Aos 9 anos, Giovana Madalosso criou um idioma que ensinou à sua prima para que conversassem sem serem entendidas pelos adultos. Ainda se lembra da frase “Xa tomchap automaton trola”? (Você gosta de arroz?)
Por ter crescido numa comunidade conservadora de imigrantes italianos no Sul do Brasil, em Curitiba, descobriu na leitura e na escrita uma rota de fuga e exploração de outros mundos.
Chama-se Giovana Madalosso e é uma das escritoras mais interessantes e valiosas da literatura brasileira contemporânea que, aos 10 anos, já escrevia banda desenhada (os quadrinhos, como se diz no Brasil), peças e poemas.
Aos 19 anos, foi demitida do restaurante pelo próprio pai, e sentiu um enorme alívio: finalmente poderia passar os seus finais de semana apenas dedicada ao seu prato preferido: a escrita.
Ainda que soubesse, desde então, que o queria era ser escritora, foi levada a trabalhar nos negócios de restauração da família: na Cantina Fadanelli e no Restaurante Madalosso, o maior do mundo segundo o Guiness Book of Records.
Quando completou 23 anos, foi estudar roteiro de cinema em Nova Iorque e lá voltou a servir às mesas (ou como Giovana diz, trabalhou como garçonete) e… voltou a ser demitida.
Essas vivências serviram de inspiração para criar a garçonete ladra de seu primeiro romance, no “Tudo pode ser roubado” (2018)---Finalista do Prémio São Paulo de Literatura e eleito em Portugal melhor romance pelo Prémio Manuel de Boaventura. Porque na sua vida nada se perde, tudo se transforma…em romance.
Antes desse livro, muita coisa aconteceu. Depois de morar em Nova Iorque, Giovana mudou-se para São Paulo. Foi redatora e roteirista, mas continuou a escrever literatura, depois do sol, à hora das corujas e dos gatos pardos.
Isto porque Giovana sempre se sentiu escritora, sempre se sonhou escritora, sempre andou com histórias e personagens na sua cabeça, mas demorou a tirar a sua escrita do armário, e chegou até a jogar para o lixo muitas hipóteses de livros que moravam em velhinhas disquetes.
Giovana sabia que a sua voz narrativa ainda não estava lá, no sítio que era o dela.
Curiosamente foi quando a sua filha Eva nasceu, em 2012, que Giovana sentiu que sua voz narrativa estava pronta a ser publicada, que tinha finalmente amadurecido e assim organizou o seu primeiro livro de contos, “A Teta Racional” (2016), um título recusado por diversas editoras (dirigidas muitas vezes por homens, claro) que achavam a palavra “teta” algo vulgar, grosseira - chegaram a aconselhá-la a usar a palavra “seios”, uma palavra com mais decote, mas que não a vestia.
Esses mesmos editores enchiam muito a boca de certezas garantindo também que a temática “maternidade” não interessaria a quase ninguém.
O que é particularmente estranho, já que a literatura é sempre sobre a vida… e ninguém veio para este mundo nas asas de uma cegonha. Toda a humanidade nasceu da barriga de uma mulher.
Giovana insistiu e, dois anos depois, a “Teta Racional” nasceu como o seu primeiro livro— finalista do Prémio Biblioteca Nacional.
E, contra todas as expectativas, alcançou sucesso num cenário em transformação, alimentado pela quarta onda feminista no Brasil.
Giovana assistiu, nos anos seguintes, a uma explosão da escrita feita por mulheres no Brasil, o que serviu de inspiração para o seu movimento “Um Grande Dia para as Escritoras”.
A escritora partilha aqui que um dos momentos mais bonitos de sua vida foi quando discursou, em 2022, para 420 escritoras na arquibancada do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, antes de fazerem a foto que, no dia seguinte, ganharia a capa do maior jornal do Brasil, o Globo.
