Desporto

Luís Filipe Vieira demite-se do Benfica

Vieira deixa a direção do clube e da SAD "encarnada".

Luís Filipe Vieira demitiu-se esta quinta-feira da direção do clube e da SAD do Benfica.

Numa carta enviada aos órgãos sociais do clube e da SAD, Vieira considera que, perante as acusações no processo Cartão Vermelho, não tem condições para continuar como presidente, cargo que ocupava desde novembro de 2003.

Vieira está impedido pelo tribunal de contactar administradores da SAD e isso coloca em causa a gestão da sociedade comercial.

Esta decisão surge depois do ultimato feito pela própria SAD do clube: ou Vieira saía por vontade própria ou acabaria expulso.

Vieira ainda não pagou caução de 3 milhões de euros

Luís Filipe Vieira ainda não pagou a caução de 3 milhões de euros que o pode vir a libertar da prisão domiciliária.

É a segunda maior caução alguma vez aplicada em democracia por um tribunal português.

O principal arguido da Operação Cartão Vermelho tem até ao fim do mês para garantir o dinheiro exigido pelo juiz Carlos Alexandre.

Além de depósito bancário ou de um penhor de títulos, Vieira pode fazê-lo através de uma garantia bancária ou de uma hipoteca sobre um imóvel.

Para os outros três arguidos, o juiz também exige cauções, mas sem medidas privativas da liberdade: 2 milhões de euros para o empresário José António dos Santos, 600 mil euros para Tiago Vieira e 300 mil euros para o empresário Bruno Macedo.

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Esquema "ardiloso" de Vieira: compra de dívida, desvio de dinheiro do Benfica e ocultação de património

Nos documentos, a que a SIC teve acesso, o Ministério Público descreve um esquema que apelida de "ardiloso" e "opaco".

Um império imobiliário erguido sobre uma estrutura de enormes dívidas. É este o problema central para o qual Luís Filipe Vieira terá encontrado soluções que, segundo o Ministério Público, representam crimes de burla, branqueamento de capitais, fraude fiscal, abuso de confiança e falsificação.

Luís Filipe Vieira assumiu a Imosteps, em 2012, a pedido de Ricardo Salgado. Com a empresa imobiliária, chegou também uma dívida de 54 milhões de euros. De acordo com o MP, a solução foi o sócio e amigo José António dos Santos.

O MP acredita que, para se livrar da dívida, Vieira terá montado um plano que começou em 2019 pela proposta de compra da empresa por um fundo controlado pelo amigo, mas o negócio acabou chumbado pelo Fundo de Resolução.

Três meses depois, a Imosteps foi vendida a um fundo norte-americano por mais de 6 milhões de euros, que vendeu depois a empresa, em agosto do ano passado, a um fundo de José António dos Santos, por pouco mais de 9 milhões.

Na SAD do Benfica, o MP encontrou uma outra linha de investigação: o alegado desvio de dois milhões e meio de euros do clube encarnado. Bruno Macedo, empresário de Braga, surgiu no esquema graças às quatro sociedades em paraísos fiscais usadas no negócio de compra e venda de 3 jogadores.

A AJUDA DO FILHO E DO ADVOGADO

O Ministério Público diz que para as operações financeiras, Vieira contou com o filho Tiago Vieira e Bruno Macedo. O advogado, natural de Braga, que tinha entrado no mundo do futebol através do Sporting de Braga, é suspeito de usar estruturas societárias para benefício próprio e de Vieira.

Em Portugal, terão sido usadas a BM Consulting e a Yes Sports. No estrangeiro, a Astro Sports Management, a Master International, a International Sports Fund e a Trade In, registadas nos Estados Unidos da América, nos Emirados Árabes Unidos e na Tunísia.

A Trade In, por exemplo, terá servido para desviar dos cofres do Benfica verbas relacionadas com a aquisição do jogador brasileiro César Martins.

Já a Master International terá sido usada para alocar as mais valias da venda de direitos económicos de dois outros jogadores: Derlis González e Cláudio Correa. Milhões de euros que deviam ter entrado nas contas do Benfica, o que nunca chegou a acontecer.

COMO FUNCIONAVA A ALEGADA REDE

Bruno Macedo disponibilizava as empresas e Vieira os meios financeiros do Benfica. Os dois terão acordado que o clube trataria da contratação e venda de jogadores através de Macedo que, assim, podia canalizar dinheiro para sociedades com o controlo direto ou indirecto de Vieira.

Por exemplo, em dezembro de 2015 e março de 2016, a sociedade Springlabyrinth de Bruno Macedo terá sido usada para receber 830 mil euros que vieram da International Sports Fund. Com esse dinheiro, a Springlabyrinth comprou imóveis de sociedades do grupo de Luís Filipe Vieira no Algarve, em Rio Maior, e em Santo António dos Cavaleiros.

Sociedades onde Tiago Vieira, o filho de Luís Filipe Vieira, é administrador e podia movimentar as contas de acordo com as indicações do pai.

Para além do Benfica, os alegados esquemas de fraude de Vieira envolvem também prejuízos ao ex-Grupo Espírito Santo, ao atual Novo Banco e ao Estado português.