Mundo

O que está a provocar a onda de calor extremo nos Estados Unidos e no Canadá?

Jennifer Gauthier

O fenómeno tem sido identificado com vários nomes - desde onda de calor extremo, anticiclone ou até mesmo cúpula de calor -, mas afinal o que está a causar estas temperaturas tão elevadas?

As altas temperaturas registadas no Canadá nos últimos dias têm batido recordes atrás de recordes. A cidade de Lytton, perto de Vancouver, atingiu os 49,6ºC esta terça-feira, o valor mais alto alguma vez registado no país. Também nos Estados Unidos, as temperaturas ultrapassam os 40ºC em várias zonas.

Afinal o que está a causar estas temperaturas tão elevadas?

O termo científico deste fenómeno meteorológico é anticiclone e ocorre quando existe um abrandamento da corrente de jato – uma corrente de ventos intensos em altitude que separa a massa de ar quente oriunda do Equador da massa de ar frio que vem dos polos e cuja velocidade está relacionada com a diferença de temperatura entre as duas regiões. A ondulação da corrente de jato origina tanto as ondas de calor - quando o ar quente sobe a latitude mais a norte - ou ondas de frio - nas regiões onde a curvatura da corrente permite a descida da massa de ar polar.

Ao analisar o mapa de temperaturas mundial do Climate Reanalyzer, referente ao dia 2 de julho, é possível observar que a separação entre as temperaturas altas (representadas a vermelho) e moderadas (a verde) apresentam alguma ondulação, registando uma curvatura acentuada sobre a região do Canadá. É essa curva que identifica o anticiclone que está a causar a onda de calor extrema.

ClimateReanalyzer.org

No caso dos Estados Unidos e do Canadá, as temperaturas extremas resultam de "uma combinação de situações", explica à SIC Notícias Nuno Lopes, meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Se por um lado, o facto de ser verão no hemisfério norte significa, por si, um aumento de temperatura normal, por outro o anticiclone atua como bloqueador da temperatura e cria um "efeito de forno".

“Quando temos um anticiclone em altitude há tendência a ocorrerem movimentos descendentes. Acaba por haver um aquecimento da própria atmosfera naquele movimento descendente devido ao aumento de pressão", afirma Nuno Lopes. "O ar que é empurrado em direção à superfície, que aquece. Vai apanhar uma superfície que por sua vez também já está aquecida, portanto acaba por ser ali quase um forno", acrescenta.

Se imaginar o modo de funcionamento de um forno, irá ter duas fontes de calor - uma superior e outra inferior - que aumentam sucessivamente a temperatura de um espaço fechado. Na fonte de calor superior irá encontrar a radiação solar que incide diretamente na superfície - uma vez que uma das características do anticiclone é o céu limpo - e a massa de ar quente oriunda dos trópicos que chega a latitudes mais a norte devido à ondulação da corrente de jato.

De baixo vem a temperatura da superfície que é emitida para a atmosfera. Todo esta energia fica presa pela a massa de ar estacionária, criada pelo anticiclone, que atua como um bloqueador que impede a dispersão do calor.

O efeito irá acontecer enquanto o anticiclone se mantiver no mesmo local e quando mais tempo o fenómeno se prolongar, mais elevadas são as temperaturas registadas na região afetada. "Quem está à superfície, sofre a ação tripla", destaca também Ricardo Trigo, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e diretor do Instituto Dom Luís.

“Como a ondulação [da corrente de jato] se vai mantendo durante muitos dias, facilita uma migração progressiva do ar quente de sul e também, como não há nuvens, todas essas regiões estão sob radiação solar muito intensa”, explica ainda o investigador.

O contributo da seca extrema

Os fenómenos extremos não têm só uma justificação, resultam de uma combinação de fatores adversos. Neste caso, há outro fator a ter em conta: a seca extrema que se faz sentir na região dos Estados Unidos há vários meses.

