Vacinar Portugal

Os dias de luta e de glória de Gouveia e Melo ao leme da task force

PEDRO NUNES

A missão que lhe valeu o reconhecimento nacional está terminada: o vice-almirante Gouveia e Melo deixa o cargo meio ano depois de ter assumido a coordenação da task force.

Foi no dia 3 de fevereiro que chegou a notícia que Gouveia e Melo seria o novo coordenador do plano de vacinação depois da saída de Francisco Ramos, que renunciou ao cargo. O militar já fazia parte da equipa de coordenação do plano de vacinação contra a covid-19, como representante do Ministério da Defesa Nacional.

"Fui convidado para coordenar a task force.
- E aceitou?
Claro que sim. Portugal precisa que todos nós façamos os nossos esforços, não é?"

Globalmente, a notícia foi bem recebida. O então Presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, Ricardo Mexia, compreendia a escolha do vice-almirante, enquanto o Major General Raúl Cunha explicava que os militares eram mais "imunes a pressões políticas e a cunhas”.

A primeira promessa de Gouveia e Melo

Cinco dias após assumir o comando do plano de vacinação, Gouveia e Melo deixava uma promessa: até ao final do ano toda a população portuguesa estaria vacinada, com 70% das pessoas imunizadas no início de setembro. O compromisso foi honrado. Portugal conseguiu ter 70% da poulação vacinada em agosto e está agora prestes a atingir os 85% da população com duas doses da vacina.

Ao seu lado teve um Estado-Maior da Força de Reação Imediata (FRI), com 20 militares dos três ramos das Forças Armadas, a auxiliar o coordenador da vacinação anti-covid-19. Inicialmente, Gouveia e Melo focou-se em tornar o processo de vacinação mais rápido e eficiente, com a mudança do esquema de vacinação que estava muito centrado nos grupos prioritários.

"Andamos a focar a atenção no grupinho A, depois no grupinho B, e o grupinho A não pode avançar antes do grupinho B, o grupinho B não pode avançar antes do grupinho C. Organizar um processo assim, com 9 milhões de vacinas a chegar em 3 meses, vamos ficar com as vacinas armazenadas"

Centros de vacinação, vacinação indevida e as longas filas

Em março, Gouveia e Melo garantia que dentro de um mês se estariam a vacinar cerca de 100 mil pessoas por dia e que, em maio, iam abrir 162 centros de vacinação, que permitiam tornar o processo quatro vezes mais eficiente mas não isento de falhas. Ao longo de vários meses houve desperdício de vacinas e problemas no circuito de refrigeração.

Em junho, com a vacinação a bom ritmo e com o início da Casa Aberta, Gouveia e Melo foi homenageado pela Ordem dos Médicos durante um Congresso Nacional pela sua liderança e visão. Ainda durante esse mês, começou a sentir-se alguma pressão devido à entrega de vacinas.

"Estamos a vacinar o máximo que podemos", disse o líder da task force, fazendo depender o aumento do ritmo de vacinação das doses que iam chegando a Portugal.

As queixas de irregularidades no processo de vacinação foram recorrentes. Já no final do mês, depois de ter tomado conhecimento de jovens de 18 anos vacinados no Porto quando só estavam a ser imunizados os maiores de 35 anos, a task force fez uma participação à Polícia Judiciária. Gouveia e Melo exigiu consequências.

Aos longas filas de espera nos centros de vacinação foram preocupando o coordenador da task force. O vice-almirante deslocou-se a vários centros para perceber o que estava na origem da situação.

Em julho, Gouveia e Melo pedia à DGS para encurtar o intervalo entre as duas doses da vacina, de forma a manter o ritmo de vacinação. Com a vacinação dos jovens, a task force foi acusada de ter sido pressionada pelo Governo. Sem grande tempo para polémicas, Gouveia e Melo respondeu: "A autoridade técnica não é pressionável", afirmou.

Luta contra os negacionistas

Foi em meados de agosto que aconteceu o inevitável. Os negacionistas, que há muito melindravam o processo de vacinação, cruzaram-se com o vice-almirante e insultaram-no. "Assassino", ouviu-se à porta do centro de vacinação de Odivelas.

"Negacionismo e obscurantismo é que são os verdadeiros assassinos", respondeu Gouveia e Melo depois de ter passado pelo meio do protesto ruidoso.

Foi condecorado pela sua carreira militar pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a 19 de agosto, condecorado com medalha de excelência pela Câmara da Guarda e homenageado por Eduardo Ferro Rodrigues.

Um dos pontos altos como coordenador da task force foi o aplauso que recebeu à entrada do centro de vacinação de Alcabideche, onde estavam centenas de jovens a ser vacinados. Comovido, disse: “Aquele aplauso tirou-me sete meses de cansaço”.

A missão foi cumprida e agora chegou a altura do vice-almirante se despedir do cargo. Ao longo de cerca de sete meses, foi responsável pela gestão e distribuição das vacinas, numa campanha assombrada pela ação, ainda que pontual, de negacionistas, e pelas falhas nos centros de vacinação.

Já lhe perguntaram se ponderaria concorrer a Presidente da República, mas o vice-almirante considera que seria um péssimo político, para além de quer "morrer militar".

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