Desporto

Dos títulos no Benfica à glória no Brasil: a volta de 360 graus na carreira de Jorge Jesus

Jorge Jesus

Action Images

Cinco anos depois, o técnico regressa a Portugal para treinar o clube da Luz.

Cinco anos depois, Jorge Jesus está de regresso ao Benfica. Tanto o clube da Luz como o Flamengo confirmaram o negócio.

O técnico, de 65 anos, deverá chegar este domingo a Lisboa para assinar um contrato que terá uma duração de três anos.

20 anos a treinar antes da chegada ao Benfica

Jorge Jesus chegou a treinador em 1989, com o Amora. Desde então, passou por clubes como o União da Madeira, o Estrela da Amadora, o Vitória de Guimarães, o Belenenses ou o Sporting de Braga, clube com o qual venceu o seu primeiro prémio internacional, a Taça Intertoto da Uefa.

No verão de 2009, chegou pela primeira vez ao Benfica, com o desejo de vitórias e a promessa de colocar os jogadores "encarnados" a trabalhar o dobro.

"Os jogadores do Benfica para o ano vão jogar o dobro do que jogaram o ano passado. Só isso. E o dobro se calhar é pouco", disse na sua primeira conferência no Estádio da Luz, em junho de 2009.

À frente do Benfica, venceu três Ligas, uma Taça de Portugal, cinco Taças da Liga e uma Supertaça Cândido de Oliveira. No verão de 2015, foi anunciada a sua saída para o eterno rival Sporting, onde ficou até 2018, ano em que foi uma das vítimas do ataque na Academia de Alcochete.

Foi então que surgiu o primeiro desafio no estrangeiro. Chegou à Arábia Saudita, onde ficou como treinador do Al-Hilal durante um ano. Em 2019, assinou pelo Flamengo e fez história pelo clube brasileiro.

As conquistas no Benfica

Jorge Jesus estava no Sporting de Braga quando assinou pelo Benfica, em 2009. Na primeira conferência de imprensa, no Estádio da Luz, admitiu que queria ser campeão nacional já na época de 2009/10. E conseguiu.

Francisco Seco

No primeiro ano à frente do Benfica, não só alcançou o objetivo de vencer a Liga, como também conquistou uma Taça da Liga. A primeira de muitas.

Os palmarés de Jorge Jesus no Benfica:

  • Três Ligas: 2009/10, 2013/14, 2014/15;
  • Uma Taça de Portugal: 2013/14;
  • Cinco Taças da Liga: 2009/10, 2010/11, 2011/12, 2013/14, 2014/15;
  • Uma Supertaça Cândido de Oliveira: 2014.

Para além destas conquistas, o técnico conseguiu ainda chegar duas vezes à final da Liga Europa, mas acabou por perder frente ao Chelsea (2-1) em 2013, e ao Sevilha (penáltis), em 2014.

O ciclo de seis anos de Jorge Jesus como treinador do Benfica chegou ao fim, em 2015. Para trás, ficaram 321 partidas oficiais que o tornaram no técnico com mais jogos na história do clube. Jesus ganhou 70% dos encontros que disputou.

A saída do Benfica

Em junho de 2015, foi anunciada a saída de Jorge Jesus do Benfica para o Sporting, com o qual assinou um contrato de três anos.

Apesar das negociações entre o clube da Luz e o técnico, para a renovação de contrato, estas acabaram por cair. Na primeira reação à saída, Jorge Jesus confessou que partia com "a consciência do dever cumprido" e garantiu que deu o melhor "em proveito do clube, tentando respeitar a sua história e grandeza".

Numa entrevista em julho de 2015, na SIC Notícias, Jorge Jesus justificou a saída do Benfica, dizendo que não se sentiu desejado no clube.

A relação de Jorge Jesus com Luís Filipe Vieira

Jorge Jesus assumiu de imediato o comando técnico do Sporting. Um período atribulado que colocou o treinador várias vezes contra o Benfica e Luís Filipe Vieira.

No mesmo ano da saída, o Benfica deu entrada de uma ação judicial contra Jorge Jesus e exigiu uma indemnização de 14 milhões de euros.

O clube acusava o treinador de incumprimento de contrato, contactos mantidos com um funcionário do Sporting ainda durante a vigência do anterior vínculo e apropriação de software confidencial do clube. Já Jorge Jesus recorreu a tribunal para reivindicar o pagamento do último mês de salário no Benfica.

As ações judiciais só ficaram resolvidas três anos depois, em 2018, quando o Benfica e Jorge Jesus desistiram das queixas.

"Tanto eu como o Benfica achámos que era a melhor solução e foi tudo normal", revelou o técnico, numa conferência de imprensa, em fevereiro daquele ano.

A chegada ao Sporting

O verão de 2015 ficou marcado pela mudança de clube de Jorge Jesus.

