Esquecidos

“Fui torturada e violada e a minha filha também”

Paul Odongo

Mais de 200 mil refugiados vivem no complexo de campos de Dadaab, no Quénia. Com o anúncio de que os campos serão fechados em junho de 2022, muitos sentem medo e incerteza sobre o que virá depois. Mas de uma coisa estão certos: não querem regressar à Somália, o país de origem da maioria dos refugiados. “Irei para qualquer lado que me levem, menos para a Somália”, frisa Halima*, de 33 anos, que partiu daquele país em 2008.

Fechar os campos de refugiados de Dadaab, no Quénia, e forçar as pessoas que ali se abrigam a regressarem aos países de onde são oriundas, vai conduzir a uma crise humanitária ainda mais grave.

Os refugiados que vivem em Dadaab veem esta decisão com profunda apreensão, especialmente quem antes já regressara à Somália e teve de voltar para os campos devido à violência generalizada e limitado acesso a serviços essenciais no país natal.

Paul Odongo

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Ahmed é um dos refugiados somali que se refugiou em Dadaab. Com 64 anos, vive agora com a numerosa família nas proximidades do campo de Dagahaley, um dos campos do vasto complexo de abrigo para refugiados. Em volta estende-se um campo aberto de terra batida a sul e de arbustos espinhosos a norte.

Apesar de ter conseguido construir um abrigo com arbustos cortados, tudo o que tem fica coberto de pó ao mais leve sopro de vento. E os dias de chuva não lhe trazem descanso, uma vez que tudo fica inundado.

A casa de Ahmed tem uma série de cúpulas improvisadas, feitas com quaisquer materiais que dêem à família alguma proteção dos elementos – sacos de papel, roupas esfarrapadas ou folhas de pvc que são usadas para fazer tendas. É ali que vive a sua família nuclear e também outros familiares.

Ahmed tinha regressado à Somália em 2018, através de um mecanismo de repatriação voluntária liderado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), mas acabou por voltar a Dadaab apenas dois meses passados, com a família a reboque.

“Aqui temos água gratuita nos pontos de recolha das torneiras, e a Médicos Sem Fronteiras também providencia gratuitamente cuidados de saúde. Porém não temos acesso a alimentos nem abrigos. Vamos todos os dias pedir ajuda às Nações Unidas, mas não nos ouvem”, conta Ahmed. “Nós, que fomos repatriados, não recebemos atenção nenhuma da ONU; as pessoas recém-chegadas têm um tratamento melhor. É este o ambiente em que vivemos, basta olhar em volta: nem sequer conseguimos ter um abrigo apropriado.”

Têm sobrevivido com o apoio de amigos e os parcos pagamentos que Ahmed recebe pelas aulas de madrassa que ensina no campo, mas tal não é suficiente para alimentar a família. “Não é fácil porque quem nos oferece parte das suas rações às vezes também as tem em falta, e dificilmente são suficientes para eles também”, explica.

As marcas das deslocações

Mais de 200 000 refugiados vivem atualmente no complexo de campos de Dadaab, tendo chegado ao Quénia em diversas vagas ao longo dos últimos 30 anos. Com o anúncio feito recentemente pelo Governo queniano e pelo ACNUR de que os campos serão fechados em junho de 2022, muitas destas pessoas sentem medo e incerteza sobre o que virá depois. Mas de uma coisa estão certas: não querem regressar à Somália, o país de origem da maioria dos refugiados em Dadaab.

“Irei para qualquer lado que me levem, menos para a Somália”, frisa Halima*, de 33 anos, que partiu daquele país em 2008. Vive agora em Dagahaley – um dos três campos de Dadaab – e há alguns anos sentiu-se compelida a voltar ao país natal após ter recebido notícias de que o marido, que regressara antes para preparar o retorno de toda a família, tinha sido raptado.

Mal chegou à Somália também ela foi raptada junto com os cinco filhos. “Fui torturada e violada, e a minha filha de 12 anos também”, conta. “Fomos libertadas ao fim de um mês quando o nosso estado de saúde se deteriorou, e conseguimos fugir de volta para Dadaab.”

Halima recorda que, quando ouviu na rádio o anúncio dos planos de encerramento de Dadaab, só conseguiu imaginar os filhos mortos e enterrados. “Partiu-se-me o coração”, desabafa.

Para Ahmed, o regresso à Somália durante aqueles dois meses em 2018 também ficou muito aquém do que esperara. “Tive esperanças em encontrar um país melhorado, com mais segurança e serviços”. Por isso preocupa-o o que poderá acontecer se Dadaab tiver de fechar: “Apesar de as nossas condições de vida aqui serem difíceis, são seguramente melhores do que na Somália.”

Outras pessoas, que já nasceram nos campos ou que ali viveram praticamente todas as suas vidas, perguntam-se para o que é que realmente vão voltar. “Não conheço nada na Somália. Toda a minha vida apenas soube o que é viver em Dagahaley”, diz Idilo Boro Amiin, de 20 anos e nascida em Dadaab, rodeada dos três filhos também nascidos no campo.

