Desafios da Mente

Viver com um psicopata: Maria pensava que tinha encontrado o príncipe encantado

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Maria e João conheceram-se em 2002. João era uma pessoa extraordinária que vinha de uma "boa" família. "Era uma pessoa encantadora que dominava vários temas. Era incrível, tinha os mesmos objetivos que eu, os mesmos valores de vida", confessa, numa entrevista à SIC Notícias. Quando Maria engravidou tudo mudou. "Nesta altura, já me sentia morta. Já não vivia, nem sabia quem eu era".

Não foram palavras que a fizeram apaixonar-se, mas sim os gestos. O casaco nos ombros, o abrir a porta do carro e a viagem de 100 quilómetros para a levar a casa dos pais. Maria apaixonou-se e casou-se com aquele que considerava ser o seu príncipe encantado.

Mas de príncipe encantado João tinha pouco e, após o nascimento do primeiro filho, o inferno começou.

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Maria e João conheceram-se através de amigos, durante umas férias na Figueira da Foz. Não foi amor à primeira vista para a Maria, que teve uma má impressão do João logo no início. Não por palavras ditas ou ações realizadas, mas sim porque era um homem de 29 anos no meio de jovens entre os 18 e os 22 anos. "Havia ali um certo desenquadramento", confessa.

Mas esta primeira impressão mudou nos dias seguintes com os "gestos" do João. "Não me disse quase nada. Era tudo por gestos." Num jantar durante as férias, impressionou-se quando João lhe cobriu os ombros com o seu casaco, depois de reparar que estava com frio.

"Foi um gesto maravilhoso, quase de príncipe encantado. Achei brilhante."

À saída do restaurante, outro gesto impressionou Maria: "Nunca ninguém tinha aberto a porta do carro para eu entrar. Nunca na vida. Outro gesto encantador que nos amolece o coração e a alma".

Adepta de jantaradas e de ter os amigos em casa, organizou um jantar no dia seguinte. Convidou alguns amigos para irem lá a casa. João estava entre os convidados. A jantarada correu bem e acabou com os dois a conversar à mesa, sozinhos, até "às tantas".

"Era uma pessoa encantadora que dominava vários temas. Era incrível, tinha os mesmos objetivos que eu, os mesmos valores de vida. Apresentava uma família muito estruturada e equilibrada. Era escuteiro, ia a missa, dava catequese... extraordinário. Tinha ali um verdadeiro príncipe encantado, uma pessoa extraordinária, uma verdadeira alma gémea."

No dia seguinte, novo jantar. Desta vez, organizado por uma amiga "armada em casamenteira". Na altura, pensou recusar, porque queria ir para a casa dos pais em Ovar, mas acabou por aceitar o convite. João voltou a aparecer.

"Era só elogios. Eu era a melhor pessoa que ele já tinha conhecido na vida"

Nesse dia, João voltou a surpreender quando, no fim do jantar, ofereceu-se para a levar a casa dos pais. Uma viagem de mais de 100 quilómetros. "Foi aí que eu me apaixonei verdadeiramente. Um gesto espetacular, que nunca ninguém tinha feito por mim".

A aproximação entre os dois foi bastante rápida, admite Maria, confessando que nem se apercebeu que tudo aquilo tinha acontecido em apenas três dias. "Foi assim extraordinariamente arrebatador. Tinha encontrado a minha alma gémea. A pessoa que gostava de tudo aquilo que eu gostava e que tinha os mesmos valores que eu."

Maria confessa que a relação não começou logo. Nunca tinha tido um namorado e era racional. Queria conhecê-lo melhor antes de se comprometer.

"Ou namoras comigo ou sais do carro"

Foi num encontro no Porto, onde a enfermeira, já formada, estava a tirar um curso, que ele lhe pediu em namoro. Estavam no carro, a caminho de casa dele, onde se iriam encontrar com os amigos, quando a pergunta foi feita. A resposta de Maria não foi sim. Mas também não foi não. Disse que o queira conhecer melhor.

"Quando eu digo isto, ele mostra-se muito ansioso e agressivo. E o que ele diz é: ou namoras comigo ou sais do carro".

