Desafios da Mente

Viver com um(a) psicopata

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Depois de termos percebido que os psicopatas não são todos assassinos em série, nem costumam andar por aí com uma faca ensanguentada na mão, ficou claro que são mais subtis. Por isso, é possível que possa surgir um psicopata na sua vida, seja o seu chefe, o seu namorado, o seu médico ou o desconhecido com quem marcou um encontro online.

Um psicopata pode utilizar uma roupa desportiva ou mais formal; pode ser homem ou mulher; pode ser um profissional em ascensão com elevado retorno financeiro ou uma pessoa com menos condições financeiras; pode ter uma aparência física deslumbrante ou menos apelativa; pode ter abandonado precocemente a escola ou completado todos os graus académicos possíveis.

Destituídos de remorsos e de empatia, focam-se no que querem sem se importar com quem se atravessa no caminho. Com manipulação e encanto superficial, podem surgir na sua vida e procurar iniciar uma relação íntima.

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No início

É comum ouvir-se dizer que nos assuntos do coração devemos ser particularmente cautelosos. Para o que aqui importa é preciso ter presente que nos momentos iniciais de sedução as defesas podem estar em baixo e permitir que os psicopatas se aproximem mais facilmente.

Aliás, acontece que os psicopatas são astutos a identificar as vulnerabilidades da potencial vítima, inclusive pela forma como caminha ou publicações que faz nas redes sociais.

Com o aumento do número de encontros marcados pela internet, parece mais importante do que nunca ficar atento relativamente à pessoa com quem se está a planear passar umas horas. Um psicopata pode esconder, com facilidade, a sua essência por trás de um computador.

Não quer dizer que seja sempre, mas o psicopata costuma escolher pessoas de nível social mais elevado ou que tenha um emprego melhor do que o deles, dada a sua atração para o sucesso. Neste sentido, para além de um bombardeamento inicial de comportamentos sedutores, pode procurar viver rapidamente consigo.

A investigação mostra-nos que uma das melhores formas de levar alguém a falar-nos de si próprio é contarmos-lhe algo acerca de nós, mesmo que as revelações do psicopata não correspondam necessariamente à realidade da sua infância ou vivências.

Lembre-se, no início, os psicopatas aparentam ser melhores do que as pessoas comuns. A sedução é planeada e executada, após a análise do seu alvo, apresentando-se rapidamente como uma alma gémea.

É preciso ter em mente que as pessoas não merecedoras de nossa confiança não usam roupas especiais, não possuem um sinal na testa que as identifique, nem apresentam algum perfil físico específico.

A dúvida

Um parceiro psicopata prepara a pessoa para ficar com ele apesar do seu comportamento nocivo. O psicopata sabe simular que é carinhoso, alternando entre o carinho e a manipulação e levando o parceiro à submissão através de um padrão de recompensas, punições e ameaças. Aqui entra, na maioria das vezes, um registo de violência psicológica.

A vítima faz concessões, cede e sacrifica-se convencida de que será algo passageiro, ou que deve ser algo da sua cabeça. Podem surgir algumas incongruências nas versões contadas pelo psicopata, mas fica-se na dúvida se terá sido mesmo assim.

Quando um psicopata quer desviar a atenção da vítima de algo que possa revelar a sua verdadeira natureza, pode vitimizar-se, tentar isolá-la ou dizer qua a ama.

Porém, a linguagem para os psicopatas não tem nenhum contorno emocional, razão pela qual pode dizer algo como “amo-te”, mas, na realidade, equivale a verbalizar algo banal e corriqueiro.

Nos casos mais graves, o psicopata pode manipular, reagindo às queixas da vítima com maus-tratos a alguém ou algo que seja especial para a vítima. Classicamente, os animais de companhia ou os filhos.

Depois de um comportamento inaceitável, o psicopata pode fazer promessas de mudar ou voltar a lançar o seu charme, numa espécie de arrependimento superficial. Uma vez subjugado o alvo, o psicopata vai torturando a vítima com tratamento contraditório, ora agrada, ora despreza.

Quando a vítima descobre que é incapaz de se proteger ou é alvo de abuso psicológico intermitente, começa a sentir-se indefesa e mais fraca. É por isso que a vítima se sente, muitas vezes, na dúvida sobre o que fazer e tem a necessidade de uma rede de apoio sólida para o conseguir terminar o relacionamento.

