O país tem sido frequentemente atingido por tempestades e depressões, com ventos fortes, chuva intensa, inundações e cortes de eletricidade. Em alguns casos, registam-se ainda neve e agitação marítima, como se registou agora com a depressão Kristin. Nos últimos anos, estes fenómenos têm-se tornado mais frequentes e intensos, devido às alterações climáticas.
No entanto, alguns destes fenómenos ficaram gravados na memória coletiva e na história do país, devido às suas consequências, com estragos de milhões de euros em infraestruturas e, em vários casos, feridos e vítimas mortais.
Ciclone de fevereiro de 1941
Numa altura em que a Europa se encontrava mergulhada nos horrores da Segunda Guerra Mundial, um fenómeno meteorológico raro, tanto pela sua violência como pela destruição que causou, assolava um Portugal marcado pela pobreza generalizada, agravando as dificuldades das populações e deixando um rasto de estragos e vítimas que ficaria gravado na memória do país, embora as gerações mais recentes nunca tenham ouvido falar nele.
Em fevereiro de 1941, como explica a página Meteored, Portugal foi atingido por uma "ciclogénese explosiva", que ficou conhecida como o "Ciclone de 1941", a tempestade mais poderosa e mortífera registada desde o início da monitorização meteorológica no país, com rajadas de vento que atingiram mais de 165 km/h.
O dia 15 de fevereiro ficou marcado pela morte de mais de 100 pessoas e por um número ainda indefinido de feridos em várias regiões do país, sobretudo junto a zonas ribeirinhas, devido ao vento forte e inundações, além de causar danos graves em infraestruturas, comunicações e embarcações, como é possível ver nas imagens disponíveis no arquivo dos Portos de Lisboa, Setúbal e Sesimbra.
Cheias de novembro de 1967
Mais de 25 anos depois, Portugal voltava a ser atingido por uma nova tragédia, ainda mais mortífera e devastadora. Entre 25 e 26 de novembro de 1967, chuvas intensas e extremas num curto espaço de tempo deixaram a região da Grande Lisboa debaixo de água.
Considerado o "fenómeno meteorológico mais mortal em Portugal no século XX", de acordo com o National Geographic, cerca de 700 pessoas perderam a vida, milhares ficaram desalojadas e os prejuízos materiais ascenderam a milhões, somando-se ainda os danos psicológicos causados às populações afetadas.
Na altura, como explica o Expresso, o Governo de Salazar procurou minimizar a real dimensão da tragédia, com os serviços de censura a impedir a publicação de manchetes e fotografias nos jornais que mostrassem a gravidade das cheias e os estragos causados.
Tragédia da Madeira de 2010
A ilha da Madeira viveu a 20 de fevereiro de 2010 um dos piores momentos da sua história, devido à aluvião que continua gravada na memória dos madeirenses e que deixou um rasto de destruição, provocando quase 50 mortos, quatro desaparecidos, 600 desalojados e 250 feridos.
Os estragos materiais foram avaliados em 1.080 milhões de euros, tendo sido atingida sobretudo a costa sul da ilha, nos concelhos do Funchal, Ribeira Brava, Câmara de Lobos e Santa Cruz.
Nesse mês de fevereiro, durante vários dias, a chuva caiu na ilha da Madeira, mas naquela madrugada quando registou-se uma pluviosidade de 185 litros por metros quadrado no Pico do Areeiro, um dos pontos mais altos da ilha.
A cidade ficou irreconhecível e intransitável, coberta de lama e entulho, e as pessoas tinham de andar por cima de pedras e carros amontoados, o que dificultou as operações de socorro.
Depressão Gong de 2013
Nascida ao largo da Península Labrador, no Canadá, e batizada de "Gong" na Alemanha, esta depressão de origem em "ciclogénese explosiva" varreu Portugal entre os dias 18 e 19 de janeiro de 2013, com ventos na ordem dos 130 km/h.
Para além das árvores derrubadas, estradas cortadas e infraestruturas destruídas, a tempestade afetou mais de um milhão de clientes, e só ao fim de quatro dias a E-Redes conseguiu repor o fornecimento de eletricidade em mais de 99% dos pontos de consumo, refere o semanário. Apesar dos prejuízos avultados e do rasto de destruição, não há registo de vítimas mortais.
Furacão Leslie de 2018
Formado entre 22 e 23 de setembro de 2018, o furacão Leslie, um ciclone tropical atlântico, atingiu Portugal quase um mês depois, em 13 de outubro, já em fase de depressão pós‑tropical. Naquela noite, às 22h40, a estação do IPMA na Figueira da Foz registou uma rajada de 176 km/h, a mais intensa alguma vez medida nas estações da rede meteorológica nacional até à data.
A passagem da tempestade mergulhou o país no caos, provocando dezenas de feridos e várias pessoas desalojadas, enquanto milhares ficaram sem eletricidade em várias regiões. Os prejuízos materiais superaram 120 milhões de euros, afetando habitações, infraestruturas, redes elétricas e áreas agrícolas.
Tempestade subtropical Alpha de 2020
Descrita como um fenómeno único, a tempestade subtropical Alpha, em setembro de 2020, em plena pandemia de Covid-19, foi a primeira da história da Península Ibérica e, consequentemente, de Portugal.
Depois de se formar no Atlântico Norte, a tempestade atingiu Portugal a 18 de setembro, tornando-se o primeiro ciclone subtropical a fazer landfall (quando o centro da tempestade entra em terra) no território continental.
Trouxe ventos fortes, chuva intensa e fortes rajadas, provocando centenas de ocorrências, incluindo quedas de árvores, inundações urbanas e danos em estruturas. Foram confirmados pelo menos dois tornados, em Beja e Palmela, e os prejuízos ultrapassaram os 20 milhões de euros.
Depressão Martinho e Cláudia de 2025
Estas duas tempestades permanecem bem vivas na memória dos portugueses, não apenas por terem ocorrido no ano passado, mas também pelos danos provocados e, num dos casos, pelo número de vítimas mortais.
Descrita como um “autêntico terror”, a depressão Martinho atingiu Portugal em março, originando mais de 8.000 ocorrências, em especial na Região Centro e na Região de Lisboa e Vale do Tejo, dezenas de desalojados e rajadas de vento que chegaram aos 169,2 km/h no Cabo da Roca, muito acima das previsões, que não ultrapassavam os 120 km/h.
Em novembro, quando o país ainda não tinha recuperado dos prejuízos causados pela depressão Martinho e muitos lesados aguardavam ainda indemnizações, Portugal foi novamente atingido pela depressão Cláudia. Pelo menos três pessoas morreram, entre as quais um casal de idosos em Fernão Ferro, depois de a habitação onde viviam ter ficado inundada.
Várias pessoas ficaram desalojadas e foram registadas mais de 1.800 ocorrências em todo o país. A chuva intensa e o vento forte provocaram estragos significativos, levando ainda a milhares de cortes no fornecimento de eletricidade. As cheias afetaram diversas zonas do território, com particular incidência na EN378, em Fernão Ferro, onde vários automóveis ficaram submersos.