O sinal de alerta foi desvalorizado por Maria que, com a sua força e garra, confrontou-o, dizendo que não ia sair do carro, nem que lhe ia dar uma resposta ao pedido de namoro.

O momento passou e João voltou a ser aquele que Maria conhecia: carinhoso e atencioso. Desvalorizou a reação dele: "Estava tão apaixonado que ficou ansioso para começar uma relação".

A resposta à pergunta veio uns dias mais tarde. Sim, Maria aceitou namorar com João.

A partir daí, foram seis meses até começarem a viver juntos no Porto, para onde Maria se mudou e tencionava encontrar emprego como enfermeira. Confessa que, na altura, achou muito estranho toda a pressa do João. "Para mim não fazia sentido", confessando, no entanto, que encarou aquilo como um novo sinal de amor.

A vida a dois corria bem. Incentivavam-se um ao outro. A estudar. A atingir os seus objetivos. Após três anos, casaram-se. Mas pouco depois tudo mudou.

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Maria engravidou e João começou a mudar. Deixou de fazer elogios e de a motivar. Relembra que deixou de a tratar tão bem, mas atribuiu isso ao nascimento do filho. Estavam mais cansados, tinham outras responsabilidades e uma nova pessoa a quem dar atenção. "Achei que era normal", confessa.

O filho nasceu. Tinha um problema cardíaco e, por isso, o casal decidiu que seria melhor não ir para o infantário. Decidiu também que Maria ia começar a trabalhar à noite e aos fins de semana para estar com o filho durante o dia, em casa. E foi assim durante um ano e meio até voltar a engravidar.

O "verdadeiro inferno" começou com a segunda gravidez

Por ser uma gravidez de risco, por causa do trabalho, ficou em casa. Maria confessa que na segunda gravidez esteve "completamente isolada em casa". Nestes anos, foi perdendo contacto com os amigos. Para João, estes "só tinham defeitos" e queriam "aproveitar-se" de Maria. As relações sociais estavam limitadas aos colegas de trabalho e acabou por ficar isolada de toda a gente.

"Sempre que eu pensava em organizar algum jantar, ele tinha sempre outras coisas para fazer. 'Logo nesse dia que queria ir contigo passear, logo nesse dia que eu queria estar tanto contigo, sozinhos, num jantar romântico'."

Na altura, Maria não deu conta do que estava a acontecer. Hoje em dia, reconhece que estava a ser alvo de uma "manipulação encoberta".

O "verdadeiro inferno" começou com a segunda gravidez. João dizia que o bebé não era filho dele, o que magoava Maria, que tentava justificar-se. Quando a filha nasceu, "tudo foi maravilho e fantástico" na sala de partos. Mas foi já no quarto que a Maria ouviu algo que nunca mais se vai esquecer.

"Coitadinha da menina que não tem culpa da mãe que tem, mas ela é tão engraçadinha que a vou perfilhar."

Foi um choque para Maria. Não compreendia o porquê daquele comportamento. Hoje admite: "Foi a primeira grande marca de violência que sofri".

Quando regressaram a casa, a situação piorou. Completamente isolada de toda a gente, começou a ser gozada pelo marido pelas coisas mais simples, como amamentar o filho. "Estás na ordenha", dizia ele, que também incentivava o filho mais velho, com quase três anos, a fazer o mesmo.

Para além disto, todos os dias Maria ouvia reclamações. Ou porque a casa estava desarrumada ou porque faltava comida. Mas quando olhava, a casa estava arrumada e o frigorífico estava cheio de comida.

"Comecei a ficar baralhada"

Durante os cinco meses em que estava de licença de maternidade, ouviu todos os dias reclamações. Ele estava infeliz e a culpa era dela. Ele não ia de férias e a culpa era dela. "Ele não fazia as coisas e a culpa era minha. Ele não atingia os objetivos e a culpa era minha."

João tinha uma lista de objetivos megalómanos, desde o trabalho à vida pessoal.

Mesmo depois de começar a trabalhar, a situação não melhorou. João começou a controlar os horários de Maria. Não podia atrasar-se cinco minutos, pois isso "era horrível".

