Desafios da Mente

"Quando estou com os avós sinto-me feliz"

Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

As investigações apontam que as crianças que têm avós envolvidos na prestação de cuidados podem ter melhores índices de saúde mental, como uma redução do risco de sintomas depressivos e de comportamentos desviantes, bem como melhor desenvolvimento cognitivo. Em Portugal, o Dia dos Avós celebra-se a 26 de julho. A data foi instituída pela Assembleia da República, em 2003.

Estamos em plenas férias letivas e talvez muitos de nós, nesta altura, rumámos durante anos para casa dos nossos avós, fosse na aldeia ou em ambiente mais citadino. Assiste-se, mais ao menos, ao mesmo na atualidade, uma vez que os pais não conseguem parar profissionalmente o mesmo período de férias escolares, as atividades de tempos livres nem sempre estão disponíveis ou acessíveis a todos os bolsos, sendo a única opção a casa dos avós.

Em Portugal, o Dia dos Avós celebra-se a 26 de julho. A data foi instituída pela Assembleia da República, em 2003, como uma forma de netos e filhos, quando existem laços positivos, presentearem simbolicamente os seus avós, agradecendo o apoio e dedicação dado à família.

No início de 2021, o Papa Francisco anunciou o primeiro Dia Mundial dos Avós, que será celebrado anualmente pela Igreja Católica no quarto domingo de julho. O Papa Francisco avançou que a velhice é uma dádiva, sendo que os avós são um elo entre gerações, guardando e transmitindo aos jovens a experiência de vida e a fé.

O contexto familiar

As primeiras experiências emocionais do ser humano, particularmente as experiências vivenciadas na infância ligadas ao cuidado prestado pelos adultos, são cruciais para o desenvolvimento da criança e consequente bem-estar ao longo da vida. Embora a prestação de cuidados pelos avós não seja um fenómeno social recente, o aumento da esperança média de vida e as transformações nos formatos e dinâmicas familiares, tais como a diminuição do tamanho das famílias e o aumento da empregabilidade da mulher, acentuaram o papel dos avós como prestadores de cuidados.

As dificuldades dos pais em alcançar um equilíbrio entre o tempo dedicado ao trabalho e o tempo dedicado à família podem levar a um maior envolvimento dos membros da família alargada, em particular dos avós. Alguns pais podem questionar os cuidados disponibilizados pelas creches e, por conseguinte, podem preferir recorrer aos avós.

Nos vários cenários possíveis, existem crianças que vivem com um dos avós juntamente com os seus progenitores, reunindo três gerações dentro de casa, ou até mesmo crianças que têm os avós, ou um deles, como principal cuidador. Os avós são, não raras vezes, os primeiros a assumir as responsabilidades de cuidar das crianças em resposta a situações como a prisão, emigração, consumo de drogas, desemprego ou na morte de um dos progenitores ou de ambos.

Quando se fala de família, é sempre preciso ressalvar que as virtudes refletidas neste texto apenas se aplicam aos verdadeiros avós dignos dessa palavra que encerra em si própria uma carga incomensurável de amor. É quase óbvio que os benefícios aqui partilhados não são atribuídas a situações em que os avós sejam maltratantes ou distantes afetivamente por motivos vários. Infelizmente, existem figuras familiares que são contrárias aos interesses de um saudável desenvolvimento das crianças. Há progenitores e progenitoras que, apesar de a biologia ter permitido que gerassem uma criança, não honram o dever de amar, cuidar e educar um filho, quanto mais de um neto.

A Importância dos avós

A investigação reconhece que o envolvimento dos avós, em termos de prestação de cuidados durante a infância, pode ser uma importante fonte de apoio para os adolescentes, especialmente durante e após eventos significativos da vida pessoal ou mudanças familiares, como são exemplos o divórcio parental ou o novo casamento de um dos progenitores.

Do ponto de vista familiar, uma relação próxima com os avós encontra-se associada a benefícios na promoção da resiliência e de uma melhor adaptação e funcionamento entre adolescentes, especialmente em situações adversas. Os relatos dos adolescentes que tinham uma maior ligação emocional com os avós estavam associados à redução do stresse e a menores dificuldades psicológicas.

As investigações vão além-fronteiras e são bastante curiosas. Os adolescentes com níveis mais elevados de perceção de proximidade emocional e de um maior envolvimento dos avós nas suas vidas relataram níveis mais baixos de dificuldades de ajustamento. Estas conclusões são apoiadas por estudos realizados no Reino Unido, Estados Unidos da América, África do Sul e Israel, nos quais melhores relações avós-netos foram associadas a menores dificuldades de ajustamento e a um melhor comportamento pro-social entre adolescentes. Por sua vez, quando existe uma relação emocionalmente mais próxima entre pais e crianças, existe também uma relação emocionalmente mais próxima com os avós, a qual se encontrava associada a um melhor bem-estar psicológico.

Mesmo perante a separação dos pais, os adolescentes cujos avós estavam envolvidos nas suas vidas relataram menos sintomas emocionais associados a depressão e mais comportamentos pró-sociais. Por isso, tem sido sugerido que os laços multigeracionais podem melhorar ou substituir as funções da família tradicional, proporcionando afeto e um sentido de proteção e pertença, em particular quando há instabilidade conjugal ou um divórcio em curso.

Também para os avós parecem existir vantagens, visto que assumir esse papel contribui para a longevidade. Pelo contrário, avós que não se voluntariaram para cuidar dos netos e veem a prestação de cuidados como uma obrigação podem experienciar níveis mais baixos de saúde mental e um maior isolamento.

Para refletir

Em termos emocionais, os avós são uma fonte de apoio na medida em que as crianças e adolescentes dialogam com os avós sobre a vida, discutem os sentimentos sobre os seus pais e potenciais conflitos e fazem ainda partilhas sobre as relações com os seus pares.

Assim, as investigações apontam que as crianças que têm avós envolvidos na prestação de cuidados podem ter melhores índices de saúde mental, como uma redução do risco de sintomas depressivos e de comportamentos desviantes, bem como melhor desenvolvimento cognitivo.

Porém, quanto à saúde física os resultados já suscitam maior reflexão, em particular relativamente à alimentação devido a questões relacionadas com a obesidade.

Para além da questão alimentar, alguns estudos alertam para as práticas educativas dos avós mais associadas à superproteção, podendo resultar em mais alterações comportamentais e emocionais das crianças. Em determinadas circunstâncias, a atuação dos avós pode ser sentida como uma tentativa de interferir ou insinuar algum tipo de incompetência parental, o que pode levar a um aumento da tensão e conflito na relação pais-avós.

Outro aspeto que merece ser equacionado reside no facto de que a proximidade emocional inerente à relação avós-neto tende a diminuir com o avançar da idade dos netos, ainda que esta relação continue a ser importante. A diminuição da proximidade emocional pode ser devida à evolução das atividades que os jovens vão concretizando, muitas delas digitais, e pelos jovens necessitarem menos cuidados em termos de necessidades básicas, concentrando-se em atividades sociais com os pares.

Curiosamente, ao nível do preconceito relativamente a idosos, percebeu-se que as crianças e adolescentes com contactos de alta qualidade, em termos de proximidade emocional, com os respetivos avós, especialmente se estes contactos forem frequentes e os avós estiverem de muito boa saúde, expressam menos preconceitos contra a população sénior.

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