Angela Merkel

Merkel: mãe e verbo da Alemanha moderna

Michael Sohn

Carinhosamente chamada pelos alemães de "Mutti" (mãe), protagonizou um estilo único de fazer política na Alemanha. Não era uma grande oradora, nem fazia discursos inspiradores, mas a postura pragmática valeu-lhe respeito e admiração. "Merkeln" passou a ser verbo na Alemanha, em alusão à forma como a chanceler toma decisões.

Era uma excelente aluna, embora não gostasse de atividades desportivas. Nasceu em Hamburgo, em 1954, e foi para a Alemanha Oriental, controlada pelos soviéticos, ainda bebé. Cresceu numa sociedade onde uma palavra podia colocar em perigo a família. O pai era um pastor luterano e a mãe professora de Inglês. "Eu tive uma boa infância, bons pais e amigos", disse Merkel numa entrevista.

Aos 7 anos, viu o Muro de Berlim erguer-se. Viveu uma boa parte da juventude e vida adulta numa Alemanha separada em dois blocos, um capitalista e outro comunista. A queda da "cortina de ferro", em 1989, e o início da reunificação do país foram, para Angela Merkel, um despertar político.

MICHAEL PROBST

Estudou Física na Universidade de Leipzig e doutorou-se em Química Quântica em Berlim. Foi, durante vários anos, investigadora na Academia de Ciências. A entrada na política deu-se ainda em 1989 no novo partido de centro-direita Despertar Democrático, como porta-voz adjunta do Governo pré-unificação.

Um ano depois, na primeira eleição após a unificação da Alemanha, foi eleita para a câmara baixa do Parlamento alemão. Daí até conseguir a pasta num Ministério foi rápido. Com a fusão do Despertar Democrático e a CDU (União Democrata Cristã), tornou-se ministra da Mulher e da Juventude e, posteriormente, ministra do Ambiente e Segurança Nuclear. Foi "adotada" pelo chanceler e líder dos democratas-cristãos Helmut Kohl, que a tratava como "minha menina".

A queda do "velho cavalo"

Observadora, Angela Merkel aprendeu muito sob a tutela de Kohl, líder alemão de 1982 a 1998. Prova disso, foi a reação de Merkel à "bomba" política que rebentou um ano depois. Kohl envolveu-se num escândalo financeiro com doações anónimas. Impiedosa, Merkel reagiu com uma carta aberta enviada aos jornais alemães, onde escreveu:

"O partido vai ter de travar guerras futuras com os seus oponentes sem o seu velho cavalo de batalha", pedindo a renúncia do seu mentor.

O líder da CDU acabou por cair e Merkel ficou com o seu cargo. "Trouxe o meu assassino", refletiu Kohl com tristeza. "Eu pus a cobra no meu braço."

FRITZ REISS

A chanceler

Cinco anos depois de ter sido eleita líder da CDU, chegou a chanceler da Alemanha ao vencer por meio ponto percentual Gerhard Schröder, que a tinha chamado de "lamentável" como ministra.

"Querida Merkel, você é a primeira mulher eleita para ser chefe de Governo na Alemanha. Um sinal forte para as mulheres e, certamente, para alguns homens", disse o então Presidente do Parlamento alemão, Worbert Lammert.

Merkel tornou-se chanceler numa altura em que a Alemanha lutava para encontrar coesão entre o antigo Oriente e Ocidente. Trouxe o casamento entre pessoas do mesmo sexo e mudanças radicais na política, como a desnuclearização após o desastre de Fukushima. Também promoveu uma sociedade com consciência ambiental para avançar com uma economia neutra em carbono até 2045 (a meta da UE é 2050).

A liderança foi desafiada por várias crises: económica, migratória, pandémica, climática. A maior prova aconteceu durante a crise financeira global, em que foi necessário salvar o Euro. Merkel intermediou acordos durante discussões para manter a Grécia na União Europeia e para preservar a solidariedade europeia.

