Esquecidos

“Não temos dinheiro para pagar o tratamento"

Erwan Rogard

As pessoas no Sul de Madagáscar estão a viver uma crise alimentar e de nutrição excecionalmente grave que está a deixar milhares de crianças doentes e a empurrar famílias inteiras para a pobreza extrema. A assistência alimentar é urgente.

Equipas de emergência da Médicos Sem Fronteiras estão, desde março de 2021, a mobilizar cada vez mais clínicas móveis para fazer chegar assistência médica e humanitária a diversos distritos no Sul da ilha.

Foi ativada a distribuição de alimentos e, mais recentemente, aberto um centro de terapia alimentar em regime de internamento no hospital de Ambovombe, a cidade capital da região de Androy.

Magninavoatse levou a filha doente à clínica móvel da MSF em Mahabo, na região de Anôsy. “Não temos dinheiro para pagar o tratamento dela. Os nossos zebus e cabras foram-se todos. Os ladrões levaram tudo, até tachos e panelas. Não nos resta nada, é por isso que ela está assim. Tudo o que temos para comer é tubérculos de mandioca que cavamos na lama para encontrar. Claro que, comer algo assim tão mau, põe-nos doentes”, explica.

Ao fim de anos de secas consecutivas, as prospectivas para as colheitas – que em tempos normais estariam agora encaminhadas – são extremamente fracas. De acordo com o Famine Early Warning System Network, a estimativa de produção de alimentos deverá cair até uns 70% em relação à média dos últimos cinco anos.

“Durante a época das chuvas, vivemos de mandioca, mangas e folhas comestíveis. Mas não está a crescer nada porque não chove. Subsistimos com os tubérculos de mandioca que encontramos na floresta, frutos dos cactos e folhas. Temos de cavar na areia para arranjar água porque também há menos água à superfície. Todos os dias rezamos por chuva. Estamos a tentar manter-nos positivos, mas esperamos mesmo que a chuva chegue depressa”, conta Vitasoa, de 42 anos, que levou quatro dos seis filhos à clínica móvel da MSF em Ranobe, distrito de Amboasary, região de Anôsy. Todas as crianças foram incluídas no programa nutricional da organização médico-humanitária.

Embora possa haver variações de distrito para distrito no Sul de Madagáscar, em função de se localizarem nas terras altas ou nas planícies áridas, dependendo de existir ou não sistema de irrigação ou de a ajuda estar ou não a chegar às populações, a situação continua a ser catastrófica em toda a região onde as equipas da MSF se encontram a trabalhar. E há uma enorme apreensão sobre os próximos meses, uma vez que esta crise pode agudizar-se ainda mais com o início da estação de escassez.

iAko M. Randrianarivelo

Distribuição de alimentos

“Estamos a ver crianças subnutridas com muitas dificuldades para recuperarem o peso após semanas de tratamento nas nossas clínicas móveis. Os cuidados médicos que providenciamos e as meias-rações que têm sido distribuídas por várias organizações não são suficientes para reverter a tendência neste contexto em que há tão limitado acesso a alimentos”, descreve a chefe de programas de emergência da MSF Bérengère Guais, que esteve recentemente em Madagáscar. “O aumento maciço da assistência alimentar de emergência é uma prioridade absoluta”, frisa.

Além de prestar tratamento para a subnutrição e complicações médicas relacionadas, a MSF iniciou em junho passado a distribuição de rações de comida às famílias de pacientes mal-nutridos, para as ajudar a recuperar o acesso a alimentos.

Uma ração contém aproximadamente 66 quilos de arroz, feijão, óleo alimentar e sal, o que é suficiente para cobrir as necessidades de uma família durante um mês. As nossas equipas distribuíram já 1 588 rações (cerca de 104 toneladas de alimentos), e isto será repetido nos próximos meses.

iAko M. Randrianarivelo

Erwan Rogard

Erwan Rogard

Clínicas móveis

Clínicas móveis para fazer o rastreio e tratamento de má-nutrição aguda estão instaladas em mais de 15 localidades nas regiões de Anôsy e de Androy: 14 unidades no distrito de Amboasary e três no distrito de Ambovombe.

As equipas da organização médico-humanitária providenciaram tratamento a 4 339 pessoas em estado de má-nutrição aguda moderada ou grave, desde que começaram a prestar assistência médica nestas regiões no final de março passado.

Como a maioria dos habitantes das aldeias em volta de Ranobe, no distrito de Amboasary, região de Anôsy, que se deslocam à clínica da MSF naquela localidade, Sonambinina chegou a pé. Caminhou durante cinco horas desde a aldeia de Fenoarivo. “Trouxe os meus quatro filhos. Três sofrem de má-nutrição e estão agora no programa nutricional da MSF. Nós não temos gado e nada cresce da terra. Tudo o que temos para comer são tubérculos”, aponta.

“Ir para outro lado seria inútil. Não tenho dinheiro nenhum e, de qualquer forma, para onde iríamos? Mesmo que fôssemos para outro lado, isso não mudaria nada. Todo o Sul está a ser afetado pelo kéré [a palavra na língua local para a insegurança alimentar crónica]”, lamenta Sonambinina.

O estado de desnutrição das crianças no Sul de Madagáscar é agravado por uma série de doenças associadas, principalmente malária, que afeta 22% dos pacientes jovens da MSF na região, infeções respiratórias (18%) e diarreias (14%).

Na zona Sudoeste da ilha, estão a ser desenvolvidas mais avaliações das necessidades da população e iniciativas de rastreio da subnutrição, ampliadas também em Androy e Atsimo-Andrefana.

Internamento de crianças com desnutrição aguda grave

Em parceria com as autoridades locais, foi construido um centro de terapia alimentar em regime de internamento no hospital de Ambovombe, visando o reforço na resposta de cuidados a crianças subnutridas gravemente doentes.

Tendo arrancado com 40 camas, e estando uma extensão em curso para duplicar essa capacidade, o centro encontra-se já em pleno funcionamento. As três primeiras crianças assistidas neste centro deram entrada a 21 de junho, acompanhadas pelas mães, e pelo final da primeira semana tinham sido tratadas já 28 crianças.

Erwan Rogard

Acesso à água

Um terço das crianças subnutridas tratadas nas clínicas móveis da MSF no distrito de Amboasary sofrem também de diarreias ou de parasitoses, o que indica falta de provisões de água potável.

Desde março passado, as equipas da MSF distribuíram 190 metros cúbicos de água, 2 872 vasilhames para o transporte de água e 3 870 barras de sabão. Foram ainda reparadas 11 bombas manuais de água em instalações já existentes, sete mais estão prestes a funcionar de novo e foi iniciada a construção de nove outros poços com bombagem manual além de estar a ser avaliada a instalação deste tipo de poços em mais 24 locais.

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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.