que ajudam a interpretar a governação de Marta Temido, a sua demissão e os desafios que se colocam ao primeiro-ministro.

A governação de Marta Temido

É nítido que as condições de governação do atual Governo diferem muito das que se viveram em 2018 quando Marta Temido substituiu Adalberto Campos Fernandes. Nessa altura, a geringonça exigia uma governação à esquerda e o perfil de Marta Temido encaixava-se na perfeição. O conteúdo e a aprovação da Lei de Bases da Saúde são o sinal mais óbvio deste argumento. Os aliados estavam à esquerda e os inimigos à direita.

Mas uma maioria parlamentar resultante da crise entre os parceiros de geringonça muda o tabuleiro do jogo e devia mudar os intervenientes. Afinal, um ministro não anula a sua ideologia, mesmo que os anteriores parceiros sejam novos inimigos. Tendo a oposição à esquerda e à direita, o atual Governo necessariamente posiciona-se mais ao centro.

Estas condições de governabilidade não faziam de Marta Temido a melhor pessoa para o cargo na atual legislatura. O erro de cálculo tanto foi do primeiro-ministro como da ministra. A ministra que saiu da pandemia pela porta grande sai do Governo pela porta pequena. Mesmo assim, a história irá prestar-lhe a devida vénia.


A demissão

Passa-se de bestial a besta num ápice. A ministra que chegou a ser a mais popular do Governo e na sucessão de António Costa não aguentou a pressão. Fez bem em sair porque a sucessão de casos clínicos com colagem política iria continuar a fazer manchetes. Já vimos isto acontecer com Correia de Campos.

Nenhum ministro da Saúde sobrevive se governar contra as corporações e todos os grupos profissionais sem exceção vinham apontando críticas a Marta Temido. Não deixa de haver alguma ironia nisto, dado que falamos de uma ministra especialista em recursos humanos da saúde e com experiência de gestão nesta área.

A influência partidária nas ordens, sindicatos e variadas associações da saúde não pode ser ignorada. Contudo, o descontentamento dos profissionais vai muito além disso, daí uns emigrarem e outros desistirem do SNS.

Todos os problemas que têm sido apontados são antigos. Por isso, diga-se o que se disser, esta demissão resulta do divórcio da ministra com os seus profissionais. Os profissionais resilientes que salvaram o país da covid-19 deixaram de confiar na ministra e gritaram basta.

Os desafios do primeiro-ministro

O primeiro-ministro fez saber que a sucessão de Marta Temido não será imediata. Em parte, o significado desta afirmação não é claro: a ministra fica em gestão corrente? Em parte, significa que se perspetiva uma decisão de fundo quanto a uma nova equipa no Ministério da Saúde.

O primeiro-ministro terá que encontrar alguém disponível e os candidatos naturalmente disponíveis podem não ser as melhores soluções. O próximo ministro da saúde não o deve ser porque quer muito, mas porque tem a coragem política que o momento obriga. Exige-se que apresente ao primeiro-ministro um caderno de encargos realista e reformista, sob pena de vir a ter um fim igual ou pior ao de Marta Temido.

Acresce a dificuldade de estarmos em pleno processo de aprovação das várias peças que compõem o novo estatuto do Serviço Nacional de Saúde. São estas peças que irão enquadrar as respostas políticas para contratar mais profissionais, manter os profissionais no SNS, pagar-lhes condignamente e interagir de forma virtuosa com o setor privado.

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