Esquecidos

Cidades de Tigré cheias de pessoas em fuga e a precisarem de ajuda

Igor Barbero

Dezenas de milhares de pessoas deslocadas pela violência chegaram, ao longo de março, a cidades de Tigré, no Norte da Etiópia, em busca de um refúgio seguro na região que se encontra imersa em conflito. Juntaram-se a outras pessoas que tinham chegado antes e se instalaram em escolas e edifícios vazios, em condições precárias e sem serviços básicos. Muitas já foram deslocadas múltiplas vezes desde novembro passado.

O topo do edifício de cinco andares da escola Tsegay Berhe, na cidade de Adwa, está aberto ao céu azul e sem nuvens. Nos primeiros dias do conflito nesta região do Norte da Etiópia, o prédio foi atingido por uma série de rockets.

Duas das salas de aula estão atulhadas com os restos de computadores, monitores, cadeiras e livros destruídos. As outras salas não foram atingidas, mas muitos dos bancos de madeira estão agora empilhados aos cantos ou foram levados para o exterior, e escritos de giz de aulas passadas ainda são visíveis nos quadros de ardósia.

Igor Barbero

Junto ao portão da escola há muita atividade e centenas de vozes criam uma parede de ruído. Um grupo de administradores está atarefado a registar nomes em cadernos, mas estes não são nomes de alunos. A escola está fechada até nova indicação.

Atualmente, as escolas primárias e secundárias em vilas e cidades por toda a região de Tigré, como em Adwa, Axum e em Shire, são o epicentro de uma deslocação maciça de pessoas, a chegar às centenas de milhares – embora ninguém saiba o número exato.

Em março, esta crise tomou uma dimensão desesperada, com dezenas de milhares de pessoas a chegarem às cidades em busca de segurança e de assistência humanitária, conforme os recursos se foram esgotando noutras comunidades anfitriãs e em zonas rurais mais remotas.

Deslocações ininterruptas

Ken Alew Gebrekristos, um soldador de metal, de 38 anos, oriundo da vila de Edaga Arbi, na zona central de Tigré, a uns 50 quilómetros para sudeste de Adwa, chegou na segunda semana de março. Durante o dia, a mulher de Ken e os dois filhos mais velhos do casal vão até ao centro de Adwa em busca de ajuda humanitária, enquanto ele fica na escola, sempre atento a qualquer nova informação que possa melhorar a situação em que a família se encontra. “Até agora foi-nos dado algum injera [pão achatado] e t-shirts”, conta. À noite dormem no chão duro de uma das salas de aula.

Adwa é só o ponto de chegada mais recente para esta família de seis pessoas. Nos primeiros dias da crise, viram a vila natal encher-se de pessoas em fuga da violência noutros locais e, depois, viram-na ser atacada por soldados da Eritreia.

Em novembro passado, a família de Ken teve de fugir para os montes, levando nada mais do que a roupa que tinham no corpo e com as crianças mais pequenas aos ombros. No caminho, passaram pelos corpos de mortos caídos por terra. Continuaram a andar, pedindo abrigo e comida a habitantes locais que foram encontrando na jornada.

“Fomos bebendo água do rio. Em alguns dias não comemos nada. Uma jovem que seguia caminho connosco teve o bebé sem médico nenhum por perto. Só tínhamos um lençol para lhe oferecer, por isso fizemos uma fogueira para o bebé se aquecer”, recorda.

A família de Ken tentou regressar a casa, entretanto destruída, mas o sentimento de insegurança dissuadiu-os de ali permanecerem por muito tempo.

Com lágrimas nos olhos e a voz a falhar, Ken desabafou: “Agora, não tenho quaisquer planos, nenhuma ideia sobre o que o futuro próximo nos reserva. Não posso voltar para casa – como poderia regressar sem garantias? Sinto-me mais seguro aqui rodeado de outras pessoas.”