Paul Odongo

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Preocupações sobre o acesso a cuidados de saúde

Além das questões de segurança, muitas pessoas refugiadas em Dadaab estão ansiosas por não saberem como vão continuar a ter acesso a serviços essenciais, incluindo cuidados de saúde, depois de o campo fechar.

“A minha maior preocupação é como vou arranjar insulina para a minha filha”, explica a mãe de Idilo, Isnina Abdullahi. Idilo tem de injectar insulina todos os dias pela manhã e à noite desde que lhe foi diagnosticada diabetes de tipo 1 em 2009.

Atualmente, Idilo Boro Amiin integra um programa da Médicos Sem Fronteiras (MSF), no qual aprendeu a fazer os seus próprios testes de glicose, para verificar os níveis de açúcar no sangue, e a autoinjectar-se com insulina. Idilo recebe a insulina todos os meses no hospital e guarda-a numa caixa refrigeradora portátil.

Cerca de 50 pessoas carecem de cuidados continuados para a diabetes só no campo de Dagahaley, onde vivem mais de 70 000 refugiados, e outras 300 precisam de medicação regular para doenças crónicas como o VIH/sida, tuberculose e diversos cancros, assim como para problemas neurológicos.

As equipas da MSF levam a cabo todos os anos em Dagahaley uma média de pelo menos 700 cirurgias que salvam vidas, incluindo cesarianas.

“Se os campos encerrarem e não houver soluções alternativas para assegurar que as pessoas conseguem continuar a ter acesso a cuidados de saúde, será desastroso”, frisa o coordenador de projecto da MSF em Dagahaley, Jeroen Matthys. “Para quem escolher regressar ao país natal e precise de continuar tratamento é vital que sejam pensadas, com bastante antecedência, soluções para garantir que continua a receber os medicamentos”, avança.

Retornos forçados causarão profundas feridas psicológicas

Além de pôr as vidas dos refugiados em risco e deixá-los numa situação de limitado acesso a serviços essenciais, obrigar estas pessoas a voltar pode resultar em profundas feridas psicológicas, e que, provavelmente, terão para muitas um impacto duradouro.

Desde que voltou para Dadaab, Halima recebe tratamento para transtorno de stress pós-traumático na clínica MSF de saúde mental em Dagahaley.

A filha mais velha também precisa de aconselhamento psicológico regular – apesar de ter agora 16 anos, a jovem continua na segunda classe, como a irmã de oito anos. “Tem sido uma luta para a minha filha. Ela nunca recuperou do trauma que enfrentou [na Somália] e isso afeta a vida dela em todos os aspectos do quotidiano e até o desempenho na escola”, conta Halima.

Paul Odongo

Falta de clareza sobre os planos de fecho do campo

O ACNUR apresentou, em abril passado, um roteiro para o fecho dos campos, mas só no final deste ano é esperado um plano final. Isto deixa os refugiados com muito pouco tempo para se prepararem para o que se seguirá. Dizem que, seja o que for que aconteça, por agora têm apenas duas opções: reinstalarem-se num terceiro país ou ficar no Quénia.

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Hawa, de 35 anos, diz que não volta à Somália a “não ser que seja forçada”: “Fico bem se for reinstalada, mas se tudo o resto falhar, prefiro integrar-me localmente [no Quénia] do que voltar à Somália”. Esta mulher somali conta que o irmão mais velho, que voltara ao país natal em 2016, através do mecanismo de repatriamento do ACNUR, ficou gravemente traumatizado pelo rapto e tortura que sofreu às mãos de grupos armados na Somália, ao ponto de agora se recusar a dormir à noite.

“Aquilo que estamos a ver é que o regresso não se perfila como uma solução durável para muitas pessoas, não antes que condições de paz estejam firmemente estabelecidas nos países de origem”, avalia a chefe de missão da MSF no Quénia, Dana Krause.

“Muitos refugiados que voltaram contam-nos que a insegurança permanece generalizada na Somália. Por isso, em vez de apressar o fecho dos campos, o que é necessário é ouvir de forma significativa as populações refugiadas e as comunidades anfitriãs, para que as possamos apoiar no acesso a soluções sustentáveis e dignas”, sustenta ainda.

Mohamed Noor Mohamed, de 58 anos, é um dos líderes da comunidade anfitriã em Dadaab e conta que os refugiados e as comunidades locais criaram laços ao longo dos anos através de casamentos, fazendo negócios juntos e partilhando gado.

As comunidades anfitriãs, assevera, não estão satisfeitas com o plano de encerrar o campo: “Se os refugiados forem embora, também nós teremos de partir porque não conseguimos sobreviver aqui sem acesso a água potável e aos outros serviços que estão hoje ao nosso dispor”.

*Nome alterado para proteção de identidade

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.