Desafios da Mente

Devemos ou não falar de suicídio?

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Mauro Paulino

Mauro Paulino

Psicólogo Clínico e Forense

Inês M. Borges

Inês M. Borges

Designer Gráfica e Multimédia

Perto de 800 mil pessoas morrem todos os anos com recurso ao suicídio. Em Portugal, por dia, três pessoas põem termo à vida. Apesar das estatísticas, este é um assunto que continua a ser tabu para muitos. Afinal, devemos ou não falar de suicídio? Claro que sim, e todos nós temos algo a fazer. É importante, por exemplo, acabar com os mitos e as crenças.

O dia 10 de setembro assinala o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Esta efeméride é assinalada, desde 2003, pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e pela Organização Mundial de Saúde com a finalidade de prevenir o ato do suicídio e sensibilizar a comunidade.

Escrever suicide no motor de busca Google leva-nos a mais de 440 milhões de resultados. Estatísticas publicadas em 2021 pela Organização Mundial de Saúde relativamente ao suicídio pelo mundo em 2019 permitem chegar a várias conclusões.



Fatores de risco

A investigação sobre este tema tem permitido identificar vários fatores de risco. Por exemplo, um diagnóstico ao nível da doença mental, em particular depressão ou perturbações de ansiedade.

A depressão surge sistematicamente associada a grande parte dos suicídios, mais concretamente entre 45 a 80% dos casos.

Mitos e falsas crenças

A investigação tem identificado também um conjunto de mitos e falsas crenças que em nada ajudam a prevenção e os pedidos de ajuda, pelo que importa identificar alguns mitos e os factos que os desmentem.

Contexto social e cultural do suicídio

A compreensão do suicídio não dispensa a avaliação dos contextos sociais e culturais, uma vez que as formas de encarar e explicar o tema estiveram sempre relacionadas com a época e a lente social, cultural e religiosa.

Na atualidade, na maior parte dos países ocidentais, o suicídio não é punido, ainda que a instigação ou auxílio ao suicida constituam delito. De um modo geral, o suicídio tende a ser visto menos como um pecado ou um crime e mais como o resultado de uma patologia e, como tal, objeto de compaixão, mais do que condenação.

A escolha do método depende, pois, de uma interação entre género e cultura, que se nota, por exemplo, nos diferentes comportamentos suicidas dos chineses imigrantes a viver em Hong Kong, em Singapura, em Taiwan e nos Estados Unidos da América, com comportamentos que revelam não apenas diferenças significativas nas taxas de suicídio, mas também nos métodos escolhidos.

A título de exemplo, os chineses atiravam-se dos edifícios em Hong Kong e em Singapura, envenenavam-se em Taiwan e enforcavam-se nos EUA.

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Em muitas sociedades agrárias, em especial da Ásia do Sul, tal como em Portugal, os pesticidas estão facilmente disponíveis e constituem um instrumento popular para o suicídio.

Por sua vez, a disponibilidade das armas de fogo aumenta tipicamente a associação entre o comportamento impulsivo autodestrutivo e a morte, justificando particular atenção ao fácil acesso a armas e ao suicídio nas forças de segurança com cifras preocupantes.

Na diferenciação por sexo, em Portugal verifica-se uma relação aproximada de três homens para uma mulher, estável no tempo e válida para a maioria das regiões do território, à exceção das ilhas, onde atinge valores de cinco para uma.

A riqueza mais fundamental de qualquer sociedade está no seu povo, na sua gente. Investir na sua saúde é urgente, razão pela qual a Organização Mundial de Saúde defende que o suicídio é evitável.

Prevenção e controlo

Existem várias medidas que podem ser promovidas, a nível comunitário e individual, para prevenir o suicídio e as tentativas de suicídio.

► Limitar o acesso aos meios (por exemplo, pesticidas, armas de fogo, certos medicamentos).

► Articular com os media para relatos responsáveis associados ao suicídio, indicando os respetivos mecanismos de ajuda.

► Promover competências socio-emocionais na vida dos adolescentes.

► Identificar, avaliar, acompanhar e monitorizar precocemente qualquer pessoa afetada por comportamentos suicidas.

Os esforços de prevenção do suicídio exigem, para além de um investimento estratégico, capacitação, coordenação e colaboração entre vários setores da sociedade, tais como saúde, educação, trabalho, justiça, agricultura. As medidas devem ser abrangentes e integradas visto que perante um fenómeno tão complexo nenhuma abordagem isolada poderá causar o impacto pretendido.