Dormir no chão

Quem mais se vê nas escolas de Adwa são as mulheres. Muitas têm os bebés enrolados em panos compridos nas costas, algumas estão ajoelhadas no chão a torrar grãos de café, outras ainda carregam feixes de lenha. Alguns grupos de homens conversam acaloradamente e jovens dormem à sombra de pequenas árvores, resguardando-se do sol escaldante da estação seca.

As divisões nas escolas têm muito poucos móveis. Na maioria há apenas alguns baldes, alguns sacos com comida e plásticos a revestir o pavimento onde as pessoas dormem. Quando chega a noite, enchem-se de dezenas de pessoas, deitadas no chão juntas umas às outras. As menos afortunadas dormem no exterior, ao relento, sobre a relva ou nos carreiros.

O tempo parece ter parado. Ninguém sabe quanto tempo terá de ali ficar. Ninguém estava verdadeiramente à espera que isto acontecesse. Mesmo quem se recorda da guerra de fronteira entre a Etiópia e a Eritreia, que teve auge pelos finais da década de 1990, não a consegue comparar com o que se está a passar agora na Etiópia.

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A uns 30 minutos de viagem de carro desde Adwa fica a histórica cidade universitária de Axum. Nos arredores, rodeada de campos e de zonas de construção em indefenida suspensão, situa-se a escola de Basin, o primeiro destino para muitas das pessoas recém-chegadas à cidade desde que o conflito começou.

Quem ali se instalou conta que o movimento de pessoas é constante, mas que o afluxo se intensificou desde o início de março. Há atualmente 12 locais em Axum que, juntos, acolhem vários milhares de deslocados.

“Estou aqui já há 42 dias”, conta Bayesh Danyo, de 25 anos e mãe de duas crianças pequenas, incluindo um bebé de dez meses. Como muitas outras mulheres em Basin, Bayesh não sabe do paradeiro do marido e não tem contacto com ele há alguns meses. Alguns ter-se-ão muito provavelmente refugiado no vizinho Sudão.

Bayesh Danyo recebeu alguma ajuda alimentar, mas está preocupada porque as provisões de que dispõe estão a acabar-se.

“No início, recebi cinco litros de óleo alimentar, 30 quilos de farinha e 50 quilos de trigo. E tudo isto está quase a acabar. As poucas distribuições de alimentos feitas nem sempre são justas. Tento partilhar o que tenho com outras pessoas recém-chegadas, especialmente as grávidas.”

E a pouca água fornecida, junta Bayesh, é usada para beber, com as crianças sempre a terem prioridade. “Ainda não tivemos verdadeiramente hipótese de nos lavarmos desde que aqui chegámos”, explica ainda. “E o meu bebé fica doente por causa das condições difíceis em que dormimos.”

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Ter de fugir da zona ocidental de Tigré

Bayesh Danyo chegou a Axum vinda de Humera, uma vila na zona ocidental de Tigré que se situa na junção da Etiópia com a Eritreia e o Sudão. Muitas das pessoas deslocadas que estão agora nas zonas oriental e central de Tigré são oriundas da área ocidental. Habitantes de vilas como Humera, Dansha e Mai Kadra reportam terem sido pressionados por milícias e grupos armados a partir das suas localidades e, em alguns casos, enfiados à força em autocarros que os deixaram no extremo oposto do rio Tekeze.

Outros contam que foram alvo ou que testemunharam violência de diversos tipos, o que tornou a decisão de partir inevitável. Apesar de as rotas das deslocações populacionais variarem e rumarem em múltiplas direções, dependendo dos laços familiares e da capacidade que as pessoas têm de pagar transportes, Shire é frequentemente a primeira grande cidade a que chegam as pessoas em fuga da zona ocidental de Tigré. Mas Shire tem já um muito elevado número de deslocados e está a tornar-se cada vez mais apinhada, pelo que muitas pessoas estão a optar por continuar as suas jornadas mais além.