Bruno de Carvalho, na altura presidente do Sporting, disse que o acordo com o novo treinador dos leões tinha sido fechado em apenas dois dias e que a "vontade mútua" contribuiu para o processo.

Apresentado a 1 de julho no Sporting, Jorge Jesus foi recebido por milhares de adeptos, no Estádio de Alvalade. O técnico disse que queria vencer títulos pelo clube e frisou que estava na hora de "acordar o leão adormecido".

"Está na hora de assumirmos que somos candidatos a todos os títulos em Portugal. Temos de acordar o leão adormecido e por isso a partir de hoje há três candidatos ao título em Portugal"

Cinco anos mais tarde, Jorge Jesus revelou o motivo pelo qual trocou o Benfica pela Sporting. Visivelmente emocionado, o técnico português confessou que a sua decisão foi influenciada por um desejo do pai, que representou o Sporting.

Apesar do desejo de ser campeão pelo Sporting, Jorge Jesus não conseguiu atingir esse objetivo. Nos três anos à frente do clube, o técnico conquistou uma Taça da Liga (2017/18) e uma Supertaça Cândido de Oliveira (2015).

A saída do Sporting

Em abril de 2018, após uma série de maus resultados no Sporting, instala-se uma crise no clube.

Das críticas de Bruno de Carvalho ao comunicado conjunto dos jogadores e, por consequência, as suspensões, que acabaram por não ir para a frente, o momento crítico da crise aconteceu a 15 de maio.

Durante um treino da equipa, dezenas de adeptos encapuzados invadiram a Academia de Alcochete e agrediram vários jogadores, assim como Jorge Jesus e outros membros da equipa técnica.

No meio de uma crise no Sporting, no início de junho começou-se a falar da possível saída de Jorge Jesus, que foi confirmada a 5 de junho. O técnico assinou contrato por um ano com o Al-Hilal, da Arábia Saudita, confirmando assim a sua saída de Portugal para treinar, pela primeira vez, uma equipa estrangeira.

A ida para o estrangeiro

Na Arábia Saudita, Jorge Jesus foi recebido em festa à chegada a Riade. Ainda no aeroporto, o treinador foi abordado por dezenas de adeptos que gritavam o seu nome.

O técnico confessou que a mudança se deveu a razões económicas:

"Nenhuma equipa em Portugal me pagaria o que vou ganhar na Arábia Saudita."

Em agosto de 2018, o treinador português conquistou o primeiro e único troféu à frente do Al-Hilal: a Supertaça da Arábia Saudita.

Apesar das contínuas vitórias, Jorge Jesus e o clube saudita chegaram a acordo para a saída do técnico, em janeiro de 2019. O técnico luso não quis prolongar o contrato porque queria regressar a Portugal.

A chegada ao Flamengo

No verão de 2019, Jorge Jesus começou a sua segunda experiência no estrangeiro, no comando técnico do Flamengo, com o qual viria a fazer história.

O técnico prometeu lutar por títulos no clube, que estava em 3.º lugar no campeonato brasileiro, mas deixou desde logo um aviso: "Sou Jesus, mas não faço milagres".

Mas milagres, o técnico fez.

No dia 23 de novembro de 2019, Jorge Jesus conquistou um dos prémios mais importantes da sua carreira: a Taça Libertadores. O Flamengo não chegava à final desta competição há 38 anos.

Os palmarés à frente do clube brasileiro não se ficaram por aqui. Uns dias depois da taça, o Flamengo venceu o campeonato brasileiro. A 16 de fevereiro, conquistou a Supercopa do Brasil e, alguns dias depois, a Recopa Sul-Americana.

Os títulos valeram-lhe a condecoração com a Ordem do Infante D. Henrique e o título de cidadão honorário do Rio de Janeiro.

A 15 de julho de 2020, numa altura em que já se falava do possível regresso ao Benfica, Jorge Jesus levou o Flamengo à conquista do seu quarto título do ano, ao vencer o Fluminense por 1-0, em encontro da segunda mão da final do campeonato Carioca em futebol. Este viria a ser o último jogo do técnico português à frente do clube brasileiro.

O desejo de voltar

Desde que saiu em 2018 para a Arábia Saudita e depois para o Brasil, foram várias as vezes que o treinador manifestou o desejo de voltar a Portugal.

Quando saiu do Al-Hilal, revelou que o fazia para regressar ao futebol português. Na altura, confessou mesmo que não fechava a porta a um regresso ao Benfica.

Em maio de 2019, antes de assinar pelo Flamengo, Jorge Jesus confessou que estaria disposto a treinar um clube sem ser os "três grandes" - Benfica, FC Porto e Sporting -, para conseguir voltar a Portugal. No mês seguinte, ainda sem clube, voltou a manifestar o desejo de treinar em Portugal, não sabendo "quando e como".

Agora, cinco anos depois de sair do Benfica e dois anos após rumar ao estrangeiro, Jorge Jesus regressa a Portugal para voltar a treinar o clube da Luz.

  • 14:54