Esquecidos

Quando a vida dos deslocados pela violência está nas mãos de voluntários

Fanwi Antoinette Buinda

A crise afetou fortemente o sistema de saúde público dos Camarões: muitos centros de saúde fecharam ou não estão em condições de funcionar, profissionais médicos e estruturas de saúde são alvos diretos da violência e a insegurança coloca entraves aos fornecimentos de medicamentos e equipamentos.

Uma dezena de adultos e crianças esperam pacientemente pela sua vez nas consultas. Sentado atrás de uma pequena mesa, Etienne Esua, ouve um a um, faz ligaduras nos ferimentos e pica os dedos para fazer testes rápidos de malária. “Quando o teste mostra que a pessoa tem malária mas os sintomas não são graves, dou os medicamentos ao paciente”, explica.

Estas consultas decorrem na varanda de uma casa comum numa aldeia no Sudoeste dos Camarões. Etienne Esua não é profissional médico, mas sim um voluntário comunitário que recebeu formação da Médicos Sem Fronteiras (MSF) para providenciar cuidados primários de saúde a algumas das comunidades mais remotas e mais vulneráveis nesta região.

Mais de 700 mil deslocados

Ao longo dos últimos quatro anos, o Sudoeste e Noroeste dos Camarões têm sido assolados por intensa violência armada entre as forças governamentais e grupos não estatais, que conduziu ao deslocamento populacional de mais de 700 000 pessoas.

As necessidades humanitárias são enormes. As comunidades de pessoas deslocadas enfrentam muitas dificuldades para obter serviços essenciais, incluindo cuidados de saúde.

A crise afetou fortemente o sistema de saúde público: muitos centros de saúde fecharam ou não estão em condições de funcionar, profissionais médicos e estruturas de saúde são alvos diretos da violência e a insegurança coloca entraves aos fornecimentos de medicamentos e equipamentos.

Bem recentemente, às primeiras horas de 4 de fevereiro, uma ambulância da MSF, claramente identificada, foi alvo de ataque por homens armados quando respondia a uma chamada na vila de Muyuka, no Sudoeste dos Camarões.

A ambulância foi atingida a tiro e o enfermeiro que nela viajava ficou ferido. Na sequência do ataque, foi enviada uma segunda ambulância para acudir ao paciente que estava no veículo que fora atacado e o qual se encontrava em estado crítico, a precisar de assistência médica urgente. O enfermeiro da MSF foi igualmente tratado e está a recuperar dos ferimentos sofridos.

Um modelo salva-vidas para pessoas deslocadas pela violência

Face ao elevado nível de insegurança, organizações humanitárias como a MSF confrontam-se com graves problemas para chegar às comunidades de deslocados internos, uma vez que estas pessoas se escondem com frequência no mato em busca de refúgio.

Para providenciar assistência médica em condições tão desafiantes, a MSF criou um modelo de cuidados descentralizados nas regiões do Sudoeste e do Noroeste dos Camarões, em que os cuidados de saúde primários são prestados diretamente na comunidade pela própria comunidade. É um sistema que conta com pessoas das comunidades que se voluntariam, como Etienne Esua.

“Os voluntários comunitários de saúde são o elo de ligação entre as estruturas médicas onde a MSF presta apoio e as comunidades vulneráveis que não têm acesso a centros de saúde, seja porque são populações deslocadas, porque as estruturas estão fechadas ou porque as pessoas não conseguem pagar os serviços médicos de que precisam”, explica o coordenador da MSF Yilma Werkagegnehu.

Fanwi Antoinette Buinda

Fanwi Antoinette Buinda

Autoridades suspendem atividade da MSF

A MSF trabalha atualmente com 106 voluntários comunitários em vários distritos de saúde nos arredores das vilas de Mamfe e de Kumba, no Sudoeste dos Camarões. O mesmo estava a ser feito até dezembro passado no Noroeste, tendo o projeto sido aí interrompido devido a uma decisão das autoridades de suspensão das atividades da MSF nesta região até novas indicações.