Acampamentos informais sem serviços básicos

“Temos vindo a testemunhar movimentos de pessoas deslocadas a ocorrerem desde o início desta crise, mas não em tão elevado número como agora, e quem tinha de partir das suas casas era amiúde apoiado pelas comunidades anfitriãs, abrigando-se nas casas de familiares ou de pessoas que conheciam e com as quais partilhavam os recursos existentes”, descreve a coordenadora de emergências da MSF em Tigré, Esperanza Santos.

“Recentemente isso mudou e agora vemos um maior afluxo de pessoas, especialmente em Shire, Adwa e em Axum”, especifica. “A maioria está a instalar-se em locais informais que não têm capacidade para acolher este número de pessoas e onde não existem os serviços necessários para elas. É uma situação extremamente preocupante porque não estamos a observar uma resposta adequada por parte da comunidade humanitária que dê solução às necessidades que as pessoas têm de água, de saneamento, de alimentos ou de serviços médicos.”

As pessoas deslocados pelo conflito estão a chegar também a cidades mais pequenas como Abi Adi, que fica a duas horas de carro a oeste de Mekele, a capital de Tigré, e se localiza numa área onde os combates têm sido frequentes e alguns locais estão sob o controlo da oposição armada.

Igor Barbero

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Woku, de 22 anos, tinha uma pequena loja de roupa em Shire e chegou a Abi Adi no dia 1 de março. Em novembro passado andou de uma área para outra por toda a região ocidental de Tigré, mas, sendo um homem jovem, sentiu não estar em segurança e decidiu contactar um familiar distante que vivia numa aldeia próxima de Abi Adi. Ouvira dizer também que ali havia ajuda humanitária.

“Acabei por vir para Abi Adi porque aqui há uma maior presença de organizações humanitárias”, explica. “Nestes últimos meses, tive de andar a pedir ajuda aos habitantes locais. Na melhor das hipóteses conseguia um injera por dia. Eu preciso de comida, de roupas, de água, de abrigo... Em todos os locais por onde andei dormi no chão. Ainda estou bem de saúde, mas já vi outras pessoas ficarem doentes pelo caminho e morrerem.”

Sentada por perto está Leterbrahn, uma mulher jovem que partiu de Humera há quatro meses e agora partilha uma divisão de oito metros quadrados na escola primária de Abi Adi com outras quase 20 pessoas, incluindo as duas filhas pequenas. Leterbrahn conta que perdeu praticamente tudo o que tinha.

“Tenho apenas estas roupas. Nem sequer posso cozinhar para mim mesma porque não tenho nenhuns utensílios. Não tenho nem um cobertor. A certa altura foram-me dados quatro lençóis por moradores locais, mas dei-os a mulheres que estavam grávidas. Sentimo-nos esquecidos pela comunidade internacional e pelo Governo da Etiópia. Ninguém nos procura para nos ajudar. Mesmo ao fim de todo este tempo, não temos nada.”

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As equipas da MSF estão a reablitar uma série de estruturas de saúde em toda a região de Tigré e a aprovisioná-las com medicamentos e outros materiais médicos, assim como a prestar apoio médico em serviços de urgência, alas de maternidade e departamentos ambulatórios.

A organização médica-humanitária está também a gerir clínicas móveis em vilas rurais e em aldeias onde o sistema de saúde não está a funcionar, e em locais informais de abrigo onde as pessoas deslocadas se têm vindo a instalar.

Porém, há ainda zonas rurais em Tigré onde nem a MSF nem nenhuma outra organização conseguiram chegar. E a MSF pode apenas assumir que as pessoas que vivem nestas áreas estão igualmente sem acesso a cuidados de saúde. Em resposta à nova e volumosa vaga de pessoas deslocadas internamente, a MSF está também a concentrar esforços no fornecimento de água e saneamento em algumas das principais vilas e cidades.

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