Desafios da Mente

"Quando caí nas mãos deste homem, estava completamente desesperada"

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Catarina e Sara conheceram-se através das redes sociais. Durante mais de um ano, Sara manteve contacto com o Tiago, com quem estava prestes a assumir uma relação. O que ela não sabia é que Tiago estava casado há mais de seis anos com Catarina.

Foi a própria Catarina que descobriu a existência de Sara e que a encontrou no Facebook. De acordo com ambas, a conversa foi calma. Quase como se estivessem a falar de um assunto trivial e não sobre as mentiras, manipulações e atitudes de Tiago.

Catarina não sabia o que o marido era. Pensava apenas que Tiago era agressivo e um mulherengo com "gostos sexuais estranhos". Sara, que em tempos já tinha conhecido alguém a nível profissional com os mesmos traços, ajudou Catarina a perceber que estavam perante alguém com características de psicopata.

A relação não terminou e Catarina continua com Tiago. O medo impede-a de separar-se. O medo que fez com que tivesse de desligar o telemóvel a meio da entrevista porque Tiago estava à sua procura.

Na entrevista, Catarina e Sara relataram os últimos anos ao lado de Tiago.

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Tiago e Catarina conheceram-se em 2012, nas redes sociais, numa altura em que se sentia "muito sozinha". Não estava com nenhum homem desde 2005, ano em que se separou do primeiro marido, que "bebia muito" e a agredia.

Confessa que, quando conheceu o Tiago, estava carente e farta de estar sozinha. "Devia estar a usar os óculos cor de rosa, não via nada." Era atencioso, simpático e "um cavalheiro". As coisas estavam bem e considerava-se uma mulher feliz.

"Quando caí nas mãos deste homem, estava completamente desesperada." Confessa que não teve tempo de ver a pessoa que ele realmente era.

Ao fim de um ano, casaram-se e as coisas começaram a mudar. Tiago começou a tentar dominá-la sexualmente. Queria levá-la a conhecer outros casais para terem sexo em grupo. Levou-a um bar de swing. "Claro que não gostei. Chame-me antiquada, mas nunca iria conseguir fazer isso."

As recusas de Catarina levaram-no a o tornar-se "o diabo em pessoa". As agressões verbais começaram. "És uma antiquada. Não vales nada", dizia-lhe.

"Fez-me a vida negra. Era um verdadeiro terror."

Os castigos eram uma realidade. "Quando não sou bem-comportada, castiga-me." Tira-lhe o dinheiro ou recusa-se a fazer coisas por ela.

E as agressões físicas também aconteceram. Duas vezes. No início do casamento, Tiago deu-lhe uma chapada, deixando-a "chocada". O pedido de desculpas veio logo a seguir, o que deixou Catarina sem saber o que fazer. Vinha de um casamento agressivo e, por isso, sabia bem o que era a violência doméstica. Mas Tiago pediu-lhe desculpas e isso fez com que não apresentasse queixa na polícia.

Na segunda vez, dirigiu-se à GNR para apresentar queixa. Estavam na cozinha, prestes a começar o jantar, quando Tiago, lhe deu um empurrão e cuspiu-lhe na cara. "Isso foi a gota de água. Levei muito a mal. Fiquei muito triste e enojada."

Perante a agressão, apresentou queixa na polícia. Confessa que se tivesse sido hoje não o faria. "Esses dias para mim foram infernais." Tiago foi chamado a depor e tornou-se ainda mais agressivo. Tão agressivo que Catarina teve de retirar a queixa.

"Ainda hoje me diz que nunca me vai perdoar na vida."

Desde então, nunca mais lhe bateu. Catarina protege-se com uma frase: "Atenção que a GNR ainda está no mesmo sítio."

"Ele parece uma santidade, quando está com a minha família. Perante as outras pessoas, ele não parte um prato. É uma pessoa que sabe estar. É muito simpático, muito atencioso, carinhoso e fala baixinho."

O problema é quando estão sozinhos. A personalidade muda e, de repente, "fica um furacão".

Catarina tem medo de Tiago, especialmente quando os "olhos dele ficam diferentes."

"Metem medo. A expressão dos olhos muda. Eu olho para os olhos dele e fico em choque."

Quando os olhos dele mudam, tenta amenizar a situação. "Ele não é normal."

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Tiago vive da reforma, depois de ter parado de trabalhar aos 50 anos. Catarina tem uma loja que, durante a pandemia de covid-19, deixou de lucrar.