Os voluntários comunitários de saúde são recomendados e selecionados pelos líderes das comunidades e recebem formação da MSF para fazerem a deteção e tratamento de doenças simples como casos sem complicações de malária ou de infeções respiratórias, de subnutrição e de diarreias.

Estes voluntários aprendem também a desenvolver atividades de promoção de saúde com o objetivo de prevenir doenças e aprendem ainda a identificar sinais de abuso sexual e de stress psicológico.

Apesar de não serem profissionais médicos, os voluntários comunitários são igualmente formados para cumprirem a ética médica e a tratarem quem precisa de cuidados de saúde independentemente do seu contexto.

Mais de 150 mil consultas gratuitas

Em 2020 apenas, os voluntários comunitários de saúde da MSF providenciaram mais de 150 000 consultas gratuitas nas regiões do Sudoeste e do Noroeste dos Camarões.

Estes voluntários são pagos pelo trabalho que desenvolvem e recebem mochilas cheias de medicamentos necessários às atividades. Regularmente reúnem-se com supervisores da MSF para conversarem sobre o trabalho feito, serem aconselhados e partilharem dados médicos. Nessas ocasiões, as mochilas são de novo abastecidas antes de os voluntários voltarem às visitas que fazem às comunidades remotas, frequentemente envolvendo longas caminhadas de várias horas todos os dias.

Fanwi Antoinette Buinda

Quando um tratamento está para além das suas capacidades, estes voluntários comunitários podem encaminhar os pacientes para serem assistidos nas estruturas de saúde apoiadas pela MSF, onde é providenciado o tratamento necessário nos casos de crianças com malária em estado grave, de mulheres com complicações na gravidez, de sobreviventes de violência sexual ou de pacientes com ferimentos intencionais.

Uma dessas pacientes encaminhadas é uma criança de sete anos chamada Dorcas. Está sentada num banco junto à mãe, à porta do Hospital Geral Presbiteriano de Kuma, no Sudoeste dos Camarões, e tem a perna esquerda engessada. “Ficou feirda num acidente de trânsito e foi encaminhada para o hospital por um dos voluntários comunitários”, descreve a médica da MSF Guisilla Dedino.

“Foi-lhe feita avaliação no serviço de urgência, aonde ela chegou com uma fratura exposta na perna esquerda. Um cirurgião da MSF operou-a e ela está a fazer progressos, com a fratura a mostrar bons sinais de estar a sarar”, adianta a médica.

A deslocação desde aldeias remotas até às unidades de saúde é um enorme desafio para muitas pessoas nestas regiões, devido à insegurança, às más condições rodoviárias e à falta de meios de transporte. Tendo isso em conta, a MSF providencia um serviço gratuito de ambulância que funciona 24 horas por dia e sete dias por semana, levando pacientes de uma série de locais designados até centros de saúde e hospitais em que a organização médica-humanitária trabalha.

Onde não é possível ter esses serviços, a MSF providencia o pagamento de transportes públicos de forma a que os pacientes consigam chegar às unidades médicas ou aos pontos designados para as ambulâncias.

Voluntários abordados e intimidados por homens armados

A gestão de um modelo de cuidados de saúde descentralizado e de serviços de ambulâncias não é fácil num ambiente de elevada insegurança como a que se vive no Sudoeste e Noroeste dos Camarões.

“Os voluntários comunitários da MSF são por vezes abordados e intimidados por homens armados”, esclarece o coordenador de emergências MSF na região do Sudoeste do país, Paulo Milanesio.

“Estamos em diálogo permanente com as diversas partes interessadas de forma a garantir a sua segurança. É crucial que todas as pessoas compreendam que os voluntários comunitários e as ambulâncias providenciam uma muito necessária linha de salva-vidas para comunidades vulneráveis, as quais sem isto ficariam privadas de cuidados médicos”, sublinha.

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.

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