Chegaram-nos histórias reais que não são necessariamente a afirmação de que quem estaria do outro lado represente um autêntico psicopata, mas ilustram, de forma didática, comportamentos que um psicopata típico poderia ter. Veja aqui os testemunhos.

Está a justiça preparada para identificar e lidar com esta realidade?

Não tanto quanto poderia. Pelo seu encanto superficial e mentira convincente os psicopatas são, não raras vezes, encarados pela justiça como mais credíveis. Afinal de contas, relatam com maior serenidade o que supostamente se passou e de uma forma mais organizada.

Do outro lado, a vítima com todas as mazelas emocionais e cognitivas que resultam dos vários episódios de violência psicológica que sofreu, o que pode levar a relatos, por vezes, menos detalhados ou organizados, mas nem por isso, necessariamente, falsos.

A vítima pode esquecer-se de factos importantes para a sua defesa, de episódios de agressão, de abuso, de manipulação, de mentiras, roubos, desvios, por serem inúmeros, ou por um mecanismo de defesa psíquica.

Uma vez que o psicopata executa abusos disfarçados, subtis e difíceis de denunciar, quando a vítima tenta denunciá-lo, acaba por parecer emocionalmente instável ou carente.

O principal objetivo dos psicopatas é o poder e controlo. Tudo o que pretendem é ganhar e encaram o Tribunal como um lugar de jogo para desempenharem o seu papel.

Mesmo quando perdem, podem considerar um acidente de percurso e voltam a iniciar novo processo, a suscitar novo incidente. Forçar o alvo a ter despesas legais pode ser também uma das suas motivações.

Não se incomodam em apresentar documentos e testemunhos falsos, distorcidos, fabricados ou selecionados de forma enviesada. Manipulam outras pessoas para mentir por eles, as quais podem nem saber que estão a mentir, ao estarem convencidas do que lhes foi contado pelo psicopata.

Caso existam, os filhos podem ser usados como objetos de pressão e de chantagem. Tentarão passar da vítima a imagem de uma pessoa terrível, que utiliza os filhos.

Não se deve perder de vista a máxima de que cada caso é um caso, nem tão pouco deixar de lado o contributo que a psicologia forense pode dar na apreciação dos factos e avaliação da personalidade das partes, se necessário.

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O que fazer?

Poderá ser importante que a vítima comece por fazer uma auditoria ao seu relacionamento. Ou seja, estimar que percentagem do tempo se sente feliz e respeitada? Que percentagem do tempo se sente usada, dominada e ansiosa? Prestar especialmente atenção ao que o seu companheiro faz e não ao que diz, pois, as palavras de um psicopata caracterizam-se por manipulação ou mentira.

A vítima não deve ser conivente com a versão distorcida do seu parceiro em relação aos acontecimentos, sobretudo quando o objetivo é transferir para si a culpa do que aconteceu.

Para o psicopata a culpa é sempre da vítima, ou de terceiros, ignorando qualquer responsabilidade pessoal.

Pode também pedir opinião a outras pessoas, pois amigos, familiares e conhecidos tendem a ter outra perspetiva sobre o que está a acontecer. Merece ainda assim o alerta de que o psicopata pode transmitir uma imagem social tão imaculada, que quem rodeia a vítima pode num primeiro momento felicitá-la pela sorte que teve, ou até mesmo duvidar do que revelou.

Fazer um diário pormenorizado ajudará a transmitir informação no momento de pedir ajuda, ou na eventualidade de surgirem processos judiciais.

Robert Hare, nome incontornável no tema da Psicopatia, alerta que é errada a crença de que se se der uma oportunidade ao psicopata tudo irá correr bem. Nem o amor, nem o perdão vão gerar a mudança necessária no outro. O psicopata resiste a todas as formas de apelo emocional e continuará a incorrer em esquemas.

Procurar acompanhamento psicológico especializado, bem como aconselhamento jurídico para enquadrar as condutas que sofreu ou sofre constitui um passo importante.

Compreender o que está a acontecer, ou lhe aconteceu, é o princípio da recuperação. Permita-se a reparar a destruição emocional por que passou.

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