Desafios da Mente

Viver com um(a) psicopata: "Dói muito aceitar que é uma irmã que nos está a fazer este mal todo"

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Joana e Vanessa são irmãs. Nunca foram muito próximas, mas Joana diz que nunca deixou de gostar da irmã. Mesmo quando a relação piorou e começaram as agressões verbais, as manipulações e as mentiras.

Hoje, Joana sabe que Vanessa tem um problema grave. Antes de perceber o que se passava, devalorizava o comportamento da irmã e arranjava desculpas para o comportamento agressivo que tinha. Quando foi à procura de uma resposta encontrou. Quando olha para trás, percebe que a irmã "sempre foi uma narcisista".

"Olho para trás e percebo que há uma série de coisas que já estavam elaboradas na mente dela, mas que, na altura, desvalorizei."

Na entrevista que aceitou dar à SIC Notícias, Joana recorda as manipulações e as mentiras, revela as agressões verbais de que foi vítima e confessa que cortou o contacto com a irmã.

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Vanessa sempre foi uma pessoa muito agressiva com todos à sua volta. Joana conta que tudo o que ela e os outros três irmãos fizessem, incomodava Vanessa.

Quando eram mais novas, Vanessa teve um acidente que a deixou com cicatrizes. E a Joana pensou que a agressividade podia ser fruto de "algum complexo de inferioridade". Para tentar ajudar a irmã, tentou aumentar-lhe a autoestima, oferecendo roupa ou "um penteado giro".

"Mas estas minhas atitudes nunca eram vistas como carinho. Ela dizia que eu queria mandar nela e não gostava do que eu estava a fazer."

Joana arranjava desculpas para o comportamento da irmã. "Ela está triste e esta é a forma de expor a mágoa que tem". A relação entre as duas sempre foi assim ao longo dos anos. Mas a situação piorou há 4 anos, quando a mãe ficou acamada.

A relação entre Vanessa e a mãe sempre foi complicada. Joana acredita que um dos motivos era o facto de a irmã nunca ter tido o "amor de mãe" à medida que foi crescendo. Mas assim como Vanessa, nenhum dos outros irmãos teve este "amor de mãe".

Quando a mãe ficou doente, Vanessa assumiu a parte familiar e ficou a tratar dela. Para Joana, "isto deu-lhe o poder que sempre tentou alcançar."

Na altura, o comportamento de Vanessa tornou-se ainda mais agressivo, mas Joana continuou a arranjar desculpas. "Está mal disposta, aborrecida. Deve estar com alguma depressão, vamos ajudar e tentar compreender".

No início, Joana pensou que conseguiria mudar a irmã e ajudá-la a ultrapassar o cansaço físico, o desgaste mental e a depressão que acreditava que ela tinha. "Nós assumirmos que temos algum problema não é vergonha nenhuma", disse-lhe na altura.

A resposta que chegou foram gritos e insultos. Vanessa atacou a irmã, dizendo que era ela quem estava maluca, que precisava de ajuda e que não tinha noção do que era correto. "Tu é que és mau carácter", ouviu a irmã dizer.

Joana continuou a arranjar desculpas. "Nós próprios arranjamos desculpas para as atitudes que têm connosco."

"No entanto, eu não posso dizer que um pai agride um filho porque estava nervoso. Eu não posso arranjar essa desculpa. Eu não posso arranjar desculpas para a minha irmã que me insulta só por entrar na casa da minha mãe. Se eu lá estiver cinco minutos, ela insulta-me de forma continua."

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As manipulações

Joana confessa que, quando a irmã assumiu o cuidado da mãe, começou a controlar e a manipular todos à sua volta. "Vocês fazem o que digo em casa da mãe. Visitam a mãe quando eu quero."

Revela que o comportamento agressivo era dirigido especialmente a si, porque se recusava, no início, a obedecer. O ciúme era outro dos motivos. "Tu só gostas da Joana. Só te preocupas com a filha da Joana", ouvia a irmã dizer à mãe muitas vezes, mesmo que não fosse verdade.

Para Joana, Vanessa olhava-a como se ela quisesse quebrar o laço que procurava alcançar na busca pelo "amor de mãe" que nunca tinha tido.

"Foi desenvolvendo um ódio ainda maior por mim. (A mãe) não me dava mais atenção do que aos outros. Eu só não criava conflitos com a minha mãe. Elas entravam em conflito e isso fazia com que a relação delas azedasse ainda mais."