O dinheiro entre o casal é "partilhado". Tiago tem uma conta bancária com o dinheiro de ambos e, daí, retira 300 euros todos os meses para entregar à Catarina, que servem não só para as suas necessidades, mas também para a comida que entra em casa.

"Estou proibida de mexer na conta bancária, eu não tenho dinheiro sequer. Ele dá-me 300 euros por mês e eu tenho de me governar o mês todo com esse dinheiro."

Até à pandemia de covid-19, conseguia fazer a sua vida com os 300 euros e o dinheiro que vinha do seu trabalho. "Neste momento, com a crise, não consigo viver sem a ajuda dele.

"Tenho de me submeter e tenho de ser o tapete dele."

Catarina acredita que só se casaram porque Tiago está interessado no património que os pais dela têm. Quando se casaram, Tiago disse-lhe para vender a loja: "Essa porcaria não dá nada. Vende o teu negócio". Uma amiga disse-lhe que o Tiago só estava com ela por causa do dinheiro que podia vir da venda da loja e do património dos pais. Ela não acreditou na altura e nunca mais falou com a amiga.

Tiago obrigou-a a vender o seu carro para comprar um para ele. E tem planos nos para o futuro: um carro novo e uma autocaravana "para passear pelo país".

"Ele é uma pessoa que procura alguém na qual se possa encostar", confessa, dizendo que o marido gasta muito dinheiro, o que tem e o que não tem.

Catarina revela que Tiago pede créditos e está a dever quase 6 mil euros. Numa das cartas que conseguiu ler, descobriu os créditos que o marido tinha.

Quando questionada sobre o destino do dinheiro, responde: mulheres e homens.

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Três anos depois de se casarem, Catarina começou a duvidar da pessoa que era Tiago. Reparou num número de telefone que estava sempre a ligar para casa. Numa das vezes, conseguiu atender e era uma mulher. Questionou-a e percebeu que era uma mulher com quem Tiago estava envolvido sexualmente.

"Fiquei chocada", não só por descobrir que o marido tinha uma amante, mas também por essa amante ser 20 anos mais velha. "Pensei, 'Este homem só pode ter uma tara'. Qualquer coisa que não consegui identificar."

Confrontou-o com a situação. Com medo de possíveis doenças, exigiu que fizesse análises e lhe mostrasse que estava tudo bem. Tiago recusou e, desde então, nunca mais dormiram juntos.

Nesta altura, Catarina começou a duvidar ainda mais dele.

"Tinha um comportamento tão estranho. Era mau."

Foi à procura de respostas e, em 2017, começou a encontrar. Tiago mantinha vários telemóveis diferentes, que usava para marcar encontros não só com mulheres, mas também com homens.

Foi encontrando mensagens e imagens. Descobriu que Tiago mantinha relações sexuais com diferentes pessoas. Marcava encontros. Organizava orgias. Tinha perfis em plataformas de encontros. Num dos muitos telemóveis, tinha um contacto com o nome de "Amor". Catarina ligou. Era um homem.

Numa das mensagens que leu, descobriu Sara. Procurou-a no Facebook e encontrou-a. Perguntou-lhe de onde conhecia o seu marido e recebeu a resposta: "Não o conheço". Mas Sara conhecia, só não sabia que Tiago era casado com Catarina.

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Sara ficou "extremamente surpreendida" quando foi confrontada com as mensagens de Catarina. Na mesma altura, também estava a receber mensagens de Tiago, que a alertavam que a "ex-mulher" podia vir a contactá-la. Disse-lhe que estava a tentar prejudicá-lo.

Sara foi confrontada com duas realidades diferentes. Por um lado, tinha o homem que já conhecia há mais de um ano e com quem ia assumir um relacionamento amoroso. Por outro, tinha uma mulher que dizia estar casada com o Tiago.

Conheceu Tiago nas redes sociais. Disse-lhe que era do Seixal, mas que estava a viver em Leiria. Foi vê-la a Lisboa e, desde então, trocavam mensagens e falavam por chamada. Durante o primeiro confinamento, afastaram-se, mas voltaram a entrar em contacto.

Tiago veio com "uma grande conversa" e que ia a Lisboa para "acertar as coisas". Queria assumir a relação com a Sara.

"Dizia que me amava. Que tinha tentado esquecer-me, mas não tinha conseguido."

Nas conversas que mantinha, Tiago falava-lhe dos filhos, com quem dizia ter uma boa relação. "Às vezes, ligava-me e, de repente, dizia que tinha de desligar porque o Francisco estava a chegar". De acordo com Sara, Francisco era o filho com quem falava mais. Mas nada disso era verdade. Catarina confessa que o marido não mantém qualquer tipo de contacto com os filhos.