"O controlo não é direto. E é isto que é difícil de provar. O controlo é sempre indireto. Ele nunca dizia: 'tens de estar obrigatoriamente em casa a esta hora'. Ele dizia 'és uma incompetente. Para chegares a esta hora, é porque não consegues acabar o teu trabalho a horas'."

A enfermeira, que sempre foi muito focada nos seus objetivos, dava formações, organizava congressos, pertencia a diferentes grupos de trabalho e orientava alunos. Recebeu até um convite para ir dar aulas para a Universidade do Algarve. A formação e o trabalho eram um orgulho para Maria, mas era algo que "beliscava" o João.

"Fui proibida de falar de mim e dos meus sucessos em casa (…) Chegou a um ponto em que não tinha nada para falar em casa. A única coisa que tinha para falar era sobre as promoções do supermercado, que era o único sítio onde podia ir."

O sonho de João era abrir a sua própria empresa. A trabalhar por conta de outrem, as queixas contra o patrão eram muitas quando chegava a casa. Dizia que estava a ser explorado e que merecia muito mais do que aquilo que tinha e recebia. Para Maria, João sentia que estava acima de tudo e de todos.

O ordenado do João servia para pagar a casa onde viviam e que estava no nome dele. As contas estavam a cargo de Maria, que após o nascimento do primeiro filho também começou a pagar a casa com o João. "Era uma despesa para ele que queria abrir uma empresa. Enquanto tivesse aquela despesa, não podia concretizar o seu sonho."

Maria sentiu-se culpada por ele ser infeliz e por não conseguir concretizar os seus objetivos. E com o dinheiro que poupava do seu ordenado começou também a pagar a casa através de amortizações. Até uma bolsa de estudos que ganhou foi transferida para a conta dele.

Após quatro anos, a casa estava quase paga. Maria pensou que estava na hora de começar a poupar para investir nos seus estudos. Queria fazer um doutoramento, mas precisava de poupar. Por isso, falou com João para parar de transferir dinheiro para a conta dele todos os meses.

"O meu dinheiro é meu e o teu é nosso"

"O meu dinheiro é meu e o teu é nosso" foi a resposta e fez com que a Maria percebesse que não havia igualdade de direitos e de regras em casa.

O dinheiro também era uma das justificações para João não querer que os filhos fossem para o infantário. E naqueles quatro anos, Maria continuou a ter os dois trabalhos: enfermeira à noite e aos fins de semana, e mãe durante o dia.

"Quando o mais novo estava a dormir, a mais velha tinha de ser estimulada porque não ia para o jardim de infância. Não tinha mais ninguém para dar esse apoio."

Maria começou a ficar cansada. Havia dias em que não conseguia dormir. Às vezes, passava 40 horas sem dormir. Pedia ao João que o filho mais velho fosse para o jardim de infância, mas ele não permitia. Maria estava proibida de fazer o que fosse com os filhos. Não podia ir com eles ao jardim infantil. João ameaçava-a constantemente: "Se lhes acontecesse alguma coisa, vais ver o que te acontece."

As ameaças, que deixavam tudo em aberto, eram "terríveis". Maria sentia medo em ir simplesmente ao jardim com os filhos. "Se eles fizessem um hematoma, eu estava desgraçada".

Maria só podia sair de casa para ir trabalhar e ir ao supermercado. Estava extremamente cansada. Quando ia dormir a casa, era ela que tinha de acordar durante a noite se as crianças acordassem. "Ele obrigava-me a levantar".

"Às vezes estava há dois dias sem dormir e pedia que ele fosse. A resposta dele era acusar-me de negligência e de abandono dos filhos. Ele não me deixava dormir, mesmo sabendo da exigência do meu trabalho, mesmo sabendo o que é estar com duas crianças de idades diferentes."

Sem se aperceber, os desejos, objetivos e necessidades de Maria deixaram de existir e passaram a contar só os do João.

"As necessidades dele estavam sempre à frente das minhas necessidades. Os desejos dele estavam à frente dos meus desejos. Os objetivos dele eram mais importantes que os meus objetivos."