Vanessa começou a controlar as visitas da irmã à mãe. "Tu vens quando eu quiser. Só podes vir ver a mãe das 19:00 às 20:00." E Joana começou a obedecer, mesmo que isso alterasse a sua rotina: "Porque na minha cabeça o que ela estava a fazer era bom para a mãe".

A manipulação também estava presente nas conversas. "Só chegaste às 17:00, devias ter chegado às 16:00, porque às 16:00 a mãe sentiu-se mal. És uma irresponsável porque se ligasses mais vezes, sabias o estado de saúde da mãe."

Joana sentia-se mal e com um peso na consciência, porque acreditava que a irmã tinha razão.

Mas não era só Joana que Vanessa tentava manipular. Tentava manipular o irmão mais velho, mas ele confrontava-a e ela tinha medo. Manipulava o outro irmão e a mulher. Manipulava até o vizinho. E a manipulação não estava ligada apenas a assuntos da mãe.

Vanessa tentou que a filha de Joana trocasse de curso na faculdade, de Psicologia para Medicina. "Tu tens de conversar com a tua filha, porque psicologia não tem saída. Ela tem que escolher outro curso. Ela vai ficar no desemprego e a culpa é tua porque não lhe dás atenção. A miúda está perdida."

E Joana sentia-se mal porque acreditava na irmã e achava que "não estava a dar atenção" à filha. Hoje, reconhece:

"Não posso desculpabilizar a agressão e a manipulação do outro lado".

As mentiras

Joana recorda as mentiras do dia a dia como uma forma de manipulação. "Hoje vai à mãe porque eu discuti com ela e estou chateada". Quando Joana perguntava à mãe o que tinha acontecido, percebia que a discussão nunca tinha acontecido. "A Joana esteve cá e disse que pegaste no carro da mãe", disse ao irmão, que não o tinha feito. "O objetivo era afastar-nos".

Lembra outras mentiras que a magoaram e deixaram a família a "olhá-la de lado" e a colocá-la de parte.

Vanessa contou que Joana teve um acidente de carro e quando a polícia lá chegou, tinha o veículo cheio de droga. Não é verdade.

Vanessa contou que a Joana deixava a filha em casa sozinha para ir para a discoteca. Não é verdade. "Eu já nem me lembro há quanto tempo não vou a uma discoteca. Acho que a minha filha ainda nem era nascida."

Acreditando nas mentiras, as pessoas no seio familiar começaram a olhar para Joana como a pessoa que Vanessa descrevia. Porque Vanessa "era boa pessoa e boa rapariga". Porque "era um anjo" que cuidava da mãe e que estava sempre presente.

Esta foi uma situação que deixou Joana a questionar a sua própria verdade.

"Eu entrava num hipermercado qualquer, e não conhecia aquelas pessoas de lado nenhum, e a sensação que tinha era que as pessoas estavam a olhar para mim porque alguém lhe contou uma história minha e se calhar até acreditaram. Estas pessoas estão a olhar para mim porque aos olhos delas eu sou má pessoa."

Numa altura em que ainda não percebia o que estava a acontecer, Joana ia para casa tentar lembrar-se do que poderia ter feito de mal à irmã. "Será que eu fui lá e a maltratei e não me lembro? Será que estou tão cansada que não me consigo recordar?"

As agressões

As agressões sempre foram verbais. Joana chegou mesmo a ir à GNR para apresentar queixa da irmã, mas foi confrontada com uma realidade que não estava à espera: "Vai ser a palavra dela contra a tua, portanto isto não vai dar em nada", disseram-lhe.

As agressões verbais aconteciam sempre quando as irmãs estavam sozinhas. Quando estavam com mais pessoas, Vanessa não gritava, era menos agressiva e mais simpática. Conseguiam até manter uma conversa civilizada.

"Se estivermos sozinhas, eu não consigo sequer dizer a primeira palavra de uma frase."

As agressões verbais eram constantes quando estava na casa da mãe. "O que é que esta p*** está aqui a fazer? Não sei o que esta vaca está aqui a fazer." Para Joana, era quase como uma cassete que não tinha fim. Os primeiros cinco minutos aguentava, mas depois tinha de mentir à mãe para ir embora.

Para conseguir escapar a estas agressões, Joana passou a visitar a mãe nas horas em que estava lá a empregada. Sabia que se estivessem mais pessoas presentes, a irmã teria uma conversa cordial e não seria agressiva.

Nunca se sentiu em perigo, mas acredita que se tivesse respondido à irmã nestas alturas, teria sido agredida.

Na entrevista, recordou uma frase que ouviu quando os cinco irmãos se reuniram lá em casa para discutir a situação da mãe. "Ok, isto resolve-se de uma forma muito prática. Um tiro a cada um e acaba-se o assunto." O tiro a cada um era para as pessoas que não concordavam com a irmã.

"Não posso desvalorizar esta situação e pensar que está a dizer da boca para fora. Se o faria? Acredito que sim."

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Joana só percebeu o que Vanessa tinha depois de uma conversa com o primo, uma das pessoas que mais a ajudou neste processo e que passou pela mesma situação. O primo aconselhou-a a ler um livro sobre a psicopatia e a ver vídeos sobre o mesmo tema.

Confessa que na altura foi ingénua e pensou que só falavam de casos extremos. E a irmã não era um desses casos. Só depois percebeu que sim, Vanessa era um destes casos extremos. Joana diz que foi a conversa com o primo que a ajudou a perceber toda a situação e que não podia continuar a viver a vida da maneira que estava a viver.

"Podia estar com a vida de pernas para o ar. Vivemos diariamente a pensar de que forma podemos comprovar a ela e aos que a rodeiam que nós não somos aquilo. Se ela diz que tenho de dormir até às 10:00, tenho que dormir. Se ela diz que não posso ver a mãe, não vou. A vida vai desmoronando e até nos esquecemos que temos uma vida familiar em casa."

As agressões e manipulações levaram-na várias vezes ao hospital com um quadro de ansiedade. O médico receitou-lhe ansiolíticos para dormir. Joana chegava a dormir apenas duas horas por noite por causa dos pesadelos que tinha com Vanessa.

"Era sempre o mesmo: eu deitada e ela em cima de mim a apertar-me o pescoço. Acordava aos gritos sempre com esta imagem.

É no irmão mais novo, que vive no Canadá, que encontra outro apoio. O irmão, que nunca teve uma relação muito próxima com Vanessa, foi confrontado com a realidade quando teve de conviver com ela durante dois ou três meses. Aí percebeu o que estava a acontecer e tornou-se uma fonte de apoio e carinho para Joana.

O irmão mais velho estranha as reações de Vanessa, mas considera que são de uma pessoa de mau carácter e má educação. Apesar de Joana lhe tentar explicar o que se passa, ele continua a achar que são ciúmes.

Joana não comunica com o terceiro irmão, pois este é muito ligado a Vanessa.

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O momento em que Joana aceitou que ia ser o "bode expiatório" da irmã foi o momento em que decidiu que ia cortar radicalmente com qualquer tipo de contacto com ela.

"Tenho de seguir com a minha vida em frente. Esta pessoa é tóxica. É uma narcisista perversa. Não tem sentimentos e é mentirosa."

Este foi o pensamento que teve quando decidiu afastar-se. Percebeu que nenhuma das ações da irmã demonstravam que gostava dela ou que tinha qualquer carinho ou preocupação.

"Aceitar é ignorar a pessoa por completo. Levar a minha vida normalmente. Não posso viver com a tristeza de ser a minha irmã e com a preocupação de que as pessoas estão a olhar e acreditar no que está a acontecer."

Confessa que, nas visitas à mãe, quando vê o carro de Vanessa à porta, dá meia volta e vai-se embora. "Não quero sequer olhar para ela de frente."

Joana admite que não lida bem com a situação por ser uma irmã. "Partimos do princípio que as pessoas que nos são mais próximas são aquelas que nos devem proteger." Reconhece que é difícil "aceitar que é uma irmã que a maltrata e que a espezinha mentalmente".

"Dói muito aceitar que é uma irmã que nos está a fazer este mal todo."

Depois da fase da aceitação, surge a do luto: "Esta pessoa não existe. A minha vida é que é importante e vou procurar defender-me."

Hoje, afirma que a sensação que tem, após cortar todos os contactos com a irmã, é de uma "liberdade indiscritível". "O facto de não me cruzar com ela, dá-me uma liberdade que não consigo descrever." Vanessa também não a tenta contactar, porque já percebeu que Joana criou "uma barreira de aço".

Tem a certeza que a irmã tem consciência do mal que fez e continua a fazer. Não tem a certeza, no entanto, se percebe que se trata de psicopatia.

Apesar de tudo, Joana confessa: "Eu gosto da minha irmã". Já aceitou, mas revela que é uma situação que a deixa com "uma pontinha de tristeza", que terá para sempre.

Os nomes, locais e datas deste artigo são fictícios.

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