Orçamento do Estado

"Ainda não estamos livres do chumbo do Orçamento e da crise política”

Opinião

José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão analisam a situação política e económica no país.

O Governo juntou à mesa das negociações o Bloco de Esquerda e o PCP para encontrar uma forma de viabilizar o Orçamento do Estado para 2022. Mas a negociação não está fácil e a hipótese de vir uma crise política ainda não está descartada. José Gomes Ferreira e Bernardo Ferrão, diretores-adjuntos de informação, analisam a situação política e económica.

“Eu acho que é difícil cada uma das três partes que está na mesa das negociações – Bloco de Esquerda, PCP e Governo – cederem. BE e PCP mostraram aos seus eleitorados que são intransigentes e que querem lutar por aquelas causas, portanto é difícil ceder no sentido de não reivindicar mais e mais, o que pode extremar a corda e acho que ainda não estamos livres do chumbo do orçamento e da crise política."

O jornalista lembra ainda que as linhas vermelhas para o OE 2022 não são apenas impostas pelo Governo, mas também por Bruxelas, referindo-se ao “rácio de dívida em relação ao PIB, ao nível do défice público do OE 2022 que é muito importante para 2023 onde já terá de haver cumprimento de regras orçamentais”.

Para Bernardo Ferrão, a dificuldade para encontrar uma solução está relacionada com uma decisão dos comunistas de apresentar algo ao eleitorado ou, por outro lado, romper a ligação com o PS. Considera que apesar do “teatro” e da “encenação”, a atitude do PCP “é diferente”.

“Acho que pode haver aqui uma tentação quer do PCP – embora o PCP o negue – quer do próprio primeiro-ministro para partirem para eleições antecipadas. Sendo que há aqui dois cenários, que têm pontos positivos e negativos: uma ida para eleições antecipadas pode dar alguma clarificação, António Costa, caso o Governo caia, pode dramatizar, as esquerdas podem perder força mas reorganizam-se como partidos de protesto”, explica.

Para o PSD, Bernardo Ferrão considera que o “cenário ideal” é que haja um acordo para viabilizar o OE 2022. Ao conseguir um acordo com o PCP – “que provavelmente será o último acordo que António Costa consegue com o PCP” – dá tempo ao PSD para se reorganizar.

“Dá tempo não só para o PSD se reorganizar com um novo líder ou com Rui Rio, como dá tempo para capitalizar todo esse descontentamento que se vai sentir muito nas ruas e com o Governo em permanente desgaste”, afirma.

José Gomes Ferreira considera que uma crise política nesta altura poderá ser “clarificadora”, mas acarreta também riscos para o país.

“Haver crise, eu acho que é bom, é clarificador. Mas também pode ser muito complicado para o país. Estamos numa conjuntura em que a inflação é muito elevada na Europa e nos EUA, os bancos centrais da Europa e EUA planeiam reduzir compra de dívida pública e eventualmente aumentar os juros, os mercados podem, de repente, olhar para nós e dizer que nesta conjuntura de mudança de política dos bancos centrais, nós portugueses não vamos aguentar pagar a dívida e começam a especular. Esse risco eu tenho receios dele.”

► A crise dos combustíveis e o limite das margens de lucro

José Gomes Ferreira analisou também a crise dos combustíveis e o impacto da promulgação da lei que limita os lucros das gasolineiras. Para o diretor-adjunto da SIC Notícias reforça que era preciso fazer algo.

“Se o governo decidir nas margens que estão agora em vigor que são 18, 19, 20 cêntimos cortar 4 ou 5 cêntimos já é significativo”, afirma, sublinhando que “este diploma tem de prever fiscalização e ao prever fiscalização terá de implicar descidas de acordo com a evolução do mercado. Porque se as cotações continuarem a subir muito, a descida não é uma descida, é uma subida menos acentuada. Mas se estabilizar a cotação do crude, terá de haver mesmo descidas.”

Sobre a possibilidade de Portugal se juntar à União Europeia (UE) para comprar combustível, José Gomes Ferreira reconhece que pode ser uma boa ideia.

“A ideia da compra conjunta com a UE pode funcionar para o crude, para o refinado é mais complicado porque cada país tem a sua refinação. Para o crude, abastecimento em conjunto, como com as vacinas, acho que é uma boa ideia”, afirma.

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