Maria era manipulada para gostar daquilo que João gostava. Confessa que, na altura, perdeu a liberdade de ser diferente dele e de ter a sua própria vida. "Perdi a liberdade de sonhar."

"Se eu dissesse que gostava de amarelo, eu era atacada imediatamente. 'Ninguém gosta de amarelo. És completamente maluca. Só uma pessoa doida gosta de amarelo. Tu tens de gostar é de azul'."

Quando questionada se alguma vez se sentiu em perigo, a resposta é rápida e assertiva: sim. No entanto, admite que João era "muito discreto". "Ele feria a alma, nunca feria o corpo. Tinha a noção disso. Quando ferisse o corpo, ia ser descoberto."

Puxava-lhe o cabelo. Agarrava-lhe pelo colarinho. Apertava-lhe os braços. Uma vez, deu-lhe um murro.

Uma das ameaças que fazia era que a atirava do 6.º andar, onde viviam, se acontecesse alguma coisa às crianças. Maria ficava assustada porque sabia que João não media a força que tinha.

"Quando ele ficava com os olhos vidrados, raiados de sangue, era assustador."

Foi nos programas da manhã da televisão que Maria aprendeu a defender-se e que começou a ouvir falar sobre os casos de violência doméstica.

"Na altura, ainda não dava um nome, porque na minha cabeça era tudo confuso. Por um lado, tinha um homem que me tratava mal, mas depois dizia que me amava, fazia tudo por mim, que não havia ninguém que me amasse tanto no mundo como ele."

Temendo pela vida, aprendeu estratégias para se defender. As "facas grandes" eram escondidas. Quando ele chegava a casa, as portadas das varandas eram trancadas. Quando discutiam, se estivesse na cozinha, saía de lá. "O hall da casa era o sítio mais seguro para mim porque não tinha janelas."

"Ele dizia muitas vezes que eu era maluca e que toda a gente sabia disse. Repetia muitas vezes que era má mãe, negligente e que não queria estar com eles. 'És uma palhaça, és um mono. Nem a tua família gosta de ti.' Repetia tantas vezes."

Maria começava a acreditar. Não tinha noção da sua autoimagem e a autoestima já tinha sido perdida. "Deixa o teu trabalho antes que chegues à incompetência máxima", dizia-lhe. E ela acreditava que era incompetente. Isolada de tudo e de todos, começou a a duvidar de si própria. "Aquilo que sentia era diferente daquilo que ouvia e via. Ele ditava os meus sentimentos, numa forma de manipulação brutal."

"Nesta altura, já me sentia morta. Já não vivia, nem sabia quem eu era."

perigo

Maria estava tão esgotada que começou a ter falhas de memória. Começou a duvidar dela própria e dos sentidos. Estava com problemas da perceção.

Entretanto, com quase 4 anos, o filho mais velho foi para a escola. Conta que houve uma vez que queria ir levá-lo e não pôde porque não encontrou sapatos em casa. "Se eles não fossem à escola, ela não podia sair", confessa, revelando que, na altura, já tinha desistido dos grupos de trabalho, das aulas e dos congressos.

O filho tinha tido varicela e, aos olhos do pai, os 15 dias que tinham passado não eram suficientes, mas Maria contrariou-o. Decidiu levar o filho à escola. "O que é certo é que não encontrei os sapatos em casa. Eu percorri tudo." Quando à noite disse ao marido o motivo que a impediu de levar a criança à escola, ele levou-a ao sítio onde guardam os sapatos. "Não sabes dos sapatos? Estás a ficar completamente maluca", disse-lhe.

Até hoje, Maria não sabe se os sapatos estavam realmente lá ou se foram escondidos. "Andava muito confusa." Confessa que estava a ficar com dissonância cognitiva, ou seja, a sua perceção da realidade estava alterada. "Eu já te disse isso ontem, não te lembras? Eu já falei contigo sobre este assunto. Estás a ficar maluca", dizia-lhe.

Maria confessa que aquilo que percecionava através do que via, ouvia ou sentia, não correspondia à realidade apresentada pelo João.

"A única pessoa que me validava, ou não, era o meu marido. Eu estava enclausurada em casa e em mim própria."

Perante a situação, recorreu a um neurologista que lhe disse que estava tudo bem com ela, apesar de o marido, que a tinha acompanhado, dizer que "não estava nada bem da cabeça", que era maluca, que "ficava parada no tempo" e "só queria dormir."

O neurologista disse-lhe que era apenas privação do sono e que devia descansar.

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O cansaço. As agressões. As manipulações. O isolamento. Estes foram os motivos que levaram Maria a pensar na separação. Mas a gota de água foi quando o pai começou a incentivar também a filha mais nova a agredir e humilhar a mãe. "Tinha já os meus próprios filhos a agredirem-me. Isto foi terrível."

Numa conversa séria, pediu para se separarem. Ele recusou. Ela pediu que fossem a um psicólogo. Ele recusou. "Ou vais ou separo-me de ti", disse-lhe.

"O psicólogo foi a minha ajuda. Foi a pessoa que me salvou a vida. Tive a sorte de encontrar um psicólogo formado em psicologia forense. Psicólogos comuns não estão habituados a identificar psicopatas. Ele tirou-lhe a pinta logo na primeira consulta."

Maria confessa que toda a gente que ouvia João falar achava que era uma pessoa maravilhosa e encantadora. "Um pai e marido extraordinário." E para ela, tudo o que pudesse dizer à família, aos amigos ou colegas de trabalho seria em vão, pois pensava que ninguém ia acreditar nela.

João foi durante três meses ao psicólogo até se recusar a voltar. Porque o psicólogo era incompetente, dizia. Maria revela que "melhorou o comportamento brutalmente" só para "despachar o psicólogo". "Passou a ser outra vez aquela pessoa que eu conheci no início."

Foi após as "piores férias" da sua vida, que decidiu separar-se. Durante a estadia em Marrocos, foi proibida de sair do hotel. "Lá fora é perigoso, há gente que nos quer fazer mal", era o que dizia.

No penúltimo dia da viagem, Maria decidiu contrariar o marido e ir passear sozinha, enquanto as crianças dormiam a sesta e o pai estava no computador. João não aceitou e acordou as crianças.

"Meninos, acordem. Venham-se despedir da vossa mãe porque é a última vez que a vão ver na vida. Porque ela vai sair deste quarto e não vai voltar. Porque lá fora estão pessoas que lhe vão fazer mal."

Apesar do choro dos filhos, Maria estava determinada. Confessa que estava a recuperar as forças devido às consultas com o psicólogo, que manteve escondidas durante vários meses.

"Desrespeitei pela primeira vez uma ordem dele"

Demorou uma hora no passeio e, quando regressou ao quarto de hotel, eles não estavam lá. Estavam na piscina com o pai, que se recusou a dizer o que fosse à Maria.

"Mais uma vez tive de sofrer a violência mais aterrador de todas: o castigo do silêncio. Não me dirigia a palavra, ignorava-me. Horrível."

Quando voltou, estava determinada a acabar com o casamento. Foi com a ajuda do psicólogo que começou a "reconstruir-se".

"Afinal, tinha amigos que estiveram sempre lá"

A primeira coisa que fez foi apresentar queixa de violência doméstica na polícia. "Eu não tinha testemunhas daquilo que estava a passar. Ou pensava eu que não havia testemunhas. Mas afinal tinha. Afinal, tinha amigos que estiveram sempre lá."

Os amigos sabiam que alguma coisa não estava bem. Maria saía do trabalho sempre com medo. Maria tinha de pedir autorização ao marido para fazer qualquer troca de turnos. Maria recusava-se a dar aulas. Maria tinha medo. Maria tinha sempre muita pressa para ir para casa. Maria nunca estava disponível. E os amigos sabiam isso tudo.

A decisão foi anunciada após uma chamada telefónica de João para a mãe, em que lhe estava a ditar os horários de Maria. "Até a minha sogra controlava os meus horários." Maria pediu que não fizesse isso, mas foi ignorada. Após a chamada terminar, disse que queria o divórcio.