“Toda a zona oeste dos EUA está, há vários meses, em estado de seca que varia entre muito grave e extrema. Esse condicionamento é essencial para favorecer o aparecimento de ondas de calor”, afirma Ricardo Trigo.

O que tem a seca a ver com a onda de calor? Quando o solo está hidratado, o aumento da temperatura atmosférica começa por evaporar água, evitando um aumento drástico da temperatura da superfície terrestre. Uma vez que a região já está em seca elevada e extrema e que não existe água para evaporar, o solo começa a aumentar a temperatura contribuindo para uma maior emissão de calor de volta para a atmosfera.

Ao contrário do fenómeno meteorológico, que acaba por se movimentar ou dissipar ao fim de alguns dias - o anticiclone do Canadá e dos EUA está a movimentar-se em direção a leste e a perder intensidade - “aquela condição de seca não vai mudar numa semana”, alerta o professor, lembrando que estamos a entrar no verão, "não vai chover e o mais provável é que agrave”.

Ricardo Trigo afirma ainda que, segundo os dados referentes aos últimos anos - nos quais está inserida a região da Austrália, que foi severamente atacada por ondas de calor nos últimos anos -, um território em estado de seca tem uma maior probabilidade de ser atingido por ondas de calor.

O efeito das alterações climáticas

Um fenómeno isolado não pode ser associado diretamente às alterações climáticas. No entanto, os especialistas têm vindo a alertar que as ondas de calor extremo vão tornar-se cada vez mais frequentes devido ao aquecimento global. E a razão está, precisamente, na velocidade da corrente de jato.

Nas últimas cinco décadas, o globo, no seu todo, tem registado um aumento desigual de temperatura: "A zona polar – incluindo as zonas continentais do Alasca, norte do Canadá e Sibéria – estão a aquecer a uma taxa muitíssimo superior ao que está a acontecer nas zonas tropicais e equatoriais”, esclarece Ricardo Trigo. “Significa que a diferença de temperatura, tanto à superfície, como em altitude, entre o Equador e os polos – isto é mais acentuado no hemisfério norte – está a esbater-se.”

Aproximando-se a temperatura das duas massas de ar, diminui a velocidade da corrente de jato, tornando-se mais permissiva à ocorrência de meandros e ondulações, podendo até ter impacto na latitude em que a corrente ocorre.

“Estas ondas de calor individualmente não têm nada a ver com as alterações climáticas, mas a frequência com que elas vão ocorrer, sim tem a ver com as alterações climática”, sublinha Alfredo Rocha, professor de Meteorologia e Clima na Universidade de Aveiro e investigador no Centro de Estudos do Ambiente e do Mar.

“Atualmente temos seis, sete dias de onda de calor por ano [em Portugal], vamos passar a ter, no fim do século XXI, entre 60 a 70 dias de onda de calor no verão por ano – é praticamente o verão todo. Aquilo que chamamos hoje uma onda de calor vai ser parte do verão no final do século”, acrescenta tendo por base estudos desenvolvidos para a Península Ibérica.

Também o aumento sucessivo da temperatura média do planeta contribui para que os recordes máximos de temperatura registada sejam cada vez mais elevados. Uma vez que a Terra está mais quente no seu estado normal, quando ocorre uma onda de calor a temperatura irá atingir valores cada vez mais altos.

“Partimos de uma base mais quente, a atmosfera está mais quente do que há 20 anos. E também será espectável que os valores de temperatura sejam um bocado superiores àquilo que seria há uns anos”, afirma ainda Nuno Lopes.

As altas temperaturas têm vindo a bater recordes nos últimos anos, em diferentes pontos do mundo. Em 2019, a Europa foi alvo de duas ondas de calor - uma no fim de junho e outra no fim de julho. Vários países ultrapassaram os seus recordes de temperaturas máximas. Em Lisboa, o recorde de 150 anos foi batido a 2 de agosto 2018, ao tendo registado 44ºC.

Veja mais: