A selva do estreito de Darién, cuja travessia é uma das mais perigosas do mundo, tornou-se a única rota de fuga rumo a Norte para milhares de migrantes, que se veem forçados a fazer jornadas esgotantes, a subir e descer montanhas, superar penhascos e precipícios e enfrentar rios com enchentes repentinas.
Estas pessoas sofrem acidentes na travessia e ficam cara a cara com a morte. A rota de Darién tem riscos acrescidos e os migrantes contam histórias de ataques terríveis cometidos por grupos criminosos que lhes roubam tudo o que têm, incluindo a comida e a água. As mulheres são também obrigadas a despirem-se e revistadas e, frequentemente, sofrem violência sexual.
A Médicos Sem Fronteiras (MSF) mobilizou equipas médicas e psicológicas para o Panamá, com o propósito de providenciar tratamento às pessoas migrantes assim que cruzam a selva.
Os testemunhos de quem faz a perigosa jornada através do estreito de Darién dão conta da luta individual para sobreviver, mas há também numerosas histórias de solidariedade e de apoio mútuo que, em muitos casos, são um salva-vidas para pessoas que de outra forma não sobreviveriam.
"Um lugar extremamente perigoso"
“Se eu tiver um copo de água, não o bebo todo. Se todos pudermos beneficiar disso, é melhor”, conta John, de 29 anos, que recentemente atravessou Darién.
John explica que decidiu ajudar Susana, uma mulher que tinha ficado para trás do grupo com o qual fazia a jornada e que ele encontrou já sozinha, com os pés feridos e incapaz de continuar a caminhar. John resolveu deixar o seu próprio grupo e ficar com ela até ao fim da travessia, onde quer que isso fosse. “Há muitas pessoas que precisam de ajuda lá na selva. Não quis deixar alguém como a Susana sozinha em Darién, quando eu a podia acompanhar.”
Fabiola Pintado, que é responsável pelas atividades médicas da MSF, frisa que “aquilo que os migrantes mais precisam é de rotas seguras e dignas da Colômbia para o Panamá”. “As pessoas não devem ser forçadas a atravessar a selva de Darién, dado o elevado número de atos criminosos, ataques e violência sexual que ocorrem pelo caminho, assim como devido à própria selva, que é um lugar extremamente perigoso. As pessoas arriscam a vida a atravessá-la”, aponta. E as pessoas mais vulneráveis nesta rota, acrescenta Fabiola Pintado, “são as grávidas, as crianças e as mulheres em geral que estão em elevado risco de agressões sexuais e violações”.
“É isto que mais me indignou: ser tão brutal, tão sistematicamente violento contra as mulheres. Migrantes da América Central costumam dizer-nos que há riscos de violência sexual no México, mas aqui esse risco é muito maior, a probabilidade de um ataque é extremamente elevada”, avança ainda a responsável pelas atividades médicas da MSF.

Face a este contexto, a MSF insta os Governos da Colômbia e do Panamá a encontrarem soluções para garantirem passagem segura entre os dois países e adotarem os necessários mecanismos de proteção nos seus territórios de forma a evitar mais mortes e sofrimento na rota através do estreito de Darién.
“Fiquei com ela, a dormir na lama”
John e Susana foram várias vezes ultrapassados por outros grupos de migrantes ao longo da jornada. Alguns deram-lhes comida, outros ajudaram John a carregar Susana pelos montes acima e na travessia dos rios. “Fiquei com ela, a dormir na lama, sob a chuva. Fiz com que ela comesse o que outras pessoas nos davam. Outros migrantes ajudaram-nos a atravessar os terrenos mais acidentados”, recorda John.
“Não sei onde fui buscar forças, talvez por sentir que tinha de ajudar outra pessoa e não a deixar para morrer”, explica. Quando John e Susana chegaram a Bajo Chiquito, já no Panamá, Susana teve de ser admitida no hospital para tratar os ferimentos. “Telefonei para a família dela para que soubessem que não morrera, que tinha conseguido atravessar e que ia melhorar”, conta ainda.
A psicóloga da MSF Gabriela Chávez lembra, por seu lado, que “os familiares do John, a irmã, estavam muito preocupados”. “Eles tinham obviamente chegado antes e o tempo que passaram à espera foi muito difícil. Começaram a perguntar-se se ele teria morrido”.
“Afeta-nos ver tantas pessoas morrer"
Nem todos os atos de solidariedade na travessia de Darién têm tal magnitude, mas muitos acontecem ao longo da rota e são um raio de luz por entre os perigos que as pessoas migrantes enfrentam.
“Afeta-nos imenso ver tantas pessoas morrerem durante a jornada. Não consigo descrevê-lo como algo menos do que um filme de terror”, relata Celia, oriunda de Cuba e que fez a travessia com as duas filhas e o marido.
“Porém, dentro deste filme, surpreendeu-me ver tantas pessoas que nos eram estranhas a ajudarem-nos, como se fôssemos família. Fizemos correntes humanas para conseguirmos atravessar rios, a segurarmos com força os braços uns dos outros. Partilhámos alimentos e água com quem não tinha nada. Encorajámo-nos uns aos outros. O espírito de solidariedade é inimaginável”, descreve.
As equipas da MSF neste projeto de ajuda humanitária aos migrantes que cruzam o estreito de Darién chegaram ao Panamá a 5 de abril passado. Até meados de agosto, os profissionais de saúde mental da MSF trataram 654 pacientes e realizaram 203 sessões de grupo. Foram feitas 19 234 consultas médicas nesse período, assistindo pessoas em Bajo Chiquito e nos centros de receção de migrantes em Lajas Blancas e em São Vicente.
Desde o primeiro momento, as equipas começaram a prestar assistência médica e psicológica a quem chegava da travessia da selva. “Bajo Chiquito é a primeira aldeia aonde os migrantes chegam depois de atravessarem Darién para o Panamá. Quando aqui chegámos, fiquei chocada com as condições em que migrantes e habitantes locais estavam a viver, com tendas e lixo por todo o lado”, recorda Fabiola Pintado.
“Assim que cheguei trouxeram-me um bebé de oito dias para observação. Tinha nascido na selva e o cordão umbilical fora cortado com uma faca. Tivemos de organizar o encaminhamento dele para o hospital mais próximo – na verdade, levá-mo-lo na nossa canoa, uma vez que os acessos para entrar e sair de Bajo Chiquito só são possíveis, durante boa parte do ano, através do rio Tuquesa. Nessa altura, eu tinha comigo apenas um kit básico de primeiros-socorros, porque ainda não começáramos as atividades. Avaliámos o estado do bebé e fiz aquilo que podia com o que tinha. Como médica, foi frustrante ver as necessidades existentes e não poder fazer nada naquele momento”, desabafa a responsável pelas atividades médicas da MSF.
Posteriormente, já chegados ao posto de saúde de Bajo Chiquito, algo mais impressionou Fabiola Pintado: “Assim que as pessoas nos viram, começaram a correr para nós a pedir ajuda médica. Examinei um rapazinho que tinha uma infeção oral e quando terminei essa consulta já havia mais cinco crianças à espera... As pessoas aglomeravam-se junto à cerca do posto de saúde, a mostrarem-nos os filhos e os boletins de vacinação – foi uma imagem impressionante”.
“Não sei como estou viva”
Gabriela Chávez recorda-se também da experiência terrível vivida por uma mulher haitiana, Marie, que fazia a jornada com o marido, mas que ficou sozinha para trás quando ele decidiu abandoná-la. “É uma das pacientes que assistimos que mais tempo passou na selva. Ela esteve lá três meses”, conta a psicóloga da MSF.
A história de Marie chegou ao conhecimento das autoridades do Panamá que, consequentemente, organizaram o resgate dela. “Não sei como estou viva. Passei dias sem comer. Ainda me sinto como se continuasse a estar na selva e a dormir debaixo da chuva”, desabafa Marie.
“As pessoas que me viam ajudaram-me ao longo do caminho, tanto quando podiam. Deram-me alguma comida. Foi assim que consegui sobreviver. E até aqui [no Centro de Receção de Migrantes em Lajas Blancas], as pessoas veem que continuo a ter dificuldades a levantar-me e ajudam-me. Cuidam de mim mesmo sem me conhecerem”, conta.
Gabriela Chávez explica que “os eventos traumáticos podem destruir a identidade e o bem-estar emocional das pessoas”. “Durante a travessia da selva, enfrentam perigos todos os dias, sem comida, sem água, nem um lugar para dormirem, e testemunham e relatam casos de mortes, agressões, roubos e violência sexual”, sublinha a psicóloga da MSF.
“Mas estes relatos falam de experiências vividas em tempos e espaços diferentes. De um espaço de fragilidade e de um espaço de força. De momentos em que foram sobreviventes e heróis ao mesmo tempo. E em que, apesar do sofrimento, muitas pessoas encontraram um importante apoio entre estranhos que se tornaram em família, em amigos, naqueles momentos de dor”, descreve.
Segundo a psicóloga da MSF, as memórias daqueles períodos de companheirismo, de empatia e de solidariedade são muito importantes para os pacientes conseguirem enfrentar os mais traumáticos acontecimentos vividos. “Têm um poder curativo: as pessoas fazem ligações a partir de uma posição de fragilidade, quando não importa quem és, de onde vens ou o que fazes. Mostrando simplesmente que ao sermos uma pessoa e oferecermos a nossa mão, podemos aliviar a nossa dor um bocadinho.”
*os nomes dos pacientes foram alterados para proteção de identidade
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Esquecidos é um projeto da SIC Notícias e da Médicos Sem Fronteiras que dá espaço aos que vivem situações de vulnerabilidade. Histórias de quem fica marcado por conflitos armados, catástrofes, migrações ou falta de acesso a cuidados de saúde. Testemunhos de quem é quase sempre silenciado. Muitas vezes esquecido.