"O que estás para aí a dizer?", perguntou, antes de dar um pontapé num computador que foi atirado à cara de Maria. "Eu só pensei: esta é a minha oportunidade." Maria ficou com uma concussão craniana.

"Se não aproveitar, não vou ter outra oportunidade de provar e mostrar a violência a que sou submetida todos os dias."

Maria perdeu a consciência por momentos e, quando acordou, foi confrontada com um pedido de desculpas. Ajoelhou-se. Disse-lhe que a amava. Pediu desculpas. Tudo para que ela não fosse ao hospital. Mas ela estava determinada a ir.

No hospital, não teve coragem de revelar o que tinha acontecido. "Perdi a coragem", confessa. No entanto, o médico que a atendou percebeu que estava perante um caso de violência doméstica.

No dia seguinte, apresentou queixa na polícia. "Nunca pensei que a polícia acreditasse em mim ou que alguém acreditasse em mim." Lá, deram-lhe indicações sobre como sair de casa e de como devia tirar as suas coisas: a forma e a altura para o fazer. Apresentou todas as testemunhas que tinha e a polícia ouvia-as.

A partir daí, começou o longo processo de divórcio que envolveu o processo de violência doméstica, que chegou a tribunal, e diferentes queixas na CPCJ - Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens -, uma feita pelo João e outra feita pela médica de família de Maria contra João.

Durante toda a investigação, Maria manteve-se em casa, em silêncio. Às escondidas do ainda marido, alugou uma casa e mobilou-a com a ajuda da família. Só no dia do divórcio é que partilhou onde estava a viver e a guarda dos filhos

"Foi um grande alívio, mas também um grande medo. Como bom psicopata que é, não nos larga"

O processo de violência doméstica demorou dois anos a ser resolvido. Quando João descobriu, ameaçou que lhe tirava os filhos, se ela não retirasse a queixa de violência doméstica e voltasse a casa. "Perdoava-me de todo o mal que lhe tinha feito, esquecia tudo. Era só voltar a casa para serem uma família feliz." Mas, nesta altura, Maria já sabia do que se tratava: manipulação.

Anos após o divórcio, Maria ainda é confrontada com a manipulação de João. Agora, segundo a enfermeira, o ex-marido usa os filhos para a atingir e isola-os da sociedade.

"Tudo o que sejam situações que ponham os miúdos em contacto com outras pessoas, o pai recusa. Neste momento, o pai está a fazer com as crianças o mesmo que fez comigo. Está a isolá-las socialmente, para que elas não tenham outra perspetiva de vida a não ser aquela."

Assim como a mãe, o filho mais velho sofreu de dissonância cognitiva. Mas já está melhor graças ao acompanhamento feito por uma psicóloga, algo que o João recusou durante muito tempo.

"A única forma que ele tem para me agredir é através dos filhos."

Para Maria, a sociedade "não está preparada para lidar com este tipo de pessoas". Confessa que se sentiu mal, quer na CPCJ, quer nos tribunais, porque sentia que era tratada como uma mulher "histérica e ressabiada".

Maria afirma que o "discurso extremamente eloquente" do João impede as pessoas de o ver como ele realmente é. "Porque ele apresenta uma postura super cordial, objetiva, manipuladora e encantadora."

"Eu queria tanto mostrar que o que ele estava a dizer era mentira, que eu própria me auto desacreditava. E este é o problema das vítimas de psicopatas. Nós somos desacreditadas, entendidas como histéricas, obsessivas, vingativas, ressabiadas, quando na realidade não tem nada a ver."

A enfermeira considera que a sociedade tem de se proteger dos psicopatas camuflados e defende que as autoridades competentes, como juízes, psicólogos, advogados e mesmo técnicos da CPCJ, têm de ter conhecimento que existem estes tipos de transtorno de personalidade.

"Ele tem noção daquilo que ele era. Queria tratar-se? Não, ele sentia-se mais poderoso que os outros por um simples facto: os sentimentos não o afetavam. E isso dá-lhe poder para fazer o que quiser das outras pessoas. Não sente remorsos."

E é por causa deste poder que João ainda tem que Maria prefere manter-se no anonimato. Os nomes, locais e datas deste artigo são fictícios.

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