A logística costuma estar ausente das discussões sobre mobilidade sustentável, mas na verdade está no centro das transformações que moldam as cidades. No MobiBoom, Rui Nobre, COO da DPD Portugal, explica como a empresa responde ao aumento do e‑commerce com uma operação mais limpa e eficiente. “Quando nós começámos, a autonomia das carrinhas era 120, 150 quilómetros; agora já há furgões que fazem 300 quilómetros. Isso já nos permite fazer outro tipo de rotas.”
A eletrificação da frota está a avançar rapidamente, com autonomias que já permitem rotas mais longas e um custo total de utilização favorável face ao diesel. Nos pesados, a transição é mais lenta, mas a aposta passa por combustíveis alternativos e big trailers para reduzir emissões.
Mas a grande palavra‑chave, sublinha Nobre, é “consolidação”. Com 2mil pontos de recolha e 'lockers' instalados, a DPD consegue substituir múltiplas entregas porta a porta por uma única deslocação, reduzindo emissões e tráfego. “A palavra‑chave é consolidação. Se um condutor, em vez de 14 entregas, faz uma entrega para 14 encomendas num ponto, percebe‑se logo o que se poupa em emissões e em pressão sobre a cidade”, explica Rui Nobre.
Ao mesmo tempo, soluções como cargo bikes e microhubs continuam a ser testadas, embora enfrentem desafios de custo, espaço urbano e escala. “O recrutamento de bikers não é tão simples quanto parece. Há muita rotação e isso torna a sustentabilidade da operação mais difícil.”
O futuro, porém, vai muito além da mobilidade suave. Rui Nobre acredita que dentro de uma década será comum vermos “cacifos andantes”, robôs autónomos capazes de levar encomendas até à porta dos edifícios e drones a operar em zonas rurais, onde uma entrega pode significar dezenas de quilómetros para uma carrinha. França já tem rotas aéreas ativas e Portugal poderá seguir o exemplo em regiões mais isoladas.
“Temos algumas entregas hoje em dia que são dolorosas para nós, locais que onde nunca íamos, mas que devido a um tipo de imigração que estamos a ter, franceses, belgas, etc., que vão viver no meio de serras algarvias, na Sertã, etc, ir lá fazer uma entrega é doloroso e é caro. Aí é uma situação espetacular para ir entregar um livro da Amazon a um local desses com um dronezinho. É espetacular, pode funcionar muito bem.”
Apesar do avanço tecnológico, há um obstáculo difícil de contornar: o comportamento do consumidor. Todos afirmam querer entregas verdes, mas poucos estão dispostos a pagar por elas, tal como acontece nos serviços de mobilidade. “Para dar um exemplo muito prático, a maior parte da nossa população, quando manda vir um Uber, tem lá a possibilidade do Uber normal, Uber X e Uber Green. O Green é 50 cêntimos mais caro e mandamos sempre vir o mais barato. Está no nosso ADN de consumidor: 'Fiz um grande negócio e comprei o Uber mais barato 50 cêntimos”, assume Rui Nobre.
Esta pressão obriga operadores como a DPD a equilibrar sustentabilidade, eficiência e custos. Ainda assim, Nobre antevê uma operação futura mais eletrificada, automatizada e integrada com as cidades. Um futuro mais limpo e inteligente, com a logística no centro do debate sobre mobilidade.
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A forma como nos movemos define como vivemos. Mobi Boom é um podcast semanal sobre mobilidade, inovação e qualidade de vida nas cidades. Dos carros elétricos aos bairros inteligentes, exploramos as ideias, tecnologias e tendências que estão a transformar a malha urbana e a nossa qualidade de vida. Se acredita em cidades mais verdes, humanas e práticas, este podcast é para si. Novo episódio todos os domingos.
Mobi Boom é um podcast Expresso, com produção Tale House, e a primeira temporada tem o apoio da Kinto.
* A sinopse deste episódio foi criada com o apoio de IA. Saiba mais sobre a aplicação de Inteligência Artificial nas Redações da Impresa