Giovana fez assim história ao conseguir juntar tantas escritoras que reproduziram o clássico retrato “Um grande dia no Harlem” (1958), uma imagem icónica tirada por Art Kane em Nova York, com lendas do jazz.
A própria considera este movimento – “Um Grande Dia para as Escritoras” - o seu trabalho mais importante, já que centenas de escritoras relataram que, só a partir do dia desse encontro, dessa foto, tiveram a coragem de se afirmarem “escritoras”. O que dá que pensar…
Porém, para que não haja equívocos, Giovana declara: “Sou feminista, mas a minha literatura não”, uma frase que deu pano para mangas. E sobre a qual falamos neste podcast.
Giovana já se descreveu também como “feminista climática”, por cruzar o seu discurso sobre as questões de gênero, com a crise do clima. Uma luta que leva sempre consigo e que aborda neste episódio também.
Sobre o seu processo de escrita, importa dar conta que Giovana adora fazer pesquisas para os seus livros.
E, neste podcast, Giovana revela como durante essas fases de pesquisa já visitou uma aldeia distante, no coração da Amazônia, sem internet e nenhum outro tipo de comunicação. Ou como já passou uma tarde à boleia de um camião de um desconhecido.
Mais recentemente bateu muita bola como um médico hematologista para tornar verosímil a história de Nico, um rapaz doente, que sofre de um linfoma, que habita no seu último romance “Batida Só” —-- que veio depois do seu “Suíte Tóquio” (romance finalista do Prémio Jabuti e que está a ser adaptado para o cinema).
Os seus livros são daqueles que agarram à primeira página ou à primeira linha…
Para o seu “Batida Só”, o seu quarto livro (o terceiro publicado em Portugal, pela Tinta da China), Giovana inspirou-se nos problemas cardíacos que a filha sofreu e, com as armas da ficção, foi direto ao coração da jornalista Maria João, a protagonista da história, que após uma tentativa de violação à saída do jornal, passa a ter uma batida cardíaca indomável, selvagem, errante, com muitas arritmias que a colocam em risco de vida.
É de destacar o momento em que a personagem Maria João recebe dos médicos uma prescrição inusitada: evitar emoções fortes como parte do tratamento.
O que leva esta personagem a abrandar o ritmo da sua vida, e a ir para a aldeia do interior onde cresceu, procurando escapar de emoções fortes e atividades físicas puxadas, até que o seu problema seja resolvido ou melhorado.
Ou seja, é aconselhada a sentir menos, para se poupar. Será que podemos viver sem sentir emoções fortes? Que vida será essa sem intensidade, entusiasmo e desassombro? É passar a estar meio morto em vida ou passar ao lado da vida?
Estas questões são discutidas neste episódio. E que se relaciona com uma certa cultura atual, que vive anestesiada, alienada nas redes sociais, apática, distante e cínica, para evitar sentir e sofrer.
Importa dizer que o humor é uma batida constante na sua escrita, algo que atravessa toda a sua obra, e mesmo num cenário dramático e trágico, Giovana não deixa de ter um olhar mordaz para o lado cómico das coisas.
E, neste seu “Batida Só”, Giovana navega num rio que liga o ateísmo e a fé, os mistérios da espiritualidade e do corpo.
Hoje Giovana medita e pratica Ioga Ashtanga “todos os dias para não enlouquecer”….palavras suas.
O que lembra o que disse um dia o artista surrealista Cruzeiro Seixas neste mesmo podcast:
“É preciso uma grande percentagem de loucura para se viver. Quem não a tem, já nasceu morto.”
Não será também precisa uma grande percentagem de loucura para se escrever literatura? A conversa começa precisamente por aqui.
Como sabem, o genérico é assinado por Márcia e conta com a colaboração de Tomara. Os retratos são da autoria de José Fernandes. E a sonoplastia deste podcast é de João Ribeiro.
A segunda parte desta conversa fica disponível na manhã deste sábado.