Gero Breloer

Enquanto os seus antecessores - o democrata cristão Helmut Kohl (1982-1998) e o social-democrata Gerhard Schröder (1998 - 2005) - são lembrados, principalmente, por políticas internas, Merkel foi uma líder de política externa. Ao longo de 16 anos, trabalhou com oito primeiros-ministros japoneses, sete primeiros-ministros italianos, cinco primeiros-ministros do Reino Unido e quatro Presidentes dos Estados Unidos.

Obama pediu e Merkel candidatou-se ao quarto mandato

Após as eleições de 2013, Merkel tinha decidido não se candidatar a um novo mandato, mas acabou por mudar de ideias. Estava o mês de novembro de 2016 a terminar quando Obama voou até Berlim para falar com a chanceler alemã. Donald Trump tinha acabado de ser eleito e, na visão do então Presidente dos Estados Unidos, apenas uma pessoa lhe poderia fazer frente: Angela Merkel.

Três horas de conversa no Hotel Adelon em Berlim foram suficientes para convencer a chanceler alemã a arriscar num quarto mandato. Merkel foi persuadida a comandar o internacionalismo liberal. "Notei uma lágrima no olho quando saímos", disse o redator de discursos de Obama, Ben Rhodes, ao relatar o encontro entre os dois líderes.

Nos quatro anos seguintes, Merkel procurou salvar o acordo de Paris e manteve a pressão geopolítica sobre Putin.

Herbert Knosowski

Não haverá um quinto mandato...

...mas podia. Angela Merkel sai com a popularidade em alta e podia, com facilidade, arriscar um histórico quinto mandato e tornar-se a chanceler há mais tempo no cargo (ainda pode conseguir bater o recorde de Kohl, caso demore a formação do novo Governo).

Os eleitores alemães vão escolher este domingo o sucessor de Merkel, mas muitos ainda estão divididos e confusos. Esperam poder contar com estabilidade financeira, manutenção das poupanças e com os seus postos de trabalho. H. Jaraush, professor alemão de História contemporânea e autor de vários estudos, referiu à Lusa que é natural que os alemães se sintam inseguros em relação ao pós-eleições do próximo dia 26, porque Angela Merkel esteve no poder 16 anos.

"É muito tempo, é como saber que o sol nasce todos os dias pela manhã. Agora vem uma nova fase - e é claro que algumas coisas podem mudar e os mais progressistas prometem um novo começo, mas, no essencial, o que os alemães querem mesmo saber é se as poupanças não vão desaparecer e se os empregos vão ser mantidos."

Merkel dedica-se agora a abrir espaço para a geração futura, visto que a Alemanha, a UE e o mundo enfrentam desafios cada vez maiores, que vão desde a pandemia e a mudança climática, às relações com os EUA, Rússia, China e muito mais.

Nestes últimos meses após as eleições, Merkel vai prosseguir com iniciativas de política externa, dizem os funcionários do Governo. Se a formação do novo Executivo tardar, a chanceler tem a possibilidade de mediar uma nova rodada do chamado "formato da Normandia" com Rússia, Ucrânia e França num esforço para conter o conflito no leste da Ucrânia.

Auf Wiedersehen, Merkel

Jens Meyer

Angela Merkel mostrou que a política se deve concentrar em arranjar soluções e não em ganhar discussões. Governou quatro executivos sem maioria absoluta e sempre com coligações.

"Nunca tente mudar a mente do parceiro de negociação, mas encontre e explore a margem de manobra dentro do seu pensamento", disse Angela Merkel numa entrevista.

A chanceler modernizou a CDU e adaptou o programa às necessidades da população. Modernizou também a Alemanha e, em certa medida, liberalizou um sistema muito conservador. Foi criticada por liderar sem comunicar uma visão mais ampla, mas a sua capacidade de prosperar durante os desafios, mantendo a integridade, molda o seu legado dentro e fora da Alemanha.

Enquanto a maioria dos líderes mundiais são "homens de ação" que explodem quando surgem crises, Merkel sempre preferiu fazer o trabalho de casa e, só no úlltimo minuto, tomar uma decisão baseada em factos. Os alemães até inventaram uma palavra para isso, "Merkeln", que significa meditar sobre uma decisão antes de agir.

A "Mutti" despede-se da liderança da Alemanha como uma das líderes mais influentes da era moderna.

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