Coronavírus

Ingrediente chave na vacina da Covid-19 pode estar numa árvore chilena

Corporação Florestal Nacional do Chile

Molécula permite aumentar a resposta imunológica.

Especial Coronavírus

Numa altura de grandes desenvolvimentos na corrida a uma vacina da Covid-19, também a empresa de biotecnologia norte-americana Novavax inicia este mês os ensaios clínicos finais nos Estados Unidos, México e Porto Rico. E a sua vacina tem um componente especial: o seu sucesso pode estar ligado a um ingrediente de uma árvore existente no Chile.

É na casca de uma árvore que os indígenas usam desde sempre como planta medicinal que pode estar o segredo da eficácia da vacina. Conhecida pelas suas propriedades curativas e utilizada também na indústria cosmética e alimentar, a casca da Quilaia saponaria ou "árvore de casca de sabão" é composta por moléculas que, em contacto com a água, produzem espuma, daí o seu nome.

Para além disso, estas moléculas - saponinas - são capazes de interligar compostos que normalmente se repelem, como água e gordura, por exemplo, e ainda aumentar a resposta imunológica do corpo.

O ingrediente chave

“A vacinação é composta por dois elementos: o antígeno e o chamado adjuvante. O antígeno ativa as defesas do próprio corpo, enquanto o adjuvante transporta o antígeno para as células”, explica o diretor da Desert King, empresa responsável por extrair as moléculas da árvore Quilaia e fornecê-las à Novavax.

O ponto-chave é que as saponinas desta árvore chilena podem ser transformadas em adjuvantes, as substâncias que amplificam o efeito da vacina e a resposta imunológica.

“É importante adicionar um adjuvante à vacina para obter uma resposta maior que nos proteja melhor", disse à BBC Gregory Glenn, chefe de pesquisa e desenvolvimento da Novavax.

As saponinas podem ser encontradas em muitas plantas, mas até agora apenas as da Quilaia se mostraram eficazes para a indústria farmacêutica.

Como funciona a extração

A Desert King, responsável por fornecer estas saponinas à Novavax, desenvolveu um processo para extrair os agentes ativos da casca e da madeira da árvore chilena que, depois de transformar em pó, vende à Novavax.

"Extrai-se cerca de 30 ou 50 quilos de uma árvore grande. A cortiça é limpa, a parte superior da casca é tirada com facas e o resto é deitado fora. Só pode ser extraída pouca quantidade. Propus extraí-los da madeira para não matar a árvore, e foi assim que nasceu nossa empresa", disse à BBC o investigador chileno Ricardo San Martín, que lidera o departamento de inovação da Desert King International em San Diego, na Califórnia.

QS21. A corrida por um adjuvante

Ricardo San Martín passou grande parte da sua vida a estudar as possíveis aplicações das saponinas da Quilaia em vacinas. Tudo começou na década de 1990, depois de os especialistas constatarem que os antigos adjuvantes utilizados nas vacinas não estavam a gerar resposta imunológica.

Pouco depois, nos Estados Unidos, foi descoberto que este composto extraído desta árvore podia ser utilizado em vacinas humanas. Chama-se QS21, adjuvante purificado de saponina da Quilaia e há cerca de 10 anos recebeu aprovação para ser utilizado em vacinas humanas como por exemplo a da malária.


Quantas árvores são precisas para a vacina da covid-19?

O problema que se coloca agora é a demanda para uma primeira fase de produção desta vacina. O investigador chileno Ricardo San Martín estima que, neste momento, sejam necessárias cinco a sete mil árvores, mas explica que o futuro pode passar por sintetizar os compostos das saponinas da Quilaia.

A vacina da Novavax

Esta é a 11.ª vacina experimental do mundo a entrar na última fase de testes clínicos e a envolver dezenas de milhares de participantes. Normalmente, metade dos participantes recebe um placebo [agente neutro] e a outra metade é testada com a vacina.

A Novavax é uma das seis empresas financiadas com centenas de milhões de dólares pelo Governo dos Estados Unidos e a quinta a entrar na última fase de testes.

A empresa de biotecnologia recebeu mais de 1,6 mil milhões de dólares (cerca de 1,3 mil milhões de euros) de dinheiro público norte-americano para financiar a produção de 100 milhões de doses.

AVANÇOS NA VACINA E TRATAMENTO CONTRA A COVID-19

Esta semana tem sido pródiga em boas notícias sobre os avanços no desenvolvimento de uma vacina contra o SARS-CoV-2 bem como um tratamento novo.

► A farmacêutica norte-americana Pfizer anunciou na segunda-feira que a sua vacina contra a Covid-19 alcançou 90% de eficácia nos testes.

► Nesse mesmo dia 9 de novembro, o porta-voz do ministro da Saúde da Rússia veio assegurar que a vacina que está a ser desenvolvida no país - a Sputnik V - tem uma taxa de eficácia superior a 90% e no dia seguinte Putin garantiu que "todas as vacinas russas contra a Covid-19 são eficazes"

► Na terça-feira, 10 de novembro, foi noticiado que o ensaio clínico da potencial vacina CoronaVac da chinesa Sinovac foi suspenso no Brasil devido a "efeito adverso grave.", embora a empresa chinesa reafirme a confiança no produto, indicando que o efeito secundário não está relacionado com a vacina.

► Ainda na segunda-feira, mas já terça em Portugal, a agência norte-americana do medicamento (FDA) deu uma autorização de utilização de emergência e temporária de um medicamento experimental para a Covid-19 fabricado pela Eli Lilly, mas apenas para doentes com sintomas ligeiros ou moderados e não para hospitalizados a necessitar de oxigénio.

O tratamento experimental com anticorpos sintéticos é o primeiro especificamente desenvolvido para o novo coronavírus.