"Todos nós temos alguma coisa a fazer"

Ana Matos Pires, do Programa Nacional para a Saúde Mental, disse à SIC Notícias que é importante estarmos todos disponíveis para ajudar. "A mensagem que é preciso passar é que há maneira de prevenir o suicídio e todos nós temos alguma coisa a fazer".

Para sensibilizar tanto a comunidade como os meios de comunicação social para este fenómeno global, a Direção-Geral da Saúde lançou um programa com várias iniciativas, eventos e webinares desenvolvidos pela Campanha Nacional de Prevenção do Suicídio, o intuito é falar sobre o suicídio e quebrar o estigma.

"Se perceber que alguém que começa a comportar-se de forma diferente, que anda mais em baixo, mais isolado, que começa até a descuidar a forma de vestir e de se arranjar. Faça alguma coisa", lê-se na página da campanha.

Este modelo pretende criar oportunidades de cooperação inter-regionais com vista ao desenvolvimento de iniciativas em regiões com menos recursos, recorrendo a uma estratégia de comunicação nacional.

Cartas de despedida

As cartas suicidas, ou outras mensagens equivalentes proporcionadas pelos novos meios de comunicação, embora não presentes em todos os casos, fornecem informação crucial para a investigação em suicidiologia.

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Uma análise cuidada desse conteúdo permitiu identificar algumas categorias relevantes, cuja tomada de consciência poderá facilitar um pedido de ajuda atempado:

► Dor psicológica intolerável – resulta de uma diversidade de sentimentos angustiantes, em que a desesperança e o desespero são significativos.

► Relações interpessoais – estão perturbadas devido a frustrações na afiliação ou vinculação.

► Expressões indiretas – são observáveis na ambivalência, agressividade e outras implicações.

► Constrição cognitiva – está relacionada com a rigidez, estreitamento do foco de atenção ou visão em túnel.

É, então, possível perceber que muitas dessas cartas denotam sofrimento, desespero, culpa, vergonha ou sensação de ser um fardo, o qual pode e deve ser partilhado com profissionais habilitados para esta matéria. Outros conteúdos podem envolver temáticas de perdão, reflexão, testamento e vingança.

O papel da comunicação social

Não é novo que os meios de comunicação social se constituem como vetores de influência entre o comportamento de uma determinada pessoa ou grupo e a população em que a mesma está inserida.

Assim, o conteúdo e a forma das notícias divulgadas pelos meios de comunicação podem promover ou prevenir atos suicidas, razão pela qual a Organização Mundial da Saúde publicou, em 2008, o Preventing Suicide: A Resource for Media Professionals (Prevenção do Suicídio: Um Manual para Profissionais dos Media).

Vários autores afirmam que determinados tipos de coberturas de atos suicidas pelos media podem desencadear um efeito de contágio, especialmente entre os jovens.

Os media têm o dever de tratar o assunto do suicídio de forma séria, o que envolve diversas orientações, tais como:

► evitar linguagem sensacionalista ou normalizadora do suicídio, em que este é apresentado como uma solução para os problemas;

► não incluir fotografias da vítima, do cenário do suicídio ou a descrição do método utilizado;

► escolher com particular cuidado os títulos, procurando não o publicar na primeira página ou em cabeçalhos;

► não atribuir o suicídio a causas simplistas ou associá-lo a um único fator;

► não divulgar o local, sobretudo, quando se trata de locais habituais de suicídio;

► salientar alternativas para o suicídio, transmitindo que a depressão é tratável e disponibilizando informações sobre linhas de ajuda.

Todos estes cuidados se devem à responsabilidade que os media têm de assumir um papel educativo e preventivo sobre o suicídio com a população.

Onde pedir ajuda?

  • Linha SOS Voz Amiga: 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 (diariamente das 15:30 às 00:30).
  • Linha Conversa Amiga: 808 237 327 / 210 027 159 (diariamente das 15:00 às 22:00).
  • Linha Vozes Amigas de Esperança em Portugal: 222 030 707 (diariamente das 16:00 às 22:00).
  • Linha Telefone da Amizade: 222 080 707 (diariamente das 16:00 às 23:00).
  • Linha Voz de Apoio: 225 506 070 (diariamente das 21:00 às 00:00).
  • Linha de apoio emocional e prevenção ao suicídio: 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 (diariamente das 15h30 às 00h30).
  • Linha SNS 24: 808 24 24 24.

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