Coronavírus

O que precisa de saber sobre o processo de distribuição da vacina contra a Covid-19

Dado Ruvic

O desafio logístico de fazer chegar as vacinas em segurança.

Especial Coronavírus

Com empresas farmacêuticas a anunciarem dados provisórios, mas promissores sobre a última fase dos ensaios clínicos de vacinas contra a covid-19, os países começam a pensar nos desafios logísticos associados à distribuição.

Como é que milhões de doses de vacinas podem ser transportadas de forma rápida e em segurança quando finamente estiverem prontas? O setor logístico está a preparar-se, como consegue, numa fase em que ainda há várias incógnitas.

Quantas vacinas serão necessárias?

De acordo com a Federação Internacional da Indústria Farmacêutica (IFPMA), a previsão é de que sejam produzidas entre 12 e 15 mil milhões de doses em todo o mundo.

Será insuficiente, no entanto, para chegar a toda a população mundial antes de 2023 ou 2024, estima a Duke University, da Carolina do Norte nos Estados Unidos, que monitoriza o mercado emergente de cerca de 200 vacinas candidatas.

Todas as vacinas serão transportadas da mesma forma?

Em termos de condições de conservação, os laboratórios estão a preparar dois tipos de vacinas: algumas, como aquela que está a ser desenvolvida pela Pfizer e a BioNTech, vão exigir temperaturas de armazenamento muito baixas, até -80°C, enquanto outras poderão ser armazenadas em temperaturas mais convencionais, entre 2°C a 8°C.

O primeiro tipo, que será particularmente difícil de transportar, deverá representar até 30% das doses que serão distribuídas no mundo, estima Mathieu Friedberg, diretor-executivo da empresa de logística Ceva, citado pela agência francesa AFP.

Para as restantes, do segundo tipo, será sempre necessária uma logística específica. "Continua a ser [uma logística] farmacêutica e, portanto, é sensível, mas menos técnica do que -80°C", explica Mathieu Friedberg.

Vão ser transportadas de avião?

O diretor-executivo da Ceva acredita que cerca de metade das vacinas deverá implicar uma logística que combine recursos aéreos e terrestres, mas tudo depende das distâncias e da urgência do transporte.

Como será organizado o transporte aéreo?

"Será sempre necessário algum tipo de transporte aéreo", disse o responsável pela frota da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA), afirmando que o transporte de uma única dose para cada habitante do planeta encheria o equivalente a 8.000 aviões de carga de grande porte.

Fazendo as contas para a frota da Air France, por exemplo, os 99 aviões de passageiros de longo curso podem transportar, cada um, mais de 400 mil doses no porão e cada um dos dois Boeing 777 leva mais de um milhão de doses.

"Os voos de passageiros com capacidade de porão devem ser aumentados", defende o diretor-executivo da IATA, Alexandre de Juniac, para quem "as fronteiras devem ser abertas para permitir a distribuição".

A queda do tráfego aéreo internacional, devido à pandemia da covid-19, limitou a oferta, uma vez que 60% da carga é transportada nos porões dos aviões de passageiros e, por isso, a capacidade atual da frota aérea é insuficiente para responder à procura.

Como se estão a organizar as transportadoras?

Em Portugal, como noutros países, foram constituídos grupos de trabalho, as chamadas 'task-forces' a todos os níveis, seja ao nível do Estado, dos setores e das próprias empresas.

A acreditação das empresas transportadoras para a distribuição das vacinas cabe aos próprios laboratórios.

"Uma instituição ou autoridade sanitária de um país trabalha com um laboratório, o laboratório certifica sua cadeia logística, cabendo-lhe trabalhar com seus subcontratados para que essa cadeia logística respeite todos os critérios", resume Mathieu Friedberg, da Ceva.

AVANÇOS NAS VACINAS E TRATAMENTO CONTRA A COVID-19

Este mês de novembro tem tido várias boas notícias sobre os avanços no desenvolvimento de uma vacina contra o SARS-CoV-2 bem como um tratamento novo.

► As farmacêuticas Pfizer e BioNTech anunciaram na segunda semana de novembro que a sua vacina BNT162b2 contra a Covid-19 alcançou 90% de eficácia nos testes. Uma semana depois anunciaram ter concluído os testes com 95% de eficácia. A 19 de novembro o responsável da BioNtech revelou a possibilidade de a vacina poder começar a ser administrada antes do Natal e anunciaram que, no dia seguinte apresentam um pedido de emergência para aprovação junto da FDA.

► A vacina que está a ser desenvolvida pela universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca - ChAdOx1 nCoV-19- demonstrou ser segura e provocar uma resposta imunitária em pessoas mais idosas na fase 2 do ensaio clínico. Os resultados finais vão ser apresentados "antes do Natal", assegurou o líder da investigação.

Esta vacina já sofreu entretanto dois revezes: a 23 de novembro foi noticiado que a eficácia de 90% obtida devido a erro na dosagem e, a 26 de novembro, soube-se que um erro no fabrico da vacina da AstraZeneca põe em causa eficácia

► O porta-voz do ministro da Saúde da Rússia veio assegurar que a vacina que está a ser desenvolvida no país - a Sputnik V - tem uma taxa de eficácia superior a 90% e no dia seguinte Putin garantiu que "todas as vacinas russas contra a Covid-19 são eficazes" A 24 de novembro a Rússia anuncia eficácia de 95% da vacina Sputnik V contra a covid-19

► A vice-Presidente russa anunciou que os testes clínicos da segunda vacina russa contra a Covid-19, a EpiVacCorona que está a ser desenvolvida pelo Instituto Vector, começam a 15 de novembro,

► O ensaio clínico da potencial vacina CoronaVac da chinesa Sinovac chegou a ser suspenso no Brasil devido a "efeito adverso grave.", embora a empresa chinesa reafirme a confiança no produto, indicando que o efeito secundário não está relacionado com a vacina. Os testes foram retomados no dia 11.

► A 16 de novembro a farmacêutica Moderna revelou que a sua vacina experimental tem uma eficácia de 94,5%.

► A agência norte-americana do medicamento (FDA) deu uma autorização de utilização de emergência e temporária de um medicamento experimental para a Covid-19 fabricado pela Eli Lilly, mas apenas para doentes com sintomas ligeiros ou moderados e não para hospitalizados a necessitar de oxigénio.

Este tratamento experimental com anticorpos sintéticos é o primeiro especificamente desenvolvido para o novo coronavírus.

► A 21 de Novembro a FDA concedeu a autorização de emergência à empresa de biotecnologia Regeneron para a utilização no país do tratamento com anticorpos monoclonais que o Presidente dos EUA recebeu em outubro contra a covid-19