Sara foi à procura de respostas e confirmou que quem estava a mentir era Tiago.

"Algo me dizia que havia coisas que não batiam certo. Porque ele parecia não ter aquela disponibilidade toda que, supostamente, um homem que está sozinho tem. O meu instinto dizia-me que havia alguma coisa que não batia certo."

Sem lhe dizer nada, começou a tentar apanhá-lo nas suas próprias mentiras. "Ele mentia de uma forma que nunca tinha visto antes. Nunca." Dizia-lhe que estava com as filhas. Era mentira. Dizia-lhe que ia ver futebol. Era mentira. Dizia-lhe que que Catarina era a ex-mulher. É mentira.

"Fiquei extremamente chocada com a pessoa que ele é. Porque ele era uma pessoa, aparentemente, muito educada, muito cavalheiro, que tratava muito bem da sua saúde, um bom pai."

Não o confrontou logo, porque a Catarina tinha medo da sua reação. "Apercebi-me que a Catarina era uma vítima e fiz tudo ao meu alcance para não a prejudicar." Quando o confrontou, Catarina sabia e estava preparada.

"Estou apaixonado por ti"

Sara mentiu e disse que tinha encontrado o Facebook de Catarina, onde tinha descoberto imagens do casal. Perguntou-lhe se era casado. "Não tenho casamento nenhum, isto já acabou. Estou apaixonado por ti", foi a resposta.

Quando lhe perguntou o porquê de não se separar, Tiago disse que não podia: "porque ela fica-me com a casa". E, a partir daí, começou a falar mal de Catarina. "Ela não é aquilo que tu pensas e tenho provas que ela tem problemas psiquiátricos."

Mas Sara já tinha percebido o que Tiago era.

"A conclusão a que cheguei é que ele era um mentiroso patológico e que tinha todos os traços de psicopatia."

A relação entre ambos terminou. "A partir do momento em que se sentiu confrontado, também não insistiu mais."

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Catarina conseguiu encontrar em Sara um apoio. Tem consultas de psiquiatria, às escondidas do marido, "duas ou três vezes" por ano, mas não dá pormenores da vida conjugal: "Do que me adianta estar a falar sobre um psicopata, se ele não vai mudar?"

Descobriu a verdade através de Sara, que começou a pesquisar mais sobre a psicopatia para a ajudar. Sara cruzou-se em tempos, no trabalho, com uma pessoa com traços semelhantes. Na altura, a psicóloga disse-lhe que se tratava de um psicopata. Quando Catarina lhe revelou as atitudes e comportamentos de Tiago, percebeu: "Eu estou perante uma pessoa que tem um distúrbio de personalidade".

"Isto é uma coisa que marca", confessa Sara, que defende que a falta de informação sobre a psicopatia é um problema que leva estes casos a prolongarem-se no tempo. "As pessoas ficam completamente amarradas a este tipo de pessoas, que são extremamente manipuladoras."

"Estou receosa de voltar a encontrar alguém assim, que consegue mentir tão bem." As mentiras foram o que mais a impressionou: "A capacidade de a pessoa criar uma personagem que não tem nada a ver com a pessoa que ele é. Isto é assustador."

Agora, quer ajudar Catarina a libertar-se de Tiago.

"Mas vou para onde? Quem é que me ajuda a pagar uma renda de casa? Onde é que arranjo trabalho?", questiona Catarina, que confessa que precisa do apoio financeiro de Tiago para conseguir viver. "O meu monstro já me disse que se eu o deixar, destrói a (loja) e nem precisa de sujar as mãos."

Quer separar-se dele, mas o medo impede-a.

"Se eu tivesse um ordenado em condições, já o tinha deixado há muito tempo. Assim, tenho medo. Tenho medo porque entre o primeiro casamento e este, passei muita fome."

Catarina tem "muito medo" do futuro. Não só em termos financeiros. Tem medo de chegar algum dia a tribunal e que não acreditem nela.

"Ele sabe dizer, fazer e mudar a conversa de modo a ter sempre razão. Ele é uma pessoa que sabe dar a volta ao texto. 'Não foi assim que eu disse, tu é que compreendeste mal. Não era isso que eu queria dizer, não tenho culpa de teres entendido mal'."

Confessa que já não gosta dele, nem sente qualquer carinho. É o medo. É o medo que a impede de terminar este capítulo da sua vida. É também por causa do medo que quer manter-se no anonimato e, por isso, os nomes, datas e locais deste artigo são fictícios.

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