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"Síndrome do ninho vazio": os meus filhos saíram de casa e agora?

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Não raras vezes, os pais pretendem que os seus filhos cresçam e tenham uma vida independente. No entanto, viver a experiência de ver os filhos a deixar o ninho pode ser agridoce ou emocionalmente desafiante.

Já todos ouvimos, numa ou noutra situação, a expressão “é a lei da vida”. Uma dessas situações é precisamente o momento em que os filhos se autonomizam e deixam a casa dos pais, ficando o ninho vazio de descendentes.

Nessa altura, os pais depararem-se com uma nova realidade, nem sempre fácil. Quando essa realidade assume uma proporção mais difícil de digerir, pode assistir-se a um conjunto de sinais e sintomas no casal, que agora fica só, resultando daí a expressão a síndrome do ninho vazio.

Uma nova etapa

A síndrome do ninho vazio não é uma patologia ou diagnóstico clínico. É, tipicamente, considerada uma reação disfuncional a uma fase de transição normativa e que integra o ciclo de vida, nomeadamente o momento em que os filhos deixam a casa dos pais. Trata-se de um passo natural, que faz parte do processo de se tornar um adulto e surge associado a possíveis e várias experiências, como por exemplo ingressar no ensino superior, concentrar-se na carreira, optar por locais de trabalho longe de casa ou o típico casamento e vida a dois.

Por norma, na verdade, os pais vivem na expectativa de que os seus filhos consigam fazer a sua vida e se torna independentes, abandonando a casa da família de origem. Porém, nem sempre estão preparados para lidar com as mudanças que daí resultam.

As pesquisas anteriores, que exploraram esta fase da vida, encontraram resultados divergentes na forma como os pais reagem. Alguns podem reagir negativamente ao ninho vazio, podendo surgir sintomas depressivos, stresse, sensação de perda, angústia emocional, frustração e ansiedade, em particular nas mães.

As reações negativas provêm de sentimentos de perda e dor que podem, em última análise, conduzir a reações disfuncionais, como por exemplo crise de identidade e conflito conjugal.

O ninho vazio não tem que ser necessariamente mau

A investigação mostra que os pais no ninho vazio podem revelar uma relação com maior qualidade conjugal comparativamente àqueles com filhos em casa.

Este resultado é explicado, em parte, pelo facto de os casais de ninho vazio estarem menos expostos a fatores de stress, tais como restrições de tempo ou conflitos entre trabalho e família.

Especificamente, os estudos descobriram que a satisfação conjugal é maior na fase de ninho vazio do que na fase de preparação, isto é, na fase em que os filhos se preparam para deixar o lar, sendo que os efeitos positivos tendem a persistir, após os filhos voarem do ninho.

Há pais que, perante um ninho vazio, podem florescer, procurando realizar planos que tenham ficado em suspenso, visto que no passado priorizaram atividades para crescimento dos filhos.

Esta experiência mais positiva para os pais pode revelar-se, por exemplo, pelo facto de estarem livres do papel quotidiano de pai ou mãe, preparando o palco para os pais se reconectarem e se concentrarem nos seus próprios interesses.

Além disso, um ninho vazio pode levar ao aumento da satisfação no casamento e na vida, especialmente para os pais que mantêm uma relação saudável com os seus filhos, depois da sua saída.

Hoje em dia, as videochamadas, o correio eletrónico, as mensagens e os bilhetes de avião low-cost potenciam os contactos com os filhos, mesmo depois de estes terem saído de casa e iniciado vidas independentes.

As diferenças

Existe uma variedade de fatores que influenciam a forma como os pais podem reagir à saída dos seus filhos de casa e definem se esta é uma experiência mais positiva ou, pelo contrário, mais negativa.

A investigação identificou mudanças na dinâmica familiar e nas normas sociais ao longo do tempo, bem como diferenças culturais. Mudanças nos papéis de género, oportunidades de trabalho, maior escolaridade, idade mais avançada da parentalidade e outras mudanças significativas podem influenciar a experiência de um ninho vazio.

Com base nas normas convencionais dos papéis de género, e que importam ser repensadas, as mães podem sentir maior angústia, quando os filhos deixam o lar devido ao seu maior envolvimento e energia ao serviço da parentalidade. Ainda assim, nos dias de hoje, é mais provável que as mulheres tenham maiores níveis de escolaridade e podem identificar-se com uma variedade de papéis, para além de serem cuidadoras.

A idade em que os filhos deixam o lar também tem flutuado nos últimos anos, muitos podem adiar a partida ou sair mais cedo, podendo não ser, no imediato, uma transição permanente. Por exemplo, um filho que se ausente para ir completar o ensino universitário, mas continua a ter a sua base na casa dos pais. Um outro aspeto que merece ser referido, é o aumento da esperança média de vida, pois à medida que as expectativas de vida aumentam, um pai pode passar muito mais tempo a viver sozinho, após a saída dos seus filhos.

Os fatores aqui resumidamente referidos podem fazer com que o período de transição para o ninho vazio se torne difuso e variado, assim como, por vezes, tardio